Argumentação e Opinião - a propósito de José Saramago
O carácter persuasivo e refutativo da linguagem argumentativa, e que se pretende explorar, poderá conduzir à impossibilidade de se construir um discurso unívoco ou consensual, relativamente a qualquer problemática em causa. Ora, é precisamente aí que reside a virtualidade que se reconhece na lógica informal da comunicação e da praxis humanas, sem descurar o carácter intersubjectivo como mediação.
É a eficácia que permite entender o valor essencial da argumentação conjugada com a capacidade de pensar e com o leque de opções dos auditores a quem se dirige. A teoria da argumentação permite, através do conhecimento dos seus processos e das suas técnicas, distinguir os raciocínios aceitáveis dos raciocínios falaciosos. Se a verdade não é algo estável e de conteúdo absoluto (como o afirma a epistemologia contemporânea), também não é um registo puramente subjectivo. É sempre no âmbito dos contextos que a pragmática do discurso ganha significado. Como diz M. Mº. Carrilho, " A teoria da argumentação interessa-se por uma relação precisa: a que se estabelece entre quem sustenta uma hipótese, uma tese ou uma teoria e quem as recebe."
Sabemos como o regime democrático incentiva, pelo menos no plano dos seus fundamentos, o exercício da liberdade do pensar, o debate e a discussão, o confronto de opiniões e a prática plural das opções e dos valores. Este é o quadro para se compreender as atitudes e os comportamentos, bem como o incitamento à acção, na modelação concreta das problemáticas discursivas. Se analisarmos os discursos ideológicos, verificaremos que eles, políticos ou religiosos, ou seja, culturais, partem das técnicas de argumentação para persuadir e convencer os seus respectivos auditórios. O contexto da comunicação desenha sempre um plano que é, no fundo, a coordenação de um processo racional e de uma actuação social.
Pensar é um exercício de argumentação e de debate, onde a controvérsia, necessariamente, não está ausente. Polemizar é um verbo que deve incentivar a atitude crítica, fundar o gosto pelo confronto de ideias, pela dialéctica das opiniões. Nenhum tema está imune à actividade reflexiva, nada em definitivo se pode considerar estabilizado, normalizado. Pelo contrário, deve procurar-se o anormal na norma. O que choca a inteligência é o discurso repetitivo e unívoco da “verdade”, pensar é abrir fissuras no dogmatismo, sempre contrário à liberdade intelectual que se caracteriza pela recusa da aparência e da imediatez. Saramago soube exercer essa inteligência como souberam os seus críticos negá-la com a veemência própria dos detentores da verdade única e definitiva. Estes é que devem proceder a uma ruptura com a ignorância e reformular as suas respostas demasiado evidentes e assimiladas sem qualquer preocupação problemática. Insisto, nenhum domínio do saber é impermeável à incerteza, à dúvida, o que é uma vantagem, pois o processo de construção das ideias subentende uma dinâmica de abertura e inacabamento. Seja na pluralidade dos sistemas filosóficos, seja na formulação das teorias científicas, estéticas, éticas, religiosas, seja nas práticas e experiências vivenciais. É a expressão da tolerância e do respeito pelo outro o que aqui, fundamentalmente, está em causa. No fundo, provocar o pensamento a pensar o impensável, conduzi-lo para lá do limiar de qualquer absolutismo.
Carlos Frazão
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908568
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