O Tempo Arqueológico II (Parte 2)
BREVÍSSIMA HISTÓRIA DO TEMPO
Por Marcos Pereira Magalhães
Whitrow (2005) diz que as idéias a cerca do tempo também retrocederam, reproduziram e mudaram de direção ao longo da história. Nasceram e morreram, foram formuladas, reformuladas e moldadas segundo cada cultura, religião, filosofia, ciência, arte e pessoa. Mas o tempo também é um aspecto fundamental do Universo, por isto, nenhuma faculdade de conhecimento isolada, em si só, é capaz de explicar a natureza do tempo. Portanto, a questão fundamental é não só reconhecer que as culturas amazônicas tiveram, cada uma delas ou em conjunto, um tempo histórico próprio que deveríamos identificar e contar, como também reconhecer que o Universo possui um fluxo de tempo que abrange e direciona todo e qualquer evento. Estamos falando do conjunto universal de todos os eventos históricos que, seguindo uma mesma direção de tempo, implica numa força coletiva onde todos seguem o mesmo rumo sem qualquer tipo de ordem centralizada ou modelo padrão absoluto.
Pode-se dizer que a idéia de tempo começou quando não se tinha qualquer idéia sobre ele, apenas uma leve intuição do seu fluir. Apesar da forte impressão que temos hoje de que o tempo é uma espécie de progressão linear medida pelo relógio e pelo calendário, no início a impressão maior era de que vivíamos em um presente perpétuo. Mas o fato do homem poder acumular saber e transmiti-lo aos seus descendentes abriu caminho para a intuição da passagem do tempo ser lentamente conscientizada. Isto não quer dizer que essa consciência levasse diretamente à progressão temporal. As primeiras idéias que surgiram, e isto ainda entre os caçadores-coletores cujas variáveis culturais eram muito homogêneas entre si, foram sobre a circularidade do tempo. Essa circularidade estava diretamente relacionada à observação da natureza, porém, da natureza observada pelos caçadores-coletores: o ciclo de fruição das plantas, da caça e das estações. Foi graças ao alcance dessa percepção de tempo que o homem foi capaz de domesticar as plantas e, fundamentalmente, de fundar sociedades agricultoras, já que ele tinha por certo que o ciclo se repetiria e o cultivo resultaria em produto, o produto em satisfação, a satisfação em força de trabalho e esta em novo cultivo e assim, sucessiva e eternamente.
Os agricultores herdaram e aprofundaram essa idéia de circularidade do tempo, que no Ocidente e Oriente Médio, foi até o limiar da Antiguidade. Porém, também foi entre os agricultores e os pastores que as idéias de tempo começaram a se diversificar histórica e culturalmente. Por sua vez, foi entre as civilizações urbanas da Antiguidade que o tempo linear começou a despontar, especialmente entre os povos monoteístas, tais como os hebreus e os iranianos. Finalmente, foi graças à ascensão e ao universalismo do cristianismo que a idéia de tempo linear se impôs. Para eles, a doutrina central da crucificação era um evento único no tempo, não sujeito a repetição, implicando assim que o tempo deva ser linear, progressivo, e não cíclico. Santo Agostinho foi o primeiro pensador a se debruçar sobre a questão do tempo. Combatendo ferozmente a concepção cíclica pagã (o Eterno Retorno), a concepção cristã do tempo atinge a sua primeira formulação madura nele.
Ao longo da Idade Média os tempos cíclicos e lineares conviveram em permanente conflito, pois, na essência, o tempo místico ainda não havia sido suplantado pelo tempo científico. Fato que começa a acontecer com o mercantilismo, quando o tempo passa a ser contado em horas e a sua mobilidade passa a ser um requisito fundamental da economia e da circulação de moedas. Com isto, a morosidade observada na passagem do tempo cíclico vai sendo paulatinamente substituída pela velocidade cada vez maior do tempo linear, cujo clímax é alcançado com o avanço global do capitalismo. Não obstante, isto não quer dizer que, cientificamente falando, o tempo linear tenha se imposto assim que houve a ascensão do capitalismo e das suas sociedades industriais. No século XVII, enquanto Francis Bacon em 1602, dava lugar ao novo conceito de progresso linear em um trabalho intitulado “O Nascimento Masculino do Tempo”, Isaac Newton, em 1675, comentava no “O Livro das revelações e o Livro de Daniel” (publicado após sua morte), que o mundo já havia completado seu ciclo e estava chegando ao fim. O que se tem por certo, porém, é que nesta época os pensadores ainda confundiam tempo com história.
Foi a partir de Descartes que a idéia da evolução cósmica, embutida na linearidade do tempo, domina o pensamento moderno. Ao contrário de Newton, que usou a teoria da gravitação para explicar como os movimentos orbitais dos planetas e dos satélites podem se manter, Descartes defendeu a idéia de que originalmente o mundo era cheio de matéria distribuída de maneira mais uniforme possível, e esboçou qualitativamente uma teoria de formação sucessiva do Sol e dos planetas. Sua idéia de um Universo evoluindo por processos naturais inspirou uma sucessão de teorias de evolução cósmica. Mas foi Kant, em 1755, partindo da própria teoria da gravitação de Newton, quem admitiu, pela primeira vez, que nós vivemos em um universo evolucionário ou em desenvolvimento, no sentido de que o passado é essencialmente mais simples que o presente. E foi também ele quem começou a demarcar a fronteira entre tempo e história.
Segundo Whitrow, hoje, já não é o tempo que produz os efeitos da sua passagem, mas o que ocorre no tempo. Isto é, ele não é uma simples sensação, pois depende dos processos de organização mental que unem os pensamentos à ação. Acredita-se, em nossos dias, que o senso do tempo é produto da evolução humana, e que a percepção dos fenômenos temporais não é um processo puramente automático como pensava Kant, mas uma atividade por atos de atenção sucessivos. Por isto, não podemos atender a dois acontecimentos simultâneos e perceber os dois claramente, a não ser que eles apresentem alguma conexão qualquer. É por isto que existem tempos paralelos e, consequentemente, histórias paralelas e simultâneas, cujos atores sociais seguem projetos e técnicas diferentes na construção de suas experiências particulares.
Cada uma dessas histórias paralelas, para o homem atual, instintivamente, segue uma trajetória seqüencial e progressiva, por conta da sua sofisticada capacidade biológica e diversidade social (resultante da nossa evolução) de sintetizar, em uma ordem de tempo única, as experiências associadas aos diferentes sentidos. Essa capacidade de percepção unidimensional do tempo histórico é uma qualidade intuitiva. Entretanto, a capacidade de conectar as diferentes histórias entre si, depende do grau de consciência que se tem delas e da intuição poder identificar os pontos das conexões existentes. Isto não é a mera ordenação delas numa seqüência linear, mas algo que está além do senso comum: a compreensão de que um evento é apenas uma parte de um acontecimento maior, composto por inúmeros outros eventos, nenhum deles capaz de representar o conjunto deles em si. Enfim, nenhuma história é universal e nenhum universo é intrinsecamente único. O Universo é múltiplo e é o corpo coletivo da sua multiplicidade que dá rumo e sentido às suas partes e, vice-versa.
Segundo alguns físicos, entre os quais se destaca Hanking, a entropia é a base da evolução ou da direção da seta do tempo, porque a entropia de qualquer sistema isolado está sujeita à segunda lei da termodinâmica e, portanto, não se conserva. O nosso Universo é tido como um sistema isolado, deste modo, a termodinâmica indica a direção da evolução do mundo, associada ao crescimento da entropia. Essa evolução, conseqüentemente, só pode ser na direção de uma maior complexidade, uma vez que este é o modo como a natureza compensa a demanda de energia na entropia que direciona a seta do tempo.
Mas o Universo como um sistema isolado é apenas uma teoria cosmológica baseada em evidências físicas que também nos permitem outros universos possíveis. Por exemplo, o Universo sob a ótica de conceitos da teoria da comunicação. Desde a década de 1970 que a teoria da comunicação tem passado por uma transformação incrível, exercendo uma grande influência sobre as sociedades humanas contemporâneas. Tanto ao nível de desenvolvimento tecnológico quanto de comportamento e de compreensão do mundo em que vivemos. Conceitos como de realidade virtual e de rede têm aberto janelas para novos horizontes do conhecimento. Entretanto, este caminho vem sendo conquistado com enfoque pesado na eficiência artificial, através do desenvolvimento tecnológico. Porém esses conceitos são, ontologicamente falando, muito mais profundos e importantes do que o senso comum imagina, pois eles também influenciam a nossa própria compreensão de natureza.
Os cosmólogos afirmam que o Universo é plano, mas que se dobra sobre si mesmo no infinito. Cada plano da estrutura cósmica seria uma dimensão ou um outro Universo completamente diferente. Podemos imaginar o Universo como uma massa que é esticada, dobrada, novamente esticada e então dobrada, assim, sucessivamente. O Universo, portanto, seria como um salgado ou um doce folhado, ou ainda, como um extenso caderno de papel sanfonado, em que suas folhas dobradas não se tocam. Haveria, entretanto, entre um Universo e outro, uma distância quase infinita (SILK, 2006).
Concomitantemente, independente da existência de atalhos entre os diferentes Universos, permitidos por este modelo cosmológico (por conta do imenso efeito gravitacional exercido pelos buracos negros) o fato é que o cosmos se expande e se dobra em todas as direções. Sendo assim, podemos imaginar que os Universos atravessariam uns aos outros, fato que aconteceria sem colisões, se cada um estiver na sua própria e diferente dimensão. Por outro lado, também podemos desenvolver um modelo de travessia sem colisões, se entendermos o Universo não como um sistema, mas como uma rede. Melhor, como uma imensa e complexa teia onde cada fio é um universo e cada universo está conectado a outro, ocupando o seu próprio lugar, mas todos interligados numa fantástica malha cósmica onde tudo e todos estão conectados.
Tal Universo teria ainda outra característica que eliminaria nossas preocupações com as distâncias imensamente grandes. Sabemos que a teoria da relatividade mostrou que a velocidade máxima possível para um corpo material percorrer a distância entre ele e outro, é a da luz. Contudo, além desta velocidade ser um tremendo problema para nós podermos atingi-la e, uma vez atingida, de nos mantermos tal como éramos no ponto de partida, as distâncias são tão grandes fora do nosso universo, que milhares de anos luz são necessários para serem percorridas. Mas uma estrutura universal em teia não teria este problema. Afinal, não existiria distância entre um corpo e outro, pois, tal como em uma teia de aranha, todos estariam intrinsecamente conectados. Numa teia, os fios interligados servem como um veículo de informação, que transmite, para deleite da aranha e aonde quer que ela esteja na teia, a posição precisa da presa. A aranha sabe exatamente onde está a vítima, porque cada ponto do fio vibra conforme a sua posição na malha da teia.
Assim seria o Universo, não um simples sistema, mas uma complexa teia repleta de sistemas (abertos, fechados ou localmente isolados) com estruturas e características físicas particulares, cujos eventos transmitem, conforme sua natureza e posição, uma informação que lhe é própria. Essa informação é resultado dos fenômenos que ocorrem no interior dos sistemas e da relação entre eles. Em princípio, é um efeito e não um plano. Todavia, todos os sistemas transmitem informações simultaneamente, porém, essas informações só são absorvidas por aqueles que têm capacidade de receptá-la ou são fisicamente afetadas por elas. Analogamente, é isto o que acontece com as ondas de luz, entre as quais algumas são percebidas pelo olho humano e outras não.
Não sendo um sistema, conseqüentemente, a segunda lei da termodinâmica não se aplica ao múltiplo e intricado Universo, que assim nunca entraria em colapso absoluto. Por outro lado, não havendo distância entre os corpos, a velocidade para um atingir qualquer outro corpo seria nula. A matéria, que nada seria se não fosse elemento de um conjunto em correspondência com outros conjuntos materiais, além de tetradimensional seria, assim, uma trigonotela (trigono do grego trígonos, que quer dizer espaço triangular; tela do latim tela, que quer dizer teia – enfim, posição tetradimensional onde a matéria se organiza em teia). Ou seja, qualquer corpo material correspondente que ocupa um lugar no espaço tem uma ”função trigonotelária”. A própria estrutura cosmológica do Universo é uma função trigonotelária.
A concepção deste Universo dinâmico, onde os sistemas estariam conectados em uma imensa teia cósmica, implica na ocorrência de acontecimentos interativos, independentes de distâncias espaço-temporais. Além disto, este seria um Universo cujos acontecimentos são interconexões contínuas de fluxos que nunca se repetem, porque quando um sistema ou um conjunto de sistemas recebe uma mensagem, ele a retransmite conforme sua natureza e capacidade de recepção (ou reação).
A capacidade de ordenação deste modelo cosmológico retira da matéria a sujeição à casualidade, pois lança os eventos para além da localidade, integrando-os a um corpo, no qual mente e matéria são aspectos correlatos, assim como espaço e tempo: eles são individuais, mas interdependentes e unificados em um todo, cuja realidade não pode ser considerada matéria ou consciência isoladamente. Deste modo, pode-se dizer que há uma integração que suplanta a relação matéria-consciente para atingir, finalmente, a relação energia-inconsciente.
Desculpe-me por não fazer a demonstração matemática deste modelo e nem da função trigonotelária; certamente os leitores não a suportariam; por outro lado, sou apenas um arqueólogo sem pretensões de exatidão. Mas a mesa está posta: as conseqüências para a nossa compreensão da natureza são o prato principal; a entrada é o de um mundo sem distâncias espaço-temporais; os comensais são filósofos, cosmólogos e matemáticos que aceitem o desafio. E que desafio! Os arqueólogos? Bem, aqui somos o cozinheiro e os garçons. O desafio não é a receita, mas compreender que sendo o mundo outro, outra deve ser nossa postura frente ao tempo que se revela na arqueologia.
Há ainda outra característica desse Universo, que gostaria de observar. O entendimento dela, no entanto, é fácil. Não tendo apresentado uma conclusão sobre se esse Universo seria eterno, cíclico ou eventual, então, quando o tempo cósmico começaria? Bem, o modelo cosmológico de maior sucesso diz que o Universo começou com o Big Bang, ou seja, com uma explosão primordial e, portanto, teria um fim. Mas será isto mesmo? O que importa é que ao longo da existência do Universo, uma série incontável de eventos ocorreu e vem ocorrendo, constituindo diferentes acontecimentos com as mais diversas durações e intensidades. Esses acontecimentos vão desde os astronômicos, de durações extremamente longas, até os subatômicos, de durações incrivelmente curtas. Ou, desde aqueles cuja potência é o simples despencar de uma gota d´água de uma torneira, até a potência resultante do catastrófico choque entre duas galáxias. Entre esses existe uma categoria de acontecimentos, os extremamente longos, simultâneos a uma infinidade de outros, que acontecem no suceder dessas durações extremas.
Como disse, os eventos são fenômenos que ocorrem no interior dos sistemas, cujos efeitos geram informações. Mas essas informações, obviamente, possuem um sentido que é instantaneamente transmitido para toda a teia cósmica. Um acontecimento pode açambarcar diversos sistemas, constituindo um conjunto de eventos espaços-temporais. Ora, se o acontecimento tem um sentido, ele deverá possuir uma organização interna imanente, que orienta todos os sistemas a ele relacionados e, simultaneamente, por eles é reorganizado. Por isto, determinados acontecimentos exercerão sobre determinados sistemas, como um atrator da teia, uma influência modeladora, fazendo com que todos convirjam para uma noção comum compartilhada, ainda que todos eles apresentem diferentes padrões de organização. Por outro lado, como os acontecimentos possuem diferentes tempos de duração, a transmissão da informação e a sua potência dependem da duração do acontecimento. Acontecimentos muito longos possuem, assim, maior capacidade de influência externa sobre a rede, porque seu sentido é mais constantemente replicado por seus eventos.
Os acontecimentos só serão simultâneos se estiverem em durações contemporâneas. Acontecimentos cujos eventos já se esgotaram não exercem e nem sofrem influência além da inercial. Ainda que os fenômenos astronômicos observados sejam coisa do passado, fenômenos astronômicos não observáveis estão ocorrendo e transmitindo seu sentido organizador aqui e agora. Isto implica, também, em certo a priore kantiano, pois a ordem proveniente de um sistema exterior, ao entrar em contato com a ordem interna de outro, gera as potências reorganizadoras desses mesmos sistemas, preparando desde já, o que eles virão a ser no por vir. Por tudo isto, não importa se a teoria do Big Bang esteja certa ou errada, mais do que estarmos sofrendo uma mera influência inercial, eventos cósmicos que constituem acontecimentos cuja duração ainda estamos vivendo, estão organizando os mundos astronômicos e subatômicos. Isto é, todos os demais outros acontecimentos. É justamente por conta disto, que o próprio Universo seria um mar de energia inconsciente.
Mas a física clássica explica muito bem o nosso universo imediato, de modo que a entropia ainda deve ser considerada, uma vez que os sistemas conectados na teia funcionam como conjuntos associados, mas particulares. Nele, contudo, os processos da vida muitas vezes parecem negá-la, porque a morte e a extinção, na maioria das vezes, resultam em mais vida e regularmente mais complexa do que aquela anteriormente dominante. A vida se repete na diferença. O vir a ser diferente impõe-se pelo fato da entropia não estar ligada determinativamente a um processo anterior, mas nas características marcadas nos processos em andamento. Isto implica na impossibilidade de podermos retraçar seus sentidos e processos de causação, a partir de princípios ou estruturas “originais”. Assim, toda noção que temos do mundo é um sentido presente, já que não podemos pensar causalmente um sentido que não tem princípio e nem fim determinados. Isto não quer dizer que esse presente seja eterno, muito pelo contrário, ele permanece apenas pela sua capacidade de nunca se repetir.
Por outro lado, a assimetria do tempo permite uma inversão da entropia na história, uma vez que a organização dos eventos em um acontecimento parte de um estado desordenado para uma ordem cada vez mais complexa, o que também contradiz a termodinâmica; mas a energia dissipada na reordenação dos eventos em um acontecimento é muito maior, e aumenta a desordem da organização anterior, antecipando a ordenação dos eventos futuros. Isto ocorre porque a história, igualmente ao cosmos, não é um sistema isolado, mas antes, uma teia. Portanto, ainda que possa ser composta por acontecimentos abertos e fechados, ela não tem fim em si. Ela veio a ser apenas quando o homem percebeu o tempo. E ele só o percebeu porque ocupava uma posição no espaço diferente daquelas ocupadas por outros homens, coisas, objetos e naturezas exteriores.
Esta tautologia de raciocínio visa introduzir a questão da posição do tempo na dimensionalidade da natureza. O nosso senso comum induz-nos a acreditar que a natureza é tridimensional. Mas no início do século passado foi demonstrado que a natureza é tetradimensional. Isto é, além de altura, largura e comprimento, há outra dimensão: a temporal. A relatividade geral condicionou essa temporalidade à existência de um referencial. O tempo, para ser, tinha que ser relativo a alguma coisa. Neste caso, são necessários, no mínimo, dois corpos referenciais para termos a percepção da tetradimensionalidade da natureza. Durante muito tempo a mentalidade ótica das sociedades modernas dificultou a compreensão dessa tetradimensionalidade. Até recentemente era comum ouvirmos dizer que a quarta dimensão era simplesmente o tempo e que, portanto, não poderia ser representado e nem visualizado. Problema talvez causado por esquecerem que na relatividade geral, tempo não se separa de espaço. E ainda, que numa natureza não determinista, o tempo precede a matéria (PRIGOGINE, 1996). Ou seja, se o tempo está na matéria desde sempre, ele pode ser definido pela posição do corpo no espaço. Assim, as quatro dimensões são: a altura, a largura, o comprimento e a posição do corpo no espaço. As quatro dimensões não só são mensuráveis como visualmente representáveis. Isto ocorre porque a natureza do espaço é o tempo e a sucessão temporal da matéria é dada no espaço.
Portanto, a tetradimensionalidade da natureza implica em que o homem está no tempo, porque ocupa um lugar no espaço. E é a partir daí que ele vivencia a história, que só deixará de existir quando não houver mais Homo sapiens para vivificá-la. Mas como o homem vivifica e dá curso à história segundo o fluxo do tempo e a sua posição no espaço?
O TEMPO HISTÓRICO
Em As regras do método sociológico (2001:102), Émile Durkheim escrevera que: “o todo não é idêntico à soma de suas partes: o todo é alguma coisa diferente e suas propriedades não são iguais às das partes que o compõem”. Atualmente, além da autonomia da dimensão sincrônica ser mais do que evidente, também se tem por certo de que as partes são assimétricas ao todo e, em boa medida, assimétricas entre si. Daí que as partes não são meras peças de fantoche de um teatro com um enredo previamente ensaiado. Mas atores autônomos que escrevem o enredo simultaneamente enquanto atuam. Assim, nenhuma parte representa o todo, contudo, o todo é o resultado do modo como as partes se organizam. Ele, o todo, dá o rumo histórico às partes que fazem esta mesma história vir a ser. Ou seja, as partes estão sujeitas às regras do todo, mas são as partes do conjunto que escrevem as regras.
Essa é a solução mais clara que se pode ter para as contraditórias idéias tradicionais de tempo, história e memória, que se tornam paradoxais quando reunidas. Hoje, a história pode não ser mais o progresso linear no interior de um grupo, e muito menos a ação evolutiva de um todo sobre a parte, tal como defendido por Cardoso (1988). No entanto, também não é o todo progressivamente desenhado pela parte e pela ação das partes, em sua extrema individualidade, tal como sugerido por Neiva (2003). A vida natural, na qual o homem está incluído, caracteriza-se pela liberdade, mas tanto o mundo natural quanto o humano são universos de uma construção coletiva feita pelo modo como se organiza cada uma das suas partes.
No desenrolar da evolução histórica, o que se vê é uma incessante reorganização estrutural das sociedades humanas promovendo as renovações. De um lado, o que se tem é o reconhecimento inevitável de que os produtos da cultura humana são constantemente modificados; caso contrário, não haveria diversidade de costumes e instituições através das culturas. De outro lado, o mesmo acontece, ainda que a um ritmo diferenciado e mais lento, no reino da natureza. Tal como os outros animais, nós e cada organismo vivo carrega consigo e faz avançar a história de sua espécie, coletivamente. O gene é egoísta, mas são os outros com os quais convive que lhe permitem ser. O sujeito isolado não é, porque isolado ninguém pode viver o devir. Consequentemente, na teia da vida, as conexões que se estabelecem entre os seres retiram dos processos evolucionários o determinismo lamarkiano, o progresso linear teleológico e a tipologia essencialista.
Não sendo circular e nem linear, como já sugerido, a peculiaridade geométrica do tempo histórico assume uma forma que é, grosso modo, a síntese das duas: uma espiral. O que isto quer dizer? Antes de mais nada devemos reconhecer, que apesar do sucesso na ciência, desde o Iluminismo, da concepção linear, onde tão bem se encaixava a flecha do tempo (passado/presente/futuro), A história circular, através da idéia do Eterno Retorno, sempre contou com defensores, mesmo na modernidade. Na modernidade chegamos a ver idéias afirmando que o presente não existe, porque o instante presente seria a linha ideal que separaria o passado, que já não é, do futuro, que ainda não é. Desse modo, tudo seria passado e a arqueologia, a história, a antropologia, a sociologia, a política e a economia só poderiam lidar com o presente se fossem capazes de aprisioná-lo congelado em um instante perpétuo. Mas esta fugacidade instantânea do presente só seria realmente possível se vivêssemos em um tempo histórico ausente de qualquer duração. Pois bem, o grande mérito dos defensores modernos do eterno retorno, como Nietzsche e Heidegger, foi mostrar justamente, que a história é uma plêiade de durações.
Deleuze (1988:386) esclareceu que para Nietzsche, se “nos Antigos o eterno retorno pressupunha a identidade em geral daquilo cujo retorno se deva estabelecer, as ciências modernas mostraram que o eterno retorno na astronomia, por exemplo, supõe apenas uma relação muito geral, onde a repetição na posição dos astros só determina semelhanças grosseiras aos fenômenos que eles regem”. Ou seja, em Nietzsche, o eterno retorno de modo algum é o retorno de um mesmo, de um semelhante ou de um igual. Por conta disto, Deleuze conclui que a ausência do mesmo no retorno do tempo histórico é apenas a afirmação de uma qualidade diferenciada, porque a diferença é a condição emergencial do eterno retorno. Ele quer dizer com isto que tudo retorna, mas apenas na diferença; que a identidade daquilo que retorna na história apresenta outra qualidade, outro sentido, outra intensidade e, por conseguinte, outra extensão. Enfim, retornar é emergir na diferença. E assim ele chega à idéia do eterno retorno da diferença, na qual a representação geométrica do tempo deixa de ser círculo e linha, para se tornar uma espiral.
Aqui não temos apenas uma alteração na dinâmica geométrica do tempo histórico. A questão é mais intrincada. Dizia que a diferença é uma intensidade e que a intensidade é uma extensão. O que é extenso possui uma distância entre, no mínimo, duas extremidades na linha do tempo. Esse intervalo temporal implicará em um conjunto de eventos, que será a evolução que o acontecimento gasta desde seu começo até o seu fim. Diz-se assim, que a história não é um moto-contínuo, mas dimensões de acontecimentos descontínuos que possuem durações com começos e fins diversos. E cada acontecimento, além de duração, compõe-se de intensidade e sentido particulares. Ora, na história, não são as durações, os sentidos e nem as intensidades que retornam, mas os acontecimentos que, ao retornarem, retornam com durações, intensidades e sentidos diferentes. Portanto, ainda que retornem, os acontecimentos nunca são os mesmos, sempre são diferentes. E, além disto, um acontecimento não é um simples instante, porém, um seguimento relativo de instantes, cuja duração pode ser um presente muito maior que uma geração! Em resumo, todo acontecimento possui intensidade, sentido e duração e é maior que o instante que separa o passado do futuro.
Em Deleuze (op. cit), a diferença é uma intensidade. O que isto quer dizer? Para chegar a esta idéia, ele parte da conceituação filosófica do termo, e não da sua representação no senso comum. Em Deleuze, toda diferença é uma intensidade porque possui uma potência emergente que caracteriza o seu sentido e dá tamanho à sua extensão. Portanto, intensidade está relacionada ao espaço. Assim, quanto mais intenso for um acontecimento, mais extenso ele é no espaço, E é aí, no espaço, que as intensidades se diferenciam. O que é diferente é o que se distingui do outro. Essa distinção se verifica quando, na emergência do diferente, suas qualidades determinantes definem sua potência e seu propósito: a potência é a intensidade e a duração de um acontecimento; o propósito, o seu sentido.
Não obstante, enquanto a intensidade se diferencia no espaço, a duração se diferencia no tempo, numa sucessão particular de mudanças. O sentido do acontecimento emerge justamente quando a intensidade adquire significantes espaciais que se prolongam no tempo, constituindo assim, uma duração. O sentido de um acontecimento são os significantes sociais e culturais organizados segundo sua emergência e o modo sensível como o corpo apreende a sua distribuição no espaço. Portanto, não pode ser o mesmo de outro, porque cada acontecimento possui extensão espacial e uma sucessão de eventos particulares, cuja organização depende do modo como eles foram apreendidos pelos sentidos .
No retorno, o acontecimento se diferencia porque a sua nova intensidade singulariza sua duração numa expressão cujo sentido se particulariza no próprio lugar de sua emergência. É no lugar, em síntese, que o acontecimento se distingue. É nele, que a história é vivificada e particularizada. Por outro lado, ao dar uma extensão durável ao acontecimento, que perpassa o passado e o futuro, a intensidade não dispõe de qualquer atualidade, pelo motivo do presente, nesta duração, ser pura virtualidade. Ou seja, na duração o presente é virtual porque os acontecimentos ativos tiveram um começo anterior ao atual e um fim que pode ultrapassá-lo. O presente tem uma extensão maior que a instantaneidade momentânea dos eventos. Um evento pode ser atual, mas como o acontecimento é um conjunto de eventos seriais, cujo sentido define a atualidade de qualquer um deles, todo evento no acontecimento é potencialmente virtual. O presente, portanto, é mais virtual do que atual e é anterior e posterior a qualquer de seus instantes pós-iniciais e pré-finais.
Uma vez que todo acontecimento tem começo e fim e ainda que se repita nunca é o mesmo ele, por conseguinte, não pode ter seu sentido resgatado. Simplesmente porque o sentido de um acontecimento, bem como sua intensidade e duração, é singular, não se replica. Consequentemente, de nenhum acontecimento, cuja duração já se esgotou, é possível recuperar o sentido. Por outro lado, toda história ativa, isto é, que não se esgotou, será virtual ao curso dos acontecimentos vivenciados pelos sujeitos no presente. Pois são os sujeitos no presente quem potencializam a intensidade, vivenciam o sentido e estendem a duração dos acontecimentos. Os acontecimentos, na verdade, só existem durante a sua manufaturação. Durante a emergência dos eventos que lhe fazem existir de determinado modo e não de outro. Contudo, fora do presente virtual, não é possível vivenciar a história, só contemplá-la e narrá-la sob a comoção do instante atual, cujo acontecimento já não é mais o mesmo e muito menos vai voltar a ser o que era antes. Por isto, na tentativa de se resgatar o acontecimento, o máximo que se consegue é “atualizar” seu sentido através de outra narrativa, completamente diferente daquela que um dia referia a sua identidade original.
O presente atual se diferencia do presente virtual pelo fato da sua realidade estar vinculada à linha do tempo, onde o presente é só um instante que já não é e ainda vai ser. Já o presente virtual está vinculado à história, cujos eventos podem se suceder em um acontecimento que se prolonga numa duração iniciada no passado, mas que se estende para o futuro. Ora, se esse acontecimento evolui numa duração interceptada, em qualquer de seus instantes, pelo presente atual da linha do tempo, temos então um presente virtual que se estende desde o seu passado inicial e só acaba no seu futuro final.
Linha do tempo →
Passado presente futuro
___________+___________ (onde + é o instante do presente atual)
(___+_______) acontecimento 1
(__________+___) acontecimento 2
(________) acontecimento 3
As durações dos acontecimentos 1 e 2 começam em tempos passados diferentes, mas o ponto + intercepta o instante do presente atual, que é definido pela linha do tempo passado, presente, futuro. Esses acontecimentos, portanto, são virtualmente presentes para qualquer observador que seja contemporâneo a eles. Porém, o acontecimento 3 começa e termina no passado do presente atual, que não pode assim compartilhar nenhuma virtualidade com ele e não pode ter dele nenhum sentido original.
Como além de duração o acontecimento tem intensidade e sentido, se há virtualidade, ainda há intensidade no espaço de sua manifestação e sentido histórico para a realidade presente. Portanto, mesmo tendo iniciado no passado, um acontecimento virtual pode transforma a realidade presente e indicar os rumos do futuro possível. Muito diferente da situação do acontecimento 3, que não sendo mais virtual (pois sua duração já se esgotou), também não tem mais nem intensidade e muito menos sentido para a história atual.
O estudo do passado é capaz de transformar a realidade e antecipar o futuro desde que esse passado faça parte de um acontecimento que ainda não se esgotou para a história e, portanto, seja virtualmente presente. Já nenhum outro acontecimento cuja duração, intensidade e sentido se esgotaram, tem influência sobre a história e não pode, por isto mesmo, transformar a realidade e nem antecipar o futuro. Nesses acontecimentos, como no 3 da figura acima, tudo ficou no passado, pois nós só podemos viver o instante atual da linha do tempo. É na atualização incessante dos instantes que os sentidos são vivificados e experienciados de modo a ganhar qualidade e significância diferenciada. Mas como o tempo é uma sucessão de eventos, quando eles vão passando, vão se passando com eles os sentidos que os justificavam. Assim, novos eventos, novos sentidos e tudo que pudermos ver do passado será através do olhar condicionado pelo sentido emergente.
Por isto digo que o resgate não leva à atualização da história presente, mas à atualização do passado segundo o olhar condicionado pelo sentido do presente. Os arqueólogos que habitam a epiderme mais superficial do pensamento e repetem, em várias línguas, o mesmo discurso do senso comum, esquecem que o que se resgata é um bem de valor comercial. Mas o tempo histórico não possui valor de troca e por isto é irresgatável!
Felizmente, no presente virtual, é possível extrair de um acontecimento o sentido de uma duração histórica ainda ativa e, assim, antecipar o futuro e transformar o presente. Nota-se, que esse sentido ativo é real porquanto sua potência de experienciação ainda repercutir no curso dos eventos históricos. Mudanças no curso dos eventos históricos relacionados a um acontecimento podem transformar a realidade presente, visto sua duração, plena de sentido, ainda gerar os significantes que identificam as expressões socioculturais que produziram esses mesmos eventos.
Os acontecimentos não têm durações homogêneas e apresentam posições e tamanhos variados, mas, em boa parte, dependem do recorte que o historiador realiza. Deste modo, existem acontecimentos de curta, longa e extensa duração. Pois, enquanto em algumas durações os eventos há muito perderam a sua potência de emergência, em outras ainda podem estar em plena atividade, apesar de terem se iniciado muito antes do observador formular suas idéias, de ter consciência dos fatos e, até mesmo, de nascer. Existem exemplos bastante óbvios disto, como por exemplo, a curta duração de uma geração e a extensa duração das estruturas familiares na história do Ocidente. Porém, existem acontecimentos muito mais sutis e completamente fora do alcance do senso comum, como por exemplo, a longa duração no uso de certas técnicas de cultivo.
Portanto, a partir do instante que se compreende que o acontecimento é só um seguimento da história, composta por um número indeterminado de acontecimentos, com princípio e fins identificáveis, mas variáveis; que existem tantos acontecimentos quanto durações possíveis, sejam conscientes ou não; entende-se também que a origem, ela mesma, está no curso dos acontecimentos e não em um suposto ponto inicial de tudo. Ora, deduz-se daí, que um evento cuja origem está em um acontecimento cuja duração já se esgotou, não tem mais originalidade e sua própria origem não tem mais sentido para nós hoje. Sem dúvida, é a idéia de que a origem está fora da duração que gera a ilusão de se poder resgatar o tempo. Tanto esta ilusão quanto a de se poder atualizar o presente através do conhecimento passado vem do discurso platônico sobre a origem. Para o platonismo pagão do eterno retorno e para o neoplatonismo cristão do tempo linear, tudo é cópia de uma manifestação primeira ou de uma criação original. As cópias eram semelhantes aos originais, mas cujos sentidos foram alterados pela corrupção promovida pelo passar do tempo.
No eterno retorno a degradação em relação a origem levava à decadência absoluta e ao conseqüente retorno da manifestação primeira. No tempo linear, a degradação levava ao afastamento cada vez maior da origem primeira e ao seu conseqüente aniquilamento. Tem-se, na origem do tempo linear, uma duração tão longa e de origem tão distante, que só nos restar procurar identificar onde foi seu começo absoluto e qual será seu fim definitivo.
A ciência moderna abraçou essa última interpretação e tenta, através de várias disciplinas, encontrar a origem do homem, a origem da vida, a origem do Universo e a origem de não sei mais o quê. Esta obsessão ou, como disse em outra ocasião, este fetiche, tal como no estudo da origem da vida, faz com que a busca saia do próprio planeta onde ela se manifesta e vá para além do Sistema Solar, na procura de um extraterrestre que revele a possível origem cósmica do primeiro sopro de vida.
O fato é que o acontecimento, em qualquer época ou lugar possuirá, para qualquer época e lugar, um conjunto de sentidos que lhe são próprios e singularmente originais. Deste modo, pode-se dizer, como já o disse nas páginas da Phýsis da Origem, que a natureza da origem é o sentido. Isto vai contra o senso comum e as idéias platônicas, sobretudo aquelas que afirmam que a natureza do sentido é a origem. A natureza do sentido não pode ser a origem porque, para cada época, o acontecimento terá um sentido novo e, portanto, uma originalidade singular. No entanto, a natureza da origem é o sentido pois, ainda que sua originalidade se mantenha, o seu sentido sempre será diferente, sempre será outro. E a diferença, ou melhor, a originalidade do acontecimento se firmará tanto na sua duração quanto nos lugares onde ela se manifesta.
Não importa, portanto, que conjuntos de acontecimentos, de eventos, técnicas, e comportamentos distribuídos no espaço sejam compartilhados simultaneamente no tempo. Para cada lugar onde esses conjuntos sejam compartilhados, haverá uma intensidade, um sentido e uma duração particular. Pois é na unidade mínima do espaço geográfico do lugar que a história é construída; é de um dado território (conjunto de lugares) que as informações imanentes circulam; e é de dada sub-região (conjunto de territórios socialmente relacionados) que ela emerge para o universo regional. Inversamente, é da região que se configuram histórias universais; são nas sub-regiões que elas passam a ser territorialmente partilhadas; e são nos lugares que elas multiplicam sua singularidade. Portanto, se nossas histórias particulares estão sujeitas ao mundo globalizado, o mundo globalizado está sujeito às nossas histórias particulares.
A história está ligada ao espaço e portanto só pode ser vivenciada no lugar da sua vivificação. De cada lugar do espaço ela emana uma potência irradiadora de história. De modo que qualquer lugar é um centro relativo de produção histórica, concomitantemente aos demais lugares do espaço universal. Assim, a seriação histórica pode partir de um lugar, de um território, de uma sub-região com diversos centros e periferias, estar alinhada com a noção comum subjacente de uma região, mas estar desalinhada com a tal da História Universal.
Como no mundo temos diversas regiões geográficas organizadas segundo diferentes configurações territoriais e em cada um de seus lugares de vivências são traçadas as linhas evolutivas de uma história original, pode-se dizer então, que vivemos na simultaneidade generalizada dos acontecimentos. Nela, a duração de cada acontecimento é particular e acontece simultaneamente a muitas outras, tanto no tempo quanto no espaço. Isto é, as histórias são paralelas por estarem, contemporaneamente, distribuídas em diferentes territórios e serem o resultado da evolução de conjuntos de eventos diversos, com diferentes tempos de duração. Genericamente: durações curtas, longas e longuíssimas. Por conta desta característica, o sentido histórico de cada uma delas pode tocar e interferir um nos outros, sendo tocado e interferido pelos mesmos e mudar, conseqüentemente, o seu próprio curso inicial.
Eu introduzi, a noção de simultaneidade generalizada dos acontecimentos em 1993, com O Tempo Arqueológico (págs. 67, 70, 78, 83, 84 e 189). Contudo, eu não fui o único que pensou nisto. Em 2002, Milton Santos apresentou, em seu mais completo livro, A Natureza do Espaço, estes mesmos termos, mas separadamente e relacionando-os, principalmente, ao espaço (págs. 159, 160 e 162). Assim, enquanto eu relaciono as dimensões espaciais às temporais, Milton Santos prioriza o espaço. Para ele, a simultaneidade generalizada dos acontecimentos compreende, grosso modo, a simultaneidade de acontecimentos histórico paralelos, no espaço. Ou seja, outros eventos estão ocorrendo ao mesmo tempo em que escrevo estas palavras, em todos os outros lugares além da sala onde estou, ainda que deles eu nada saiba.
Mas sua noção é mais sofisticada do que a observação acima feita. Para Santos, é no espaço que os acontecimentos se globalizam. E são nos seus diferentes lugares, organizados em diferentes territórios, onde os sistemas sucessivos do acontecer social distinguem diferentes períodos, sejam passados ou presentes: o eixo das sucessões. Em cada lugar, o tempo das diversas ações e dos diversos atores e a maneira como utilizam o tempo social não são os mesmos. No viver comum de cada instante, os eventos não são sucessivos, mas concomitantes: o eixo das coexistências. Portanto, no espaço regional, se as temporalidades não são as mesmas para as suas diversas sociedades elas, todavia, se dão de modo simultâneo (MILTON SANTOS, 2002). Complementarmente, é no espaço regional, justamente, onde os domínios das intensidades culturais se estendem.
Não obstante, se por um lado não há nenhum espaço onde a construção do tempo histórico seja idêntica para todos, é a simultaneidade das diversas temporalidades dos acontecimentos sociais sobre uma determinada área geográfica que constitui o domínio de um espaço regional. Por isto podemos dizer que, no regional, a sucessão dos acontecimentos é abstrata e que a simultaneidade generalizada dos acontecimentos é o tempo concreto da vida real de todos, sob uma noção comum subjacente.
O espaço é um conjunto, mas um conjunto regional de sub-regiões paralelas particulares, com seus próprios padrões culturais. Ou seja, do mesmo modo que há o espaço geográfico tropical amazônico, há os espaços antártico, andino, saariano e etc. Os territórios são seus componentes sub-regionais. Esses territórios, particularizados, são cultural, política e socialmente definidos pela inteiração histórica do homem com a natureza dos seus diversos lugares componentes e constituem um padrão cultural particular. Os subconjuntos dos territórios são os lugares onde o tempo histórico é construído. Portanto, a territorialidade é definida pelas relações sociais e históricas do homem em determinado conjunto de lugares (sítios) por ele ocupado. Assim, nas sub-regiões culturais do conjunto do espaço regional, se há territórios sociais paralelos – portanto - há histórias paralelas. Mas sendo o espaço geográfico o universo onde essas histórias se dão, além de coexistentes, elas se influenciam. Deste modo, no conjunto espacial regional elas convergem para uma mesma noção comum, que por isto é subjacente. O espaço regional se caracteriza pelo fato dos atores sociais comutarem uma mesma noção comum, subjacente aos diferentes padrões culturais dos territórios componentes das diversas sub-regiões onde atuam.
Aqui foi introduzido à idéia de simultaneidade generalizada dos acontecimentos no plano do horizonte espacial, o conceito de noção comum subjacente. Este conceito diz que o espaço regional, cujos componentes culturais apresentam traços comuns dispersos por seus diferentes territórios, é constituído por um conjunto de elementos organizados por esses mesmos componentes que, por seu turno, potencializam uma informação compartilhada e vivificada por todos, mas segundo o padrão cultural de cada qual.
Entretanto, não podemos conceber o espaço sem o tempo. Nem mesmo como coisas conectadas ou paralelas e, por isto, re-introduzo o tempo físico. Como sabemos, espaço e tempo são uma só e mesma coisa. Ao entendermos o conjunto espaço como um total de lugares, onde cada unidade tem a sua própria história, entendemos que o tempo de um espaço total, por sua vez, é um total de eventos distintos, relativamente compartilhados espaço-temporalmente. Em resumo: para cada lugar uma expressão; para cada época um sentido.
Por outro lado, se no espaço a história é construída na horizontal e no tempo ela é transformada na vertical (ao longo da sucessão temporal) temos, daí, dois vetores espaço-temporais que se cruzam: um horizontal e outro vertical. O ponto de intercessão vetorial, o zero que divide o anterior e o posterior (o passado/presente/futuro mais o espaço/lugar/território), é o tempo do observador que só é concebível no presente de um determinado local historicamente compreendido. Assim, se no plano horizontal a simultaneidade generalizada dos acontecimentos ocorre no mesmo vetor espaço-temporal, conseqüentemente, no vetor vertical do espaço-tempo, todos os acontecimentos também serão generalizadamente simultâneos.
Corroborando os argumentos apresentados, dizemos que todos os eventos históricos particulares não só são simultâneos no espaço como também o são no tempo. Deste modo, é no presente atual vivenciado em cada lugar do espaço, que o devir e o porvir coexistem e particularizam os acontecimentos históricos no tempo. Assim, no campo territorial dos acontecimentos históricos, sincronia e diacronia socioculturais são ritmos diferentes do mesmo evento.
Podemos representar a simultaneidade generalizada dos acontecimentos do seguinte modo: imagine vários acontecimentos paralelos no espaço, com os quais você está conectado no presente virtual. Como já sabemos, todo acontecimento possui intensidade, sentido e duração particulares. A intensidade é o caráter espacial do acontecimento, porém, a duração é o caráter temporal do mesmo. Sendo assim, nenhum acontecimento tem a mesma duração, mas todos são simultâneos no presente virtual.
SIMULTANEIDADE GENERALIZADA DOS ACONTECIMENTOS
Passado Presente Futuro
__________________+________________ (linha do tempo)
(_______+__________) 1
(____________+_____) 2
(__+_______________) 3
(_________________+______________) 4
Os acontecimentos 1, 2, 3 e 4 têm extensões e durações distintas, mas no ponto + do presente atual da linha do tempo, todos eles ocorrem simultaneamente no tempo do presente virtual.
Já sabemos que no acontecimento os eventos se desenrolam ao longo da duração, no espaço próprio de sua realização histórica. Portanto, o sentido da origem terá caráter muito mais de originalidade do que de manifestação primeira, já que a origem está na duração e não no início do acontecimento. Isto é, o sentido tem uma gênese, mas são os meios como ele é apreendido e os modos como é expresso que definem a sua qualidade no acontecimento e, portanto, a sua originalidade virtual. Porém, se o acontecimento já esgotou sua duração então não há originalidade possível.
Isto pode parecer estranho e contrário à idéia que se tem de memória, mas a valorização que se faz das memórias na história está baseada na suposição de durabilidade do sentido primeiro e de sua superioridade sobre as suas ‘pseudo’ versões posteriores. Inclusive, estudos neurológicos recentes têm mostrado que a mesma área do cérebro que processa imagens do passado, processa imagens do futuro. Isto é, o exercício da memória gera a imaginação do passado que estimula os mesmos processos químicos e no mesmo local, daqueles que exercitam a imaginação do futuro. Assim, lembramos do passado do mesmo modo como planejamos o futuro. Jean Piaget (1987) já havia mostrado, inclusive, que as brincadeira infantis são permanentemente recriadas de uma geração para outra, através da reorganização das regras anteriormente estabelecidas.
Na história, um acontecimento depende de um grande número de eventos atuando de forma coordenada para ter intensidade, duração e apresentar um sentido a partir das experiências humanas. Por conta disto, grupos diferentes de eventos e lugares representam aspectos diferentes de um acontecimento, desde aquelas informações geradas de experiências gerais e abstratas sobre uma situação, até informações específicas geradas sobre o uso de técnicas e regras de comportamento em espaços sociais distintos.
Um evento específico pode ser uma experiência muito mais rica e levar a outros com os quais se relaciona, se estiver contextualizado dentro de uma noção comum de eventos de um mesmo acontecimento histórico. Porém, toda lembrança de um episódio fica sem sentido quando está fora do seu contexto original. Ou seja, os eventos de um acontecimento geram lembranças de si mesmo, que influenciam as experiências em situações semelhantes e estendem, assim, a sua duração. Certos eventos, inclusive, servem como unidades funcionais que estimulam lembranças históricas, que são fortes o suficiente para conter informação do conjunto, mesmo se outras unidades já sofreram modificações.
No curso de um acontecimento, é comum o surgimento de eventos que não têm repercussão imediata sobre os sentidos, mas permanecem adormecidos esperando que circunstâncias específicas façam-nos aflorarem de modo generalizado. Esses eventos que podem ser tidos como redundantes, além de poderem emergir generalizadamente, podem provocar mudanças na própria estrutura dos acontecimentos. Os eventos permanecem como redundantes quando não possuem intensidade suficiente para terem seus sentidos explicitados e não exercem influência sobre a duração do acontecimento. Há, contudo, situações históricas, sociais, políticas, econômicas e até naturais, que potencializam a importância desses eventos, fazendo com que a informação contida no sentido que deles emana, seja plenamente vivenciada, alterando o rumo dos acontecimentos através da alteração de suas estruturas.
Por outro lado, às vezes trata-se de eventos específicos herdados, relacionados a acontecimentos anteriores ou introduzidos a partir de acontecimentos paralelos, os quais tiveram seus traços bastante atenuados, diminuindo a potência de suas características fundadoras. Nesses casos, diríamos que estão fora do lugar, que não possuem mais atividade. Assim, lembranças de experiências de um acontecimento já esgotado, não registram mais as informações que fizeram com que seus sentidos originais emergissem.
Na verdade, eventos que estimulam lembranças históricas (técnicas, comportamentais, cosmogônicas e etc.) consentem que os acontecimentos apresentem características-chaves de episódios específicos e, ao mesmo tempo, uma informação geral de experiências passadas que pode ser aplicada a situações futuras, as quais também podem compartilhar características essenciais, mas variar em detalhes de conteúdo e forma. Essa característica do tempo histórico de gerar acontecimentos abstratos a partir de eventos diários, permite com que as culturas encontrem soluções para os problemas novos vivenciados pelas sociedades humanas em um mundo em mudança. Contudo, retira de cada um deles, qualquer potência de centralização e capacidade de neutralizar o atributo organizativo dos demais. Dito isto, podemos resumir a questão da origem do seguinte modo: no curso contíguo da história a origem de qualquer evento não está no início do acontecimento, mas no curso da sua duração, porque todo evento é precedido pela condição necessária que o faz existir.
No entanto, há situações em que o curso da história pode apresentar uma duração contígua ou interrupta. Isto é, no desenvolvimento normal dos acontecimentos no qual eles são precedidos por outros acontecimentos da mesma natureza, muitas vezes há interrupções causadas por eventos que nada tem a ver com suas características fundadoras. Fato que ocorre no caso de catástrofes naturais, de crises ou mudanças sociais irreversíveis e de conquistas. Nestes casos não há continuidade, mas a fundamentação de um novo processo que muda, por completo, o rumo dos acontecimentos históricos anteriores. Daí, em vez de um curso contíguo, temos um curso interrupto.
Por conta disso, os termos de referência que definem os diferentes processos históricos pelos quais passaram os diferentes povos que habitaram este grande território conhecido hoje como Brasil, devem levar em conta essas duas condições: o curso contíguo e o curso interrupto da história, que podem se suceder e também se combinar. De fato podemos dizer que houve um período de curso contíguo, relacionado à história das sociedades anteriores à chegada do conquistador português. Contudo, temos por certo que outro período histórico foi iniciado com a conquista portuguesa e a implantação do seu sistema colonial no Brasil, que inaugurando um novo, rompe radicalmente com os processos históricos anteriores. Portanto, pré-colonial é o episódio histórico que antecede à colonização e que teve início com a ocupação portuguesa.
A afirmação de que na história a coisa-que-é só pode suceder à coisa-que-está-sendo; que determinada condição histórica local é fruto de uma situação anterior que criou as condições necessárias para que ela viesse a existir e que, caso a situação local fosse outra as condições também seriam outras - não deixa margem para dúvida no uso do prefixo “pré”. De fato, não há qualquer sentido em termos tais como “pré-colonial”, quando se refere a populações indígenas anteriores ao domínio português. Não há sentido, simplesmente, porque não foi nenhuma dessas populações que criou as condições necessárias para que a colonização se tornasse uma realidade histórica. E tem menos sentido ainda termos tais como “pré-cabralino”, “pré-colombiano” ou “neo-brasileira” (para se referir à cerâmica cabocla, uma vez que ela podia ser nova, mas a sua antecessora não era brasileira). O termo pré-histórico poderia ser até bem empregado, desde que fôssemos capazes de identificar o primeiro hominídeo que se organiza em sociedade, desenvolve cultura e, fundamentalmente, que tenha se conscientizado de seu devir no tempo. Fato que, apesar de todo progresso no estudo da evolução humana, estamos muito longe de resolver.
Nesta perspectiva foi formulada a hipótese de que além da antigüidade holocênica da presença humana na Amazônia ser milenar, teria existido uma longa duração na formação histórica e sociocultural indígena, cuja complexidade mais tarde alcançada foi fruto de experiências locais milenares e da reorganização sucessiva, mas não linear, de técnicas e práticas culturais originais (MAGALHÃES, 1993; 2005; 2006). Mas, se o que está por vir só pode ser antecedido pelo o que está sendo - no lugar, no território, na região - logo, na emergência de situações históricas sem qualquer evidencia de contigüidade e/ou continuidade regional, nem mesmo de elementos redundantes, é porque houve uma ruptura histórica. Portanto, o início da história do Brasil é o fim da história que lhe antecedeu no espaço.
É interessante notar, que no tempo contíguo, sempre que a estrutura de uma cultura socialmente composta muda e sua organização continua invariante, a sua identidade permanece a mesma, como membro de sua classe original. Mas, “toda vez que a estrutura de uma entidade cultural muda, de modo a alterar a organização como a sua identidade era composta, ela se torna uma unidade cultural diferente, membro de outra classe, que só podemos identificar com outro nome” (MATURANA, 2002: 129). Tudo indica, por sua vez, que os costumes e sistemas das populações indígenas agricultoras, nada mais seriam do que a reorganização estrutural das ações e técnicas derivadas de práticas experimentadas e aperfeiçoadas ao longo de milhares de anos, por antigos caçadores-coletores de floresta tropical, que compunham aquilo que venho chamando de “Cultura Tropical”. Deste modo, o que sucedeu à Cultura Tropical só pode ser identificado por um nome diferente, mas relacionado, que chamo de “Cultura Neotropical”. Portanto, se temos um período que foi precedido por uma Cultura Tropical que criou as condições para que o período posterior o sucedesse, claro está que esse novo período, Neotropical, é uma contigüidade temporal transformada pela história.
Contudo, é comum ouvirmos arqueólogos e até historiadores se referirem à história remota da Amazônia, como sendo uma mera “Idade” (pré-colombiana) anterior à conquista européia e não como um ciclo de contigüidade histórica local, territorial ou regional que tem nessa conquista o seu fim. Fato que ocorre por conta da ilusão de linearidade numa suposta história universal. E é sob esta perspectiva que foi montada a colcha de retalhos das fases e tradições, segundo a arqueologia baseada no evolucionismo social. Conseqüentemente, prevalece na arqueologia da Amazônia, ainda que sutilmente, a incompreensão de que as sucessões históricas percebidas em um lugar, têm nele as suas raízes.
Porém, a ruptura, a descontinuidade de uma história contígua com origens, acontecimentos, processos e estruturas particulares resultam, impreterivelmente, em outro ciclo histórico cujos processos formadores são completamente distintos dos anteriores. Portanto, quando ocorre uma ruptura evolutiva em que os novos processos históricos que se instalam não derivam de nenhuma das estruturas anteriores, é porque houve um salto de tal monta que nada do que veio depois teria sido precedido pelo o que havia antes. Foram esses saltos históricos, sem qualquer relação com a história original dos locais ocupados, que os europeus impeliram com a conquista do Novo Mundo. Isto implica na consideração, antes de qualquer coisa, que só se sucede o que está por vir, desde que não haja qualquer tipo de interferência externa impondo ao que estava sendo, outros modos de vir a ser.
Enfim, no tempo arqueológico, trata-se de localizar o ponto de intercessão da rede horizontal do espaço com do fluxo vertical da história e encontrar a sincronia espaço-temporal do evento na duração de um acontecimento. Para este modo de encarar o tempo, o mundo já não é mais triangular - uma pirâmide erguida aos deuses, uma santíssima trindade - mas a tetradimensionalidade de um cubo. Assim, a arqueologia é justamente a apreensão dos eventos históricos no tempo cúbico do espaço especular. Quanto às partes definidoras dos eventos, pode-se dizer que a intensidade está ligada à expansão regional ou territorial do acontecimento; que o sentido refere-se à supremacia dos eventos dominantes sobre os redundantes; e que a duração refere-se ao vir-a-ser consecutivo ou emergente dos eventos históricos.
Onna Agaia
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991353