LEITURA E ESCRITA DEVEM CAMINHAR JUNTAS
LEITURA E ESCRITA DEVEM CAMINHAR JUNTAS
Por: Creusa Francisca Lima
Maria Inês Coelho Babiretzki
Regina Célia Nareci
Porto Velho-RO/Nov/2007
APRESENTAÇÃO
Agraciadas pela experiência em corrigir as produções de textos elaboradas pelos candidatos do ENEM temos o prazer de registrá-la, aqui.
Trabalho árduo, mas, à medida que avançávamos, descobríamos os elementos registradores dessa importância nos textos recorrigidos e a certeza do dever cumprido, como profissionais, deixava-nos empolgadas.
Milhares de textos em moldes e estruturas semelhantes e ou diferentes foram lidos por nós e procuramos vê-los e analisá-los da melhor forma, exatamente com o olhar do professor que valoriza seu aluno e vê nele um homem projetado para o futuro desse país.
Foi por isso, que durante esse trabalho, procuramos mostrar além da nossa experiência como profissionais, alguns elementos básicos necessários sobre aprendizagem, fundamentando-nos na importância da leitura e da escrita como objetos precursores da existência dos grandes escritores, que perfazem as maravilhas textuais que encontramos no universo da Literatura.
LEITURA E ESCRITA DEVEM CAMINHAR JUNTAS
A aprendizagem humana através dos tempos, vem galgando degraus substanciais que na verdade merece uma preparação especial por parte dos educadores e profissionais estudiosos dessa ciência, cuja preocupação está relacionada às modificações e operações da personalidade humana. Não só a criança por achar-se numa fase de adquirir um vocabulário específico, como também adolescentes e adultos, na ânsia de seus ajustes internos, bem como o de aprender coisas novas, encontram-se envolvidos nessa busca constante para solucionar seus problemas, ou mesmo alinhar-se ao meio social.
“...Contudo, há sim que se ter presente que o cotidiano e espontâneo representam pouco em termos de entendimento de cultura para qualquer ser humano da sociedade moderna. Cada criança necessita apropriar-se da herança cultural elaborada do passado para atingir um patamar crítico que lhe possibilite compreender o presente de forma mais abrangente e universal. O avanço da ciência e do pensamento humano deve ser o norte de crescimento para o educando, nunca o contrário...” (Luckesi. p. 140)
Desse modo a ansiedade de aprender é perceptível em todos os âmbitos da existência humana, dada a necessidade e a satisfação nata por tudo o que é novo e está ao seu alcance. Não há como existir transformação no ser humano, sem que haja aprendizagem.
Todo aprendizado é fruto da procura de restabelecer um equilíbrio vital que determina no ser humano um sentimento ajustado e compreensível de agir frente ao que é novo e trazê-lo para si.
A valorização do indivíduo aprendiz é grande aliada nesse intento, pois ele ao sentir que obterá sucesso naquilo que almeja, aprende mais depressa e vê-se satisfeito diante do que foi adquirido.
O bom professor assegura a seu aluno o que lhe foi ensinado, tomando como base uma relação do que se aprendeu, com uma outra que o aluno já sabe, fazendo com que a informação nova se funda com o conhecimento que já tem, por isso é que deve partir de conhecimentos internos que os alunos possuem para lhes ensinar o que é novo.
Há que se saber, porém, que o ser humano encontra em si, meios eficazes para o seu aprender, usando de planos e estratégias próprias, nas quais a mente se apóia para que se fixe a aprendizagem. Essa forma de aprender é vital no ser humano, quando do seu entendimento à situações e informações novas, ainda não internalizadas, mas que a sua vontade aguça-se em buscá-la para si.
“...não podemos nos esquecer de que cada aluno é um indivíduo. Na vida real, a experiência individual de cada aluno se constitui numa das maiores influências na validade das generalizações, que são baseadas no desempenho médio dos participantes dessa pesquisa experimental, considerando cada aluno individualmente. Descobertas de pesquisas raramente predizem precisamente o que um indivíduo em particular fará...” (Howe. p. 32)
As aptidões adquiridas no que se refere à leitura e à escrita são as mais importantes, porque, é por meio delas que se consegue certificar de que a maioria das atividades escolares poderá ser resolvida, uma vez que a leitura executada de forma correta, servirá para a resolução dos conteúdos de outras disciplinas, além do que outros textos de igual teor podem ser estruturados com exatidão, denotando, que ali houve aprendizagem e que ela ficará internalizada para a vida inteira.
Não poderia aqui, argumentar sobre as correções dos textos do ENEM, sem antes, falar sobre a aprendizagem e como ela se processa, para assim, obter posicionamento com relação às correções, propriamente ditas, haja vista a escolaridade dos nossos alunos não coincidirem com o que a maioria deles apresentou no desenvolvimento dos textos produzidos.
Sabe-se que a leitura como manifestação lingüística realizada pelo homem, registra através da escrita uma idéia já formulada internamente, e para que isso aconteça de maneira eficaz, há que se conhecer a língua com a qual se fará o registro, além de muitos outros aspectos a ela inerentes, para que se processe entre escritor e leitor a comunicação. Essa afirmativa pode parecer um tanto quanto excessiva e eloqüente, entretanto verdadeira – Haja vista, não se poder conceber entendimento de um texto, desprovido de contexto e de outros atributos da escrita, que fazem dele a exatidão e alargamento da comunicação.
Essas observações com referência ao uso da língua, permite dizer que a fala, muito embora sirva de comunicação entre seus membros falantes, na hora da escrita, é necessário, que se conheça alguns princípios lingüísticos normativos, capazes de enriquecer o texto e fazer dele um objeto de significante seguridade e prazer, de forma a envolver o leitor, sem se limitar a um amontoado de palavras de significação irrelevante.
“...a ativação do conhecimento prévio é então, essencial à compreensão, pois é o conhecimento que o leitor tem sobre o assunto que lhe permite as inferências necessárias para relacionar diferentes partes descritas no texto num todo coerente...” (Kleiman. p. 14)
A escrita escolhe elementos de um conjunto do sistema lingüístico, que possa torná-la, em todos os aspectos algo prazeroso aos olhos de quem vai ler, por isso o bom escritor deve se valer desses meios, com conhecimento de causa para que o efeito aconteça.
Dessa forma, a escola deve levar leitura e escrita juntas, em todas as atividades porque elas são fundamentais, na vida de todas as pessoas em muitas situações. Embora a escrita tenha sido criada para ser lida, sabe-se que para realizá-la é necessário ler o que se escreve; assim sendo, a leitura é uma habilidade adquirida antes da escrita, então; ambas devem caminhar simultaneamente, para que se possa ter bom leitor e conseqüentemente, bom escritor.
Nesse pensamento, vê-se que as escolas carecem de encontrar novos métodos que valorizem tanto leitura quanto escrita, e lançarem mão dos Parâmetros Curriculares Nacionais, tomando-os como norte para o ensino da Língua, a fim de que os alunos possam dela fazer uso com a propriedade necessária, conscientes, do seu manuseio. Mas, para isso, há que se imbuir de responsabilidade e hábito de ler, também, a comunidade, em que a escola está inserida. Diferente disso, seria continuar patinando, para colocar um número irrisório de pessoas nas faculdades, o que é uma lástima, se temos tantos profissionais de qualidade.
Na maioria dos processos de avaliação, costumava-se dar maior ênfase às questões gramaticais, observando com maior rigor a ortografia fora dos padrões, as particularidades referentes a morfo-sintaxe e a criatividade de construção, entre outras estruturas contextuais que evidenciam a forma textual, ficavam em segundo plano.
Entretanto, hoje, dado os avanços dos estudos lingüísticos aplicados a partir das produções textuais escritas, vê-se que algumas teorias abordam fatores da línguagem como: coesão e coerência, pertinentes à informação, aceitação, intertexto, situação e intenção, que vêm de encontro à análise do discurso, como fatores pragmáticos, vez que, como noção de molde de texto, tem na sociolingüísitca uma aliada, para se trabalhar a questão da variação, ao enfocar relações entre produtor/criador do texto e leitor – é que esses elementos lingüísticos que fazem parte do discurso, são muito produtivos, apesar de ainda não terem alterado a metodologia de ensino da Língua, nas escolas públicas do nosso país.
Levando em consideração o estudo da língua como um todo e a proposta de trabalho do MEC, sobre o processo de correção dos textos do ENEM, formalizam-se aqui as considerações, sobre o desempenho que os candidatos apresentaram.
O tema da produção de texto, solicitado aos candidatos do ENEM, foi oportuno por se tratar de um assunto muito discutido na atualidade que é “As diferenças e o desafio de se conviver com elas”. No transcorrer das correções, foram detectados vários níveis de construção textual. Isso gerou grande preocupação, haja vista, o nível de escolaridade dos candidatos.
Quando se fala em texto escrito, espera-se que o escritor lance mão de todos os recursos lingüísticos, viabilizados pela linguagem padrão, para atingir seu objetivo, entretanto, encontramos uma variedade tão diferenciada, que não parecia estar lidando com textos escritos por pessoas de um mesmo nível de escolaridade. Muitos se limitaram a escrever algumas linhas sem nenhum conteúdo – os chamados textos inexistentes (nulos). Outros fugiam totalmente do tema apresentado, quando não, ao invés de escreverem de forma argumentativa, contavam estórias com personagens, enredo, ação e desfecho, sem nenhuma condição de entrar nos padrões do que fora pedido como critério, pelo ENEM. Esses eram textos totalmente descartados, e ainda outros, que embora argumentativos nada tinham a ver com o tema proposto, era como se estivessem criando livremente sem terem tido uma proposta prévia daquilo que deveriam apresentar.
Os procedimentos utilizados para as correções, seguiam de acordo com as formulações textuais, seguindo os critérios abaixo:
• O uso da norma culta - como primeiro critério a ser avaliado, a partir do qual o texto vai tomando forma;
• O tema - parte imprescindível para se levar em consideração, a criação textual e consistência;
• Seleção e organização dos argumentos – é através dela que acontece o texto inteligente, criativo e consciente por parte de quem a organiza;
• Construção da argumentação: argumentações convincentes, claras, bem costuradas e definidas, prazerosas ao leitor;
• Proposta de intervenção – maneira pela qual o escritor se vale para embutir no texto sua idéia acerca de soluções para se resolver a questão argumentada no texto e ou sugerir que se busque novas fórmulas em estudos científicos, quando for o caso;
Foi uma tarefa que durou quarenta dias e milhares de textos passaram sob o crivo do olhar dos profissionais envolvidos nos assunto, “correção”, e como já é sabido que dentre muitos descartes, existem coisas boas, lá estavam os textos de boa qualidade, os quais deram prazer de ler, como também de inseri-los nos padrões de critérios estipulados pelas normas do ENEM.
Esses textos eram bastante criativos, mostravam um conhecimento bem amplo, pautado, não só no conhecimento morfo-sintático e estilístico, mas, na vivência e experiência da vida cotidiana, em cuja construção, os argumentos eram bem estruturados, e acercavam-se, da própria história política do nosso país, quando não, se embasavam nas mais remotas história de vida da humanidade, além do que, tomavam a religiosidade como pano de fundo de sua argumentação e isso vem comprovar que a leitura e o conhecimento de vida do ser humano, faz com que ele possa se expressar com competência e habilidade de quem é conhecedor da causa e validar sua argumentação no contexto, em questão.
Por causa disso, foi necessário cuidar com toda a atenção, para que se pudesse notificá-los com justiça, em conformidade com os critérios exigidos.
Dentre milhares de textos lidos, relidos e analisados, avaliou-se que os alunos mais maduros em conhecimentos puderam mostrar textos com maior consistência de argumentação e melhor condensados ao tema proposto, enquanto que os outros escreviam com mais superficialidade, buscando ao longo de sua construção repetir frases e ou vocábulos e até idéias inteiras dos textos, que lhes serviram de base, além de outros que fugiram totalmente do tema proposto, como já mencionamos acima.
Pode-se afirmar que os textos criados revelam grande capacidade de leitura, de muito candidatos concorrentes ao exame do ENEM neste ano de 2007, comprovando, assim, que o ensino no Brasil está melhorando e que embora, ainda não se faça mostrar, o nível de qualidade nas redações vem confirmar que a leitura é a mola propulsora que alavanca o ensino e a aprendizagem do aluno, e que como carro-chefe, deve fincar raízes em nossas escolas, como modelo de ensino em todas as disciplinas.
Sabe-se que a maioria dos nossos colegas que atua em sala de aula procura meios de fazer com que a leitura seja parte da vida das nossas crianças, mas é necessário muito mais, para que essa vontade torne de fato realidade.
Já ficou provado que a leitura tem o poder de ampliar a capacidade das pessoas, isto é; de transformá-las em falantes e escritores com maior poder de discurso convincente, porém, ainda, há um grande caminho a ser percorrido.
O trabalho que vem sendo realizado é bastante significativo, graças a um bom grupo de profissionais que levam a sério seus ensinamentos acerca do que é primordial na vida dos alunos, o que pudemos ver, a partir do conhecimento detectado em muitos textos. A argumentação embasada no mundo da história, da filosofia, da psicologia, da sociologia, entre outros... nos deixaram satisfeitas como educadoras.
Diante dos textos do concurso, pode-se dizer que 30% deles eram razoáveis e outros 20% bons, ficando 30% ruins e 20% anulados.
Esta separação em percentual, não é exata, pelo fato de que as redações não foram contadas e nem se fez uma seleção, das melhor ou das piores, procurou-se estabelecer uma média, a partir daquelas que voltaram para recorrigir e acredita-se que não há exagero.
É claro que ainda falta muito para que o ensino no nosso país, assim como a aprendizagem possa estar a contento, num patamar de competição com países de primeiro mundo, mas há segurança em dizer, que uma nova metodologia de ensino começa a se desenhar na fórmula como os alunos apreciam.
CONCLUSÃO
Depois da finalização dessa tarefa, passamos às considerações do que realizamos para registrar a importância do nosso trabalho e a nossa experiência, no que se refere ao tema abordado – “Correção das Redações do ENEM”, entretanto, cremos que o registro dessa atividade é mais uma comprovação de que a cada ENEM, há um crescimento, mesmo que em passos lentos, do número de candidatos que conseguem ingressar no ensino superior.
Realizar essa tarefa foi para nós, algo bastante prazeroso e enriquecedor que nos servirá de referência na profissão, além do que, pudemos aprender novos artifícios e estar em comunhão com outros profissionais, em âmbito nacional.
A partir das correções por nós executadas e da realidade retratada por meio dos textos que nos chegaram, observamos, quão grande é a necessidade de reformular toda a prática educacional, conforme preconiza os Parâmetros Curriculares Nacionais, embora sabendo que os mesmos já são usados, porém, é preciso que todos os envolvidos nesse contexto, realmente os tomem como norte para que o ensino da Língua seja eficaz.
Finalizamos, enfim, na certeza maior de que sem leitura e escrita juntas, num mesmo patamar de valores na vida do ser humano, não haverá de forma alguma, como existir bons escritores e bons leitores, capazes de colocar esse país em nível de igualdade com outros.
BIBLIOGRAFIA
KLEIMAN, Angela. Texto e leitor. Aspectos congnitivos da leitura. Campinas. Ed. Pontes.1999
LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. S. Paulo. Cortez.1991
HOWE, Michael J. A. Introdução à psicologia da aprendizagem. Vértice universitária.S.P.
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília. MEC/SEMETC. 2002
ORLANDI, E. (org) A leitura e os leitores. Campinas. São Paulo. Pontes. 1998
Creusa Lima
Publicado no Recanto das Letras em 06/12/2007
Código do texto: T767544
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