Dom Casmurro: o auge da sutileza em Machado de Assis
A psiquiatra Nise da Silveira (1997) aconselha os novos estudantes de psiquiatria a deixar os livros tradicionais de lado e ler Machado de Assis. Dra. Nise assegura que Machado foi seu primeiro mestre e que ele é um escritor que pega as sutilezas. “Os livros tradicionais não falam sobre isso. (...) São elas que abrem o caminho para a alma, para o inconsciente”, conclui.
Mas, por enquanto, distanciemo-mos um pouco das citas de dra. Nise e dirijamo-nos ao trágico triângulo passional de Dom Casmurro.
A temática principal da narrativa gira em torno da paixão de um homem exageradamente cioso e incomplacente, o advogado Bento Santiago (Bentinho), para com sua esposa, Capitolina (Capitu), e seu melhor amigo, Escobar.
A história tem início num trem, quando Bentinho está indo da cidade para casa, no Engenho Novo, bairro do Rio de Janeiro. “Um jovem poeta seta-se a seu lado e começa a ler para ele seus poemas. Bentinho adormece, por desinteresse, e o magoado poeta passa a chamá-lo Casmurro” (SEPÚLVEDA, 1999).
Efetivamente, Bentinho é um casmurro, isto é, alguém metido consigo mesmo (id., ibid.). E, mediado pela própria solidão, após a morte dos pais, da esposa e do único filho que teve (se é que era dele), resolve investigar o próprio passado.
“Esta monotonia e angustia não o permitiram tomar outro rumo, a não ser interpretar a si próprio, voltar no tempo e indagar seu próprio inconsciente. Dessa forma, inconscientemente, Bentinho mergulha no o próprio passado, restaurando não apenas a adolescência, como também a infância e, principalmente, sua grande e inesquecível paixão: Capitu” (QUEIROZ, 2001).
Bentinho então “recompra a casa em que vivera parte de sua vida e todas as manhãs senta-se à sala, remobiliada como fora naquele tempo, e escreve ali seu ‘diário’ [que é o livro do qual falamos]” (SEPÚLVEDA, ibid.).
É como assegura dra. Nise, Machado de Assis é um escritor que pega as sutilezas. Em Dom Casmurro, ele é psicólogo e psiquiatra ao mesmo tempo (e mais que isso): evoca a memória inconsciente da mais significativa criatura fictícia casmurriana (Bentinho), condiciona-a a voltar no tempo, faz com que todas as suas impressões e sensações de afeto possam ser trazidas ao mundo concreto e consciente por uma sensação presente.
Para escrever essa obra (cf. LEITE, 1985), Machado formula um modelo de narrativa muito especial: cria um narrador imbuído da visão com (Bentinho), o qual se limita ao saber da própria personagem (ele próprio) sobre si mesma e sobre os acontecimentos de seu passado, exonerando a visão por trás: a onisciência e a onipresença de um deus que tudo sabe e tudo vê. Ou seja, quanto às suas reflexões e suas memórias, Bentinho é narrador, e, considerando-se que toda a tragédia casmurriana volta-se em torno de si, ele é protagonista.
Nessa narrativa, “Machado nos lembra uma lição sartriana um tanto amarga: ninguém se cura de si mesmo” (SEPÚLVEDA, ibid.). Lembra-nos também que os exageradamente apaixonados, ciosos e incomplacentes são sempre vítimas desses predicativos, tornando-se indivíduos demasiadamente sôfregos, perturbados e, por sua vez, perturbadores, visto como são antagônicos a uma parcela genuína de complacência (para mais ou menos) a qual existe naturalmente nas circunstâncias da vida.
Ali, esse autor utiliza-se de métodos: indutivo e dedutivo. Por um lado, induz-nos a mergulhar no inconsciente desse homem de 50 anos (Bentinho), mostrando-nos seus fantasmas interiores, seus medos mais secretos; por outro, a conta do que nos faz observar no inconsciente dessa personagem complexa, condiciona-nos às nossas próprias deduções, ou seja, leva-nos a questionar a respeito das demais personagens.
Em Dom Casmurro (cf. QUEIROZ, 2001), Machado vale-se ainda de facetas espetaculares: faz desabrochar uma literatura singular, oriunda de seu incontestável talento e de sua gigantesca liberdade criadora. Uma vez que amadurecido e seguro, resolve fazer algo atrevido: cria uma narrativa que não segue qualquer seqüência de ordenação, isto é, os fatos são narrados (pela personagem Bentinho) na ordem em lhe chegam à memória, sendo ainda interrompidos de vez em quando para súbitas conversações direcionadas a um provável leitor (também personagem).
Essa obra prima machadiana (cf. QUEIROZ, ibid.), é um texto complexo, psicológico (e por que não dizer psiquiátrico?). Igualmente, é uma ficção verossímil: não afronta a realidade. Nesse labirinto textual complicado, Machado conduz-nos sempre a indagações, “não pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade”, mas pela incógnita alusão às demais personagens. Será Capitu realmente adúltera? Apesar de Bentinho acreditar que Escobar é seu comborço, em momento algum podemos afirmar isso com total segurança. A reflexão fica no ar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.
LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1985.
QUEIROZ, Roberto de. Dom Casmurro. Revista da Famasul, Palmares, PE, Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul, ano 2, n. 2, p. 148, ago. 2001.
SEPÚLVEDA, Carlos. Introdução. In: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.
SILVEIRA, Nise da. Os normais são burros. Revista da Petrobras, Rio de Janeiro, SERCOM/CORIN, ano 4, n. 35, p. 4-5, abr. 1997.
Roberto de Queiroz
Publicado no Recanto das Letras em 08/10/2007
Código do texto: T686144
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