O Tempo Arqueológico II (parte 3, final)
O TEMPO HISTÓRICO E A AMAZÔNIA REMOTA
Por Marcos Pereira Magalhães
Os fortes indícios arqueológicos de que os costumes e sistemas das populações indígenas agricultoras, nada mais seriam do que a emergência regional de práticas experimentadas e aperfeiçoadas ao longo de centenas de anos por antigos caçadores-coletores de floresta tropical levam-nos à consideração de que a formação histórica de nossa história remota resultou num Processo Civilizador de longa duração. De fato, conceitos evolucionários atuais e evidências de campo têm demonstrado que estímulos culturais e ou históricos fazem aflorar expressões comportamentais locais, mas que se espalham rapidamente numa população regional (TATTERSALL, 1995). Isto ocorreria porque a população regional já possuiria o potencial para absorvê-las, pois as experimentaram intermitente, mas generalizadamente, há muito tempo, mantendo-as redundantes até elas encontrarem os meios adequados para emergirem e se tornarem dominantes (HOWELLS, 1997).
Embora as relações culturais condicionem de muitas maneiras a experiência do mundo, elas possuem uma capacidade espantosa de reorganizar-se de acordo com a informação que recebe de fora. Vimos que quando essa reorganização atinge a própria estrutura da sociedade, fazendo com que suas relações sejam reestruturadas em novos comportamentos socioculturais, temos outro patamar histórico. Esse novo patamar histórico, na maioria das vezes, nada lembra o anterior embora seja dele derivado. Isto pode levar a algumas confusões interpretativas, como achar que a diferença notada seja uma evidência de descontinuidade histórica, um evento interrupto causado por causas externas, quando, na verdade, nada mais é do que o sintoma da profunda mudança histórica ocorrida na organização interna da sociedade.
Todavia, as discussões sobre as sociedades amazônicas pretéritas, fundamentadas desde a primeira metade do século passado no evolucionismo social, ainda patinam na classificação tipológica. Como linhas de pesquisa opcionais foram desenvolvidas algumas perspectivas estruturalistas, focando, por um lado, as iconografias e as organizações espaciais e ignorando, por outro, o objeto como um meio para se escapar da tipologia. Mas o abandono puro e simples da cultura material, que são os objetos, traria problemas incontornáveis para a interpretação arqueológica. Para evitar este problema, paradoxalmente, é comum manterem a seriação histórica elaborada pelo evolucionismo social, tais como o uso freqüente das definições de Fases e Tradições. Assim, por exemplo, ao mesmo tempo em que falam da linguagem simbólica nos padrões decorativos das cerâmicas e de urbanização em espaços comunitários, também falam de Fase Marajoara, Condurí e Tapajônica; de Tradição Policrômica, Inciso Ponteada e Barrancóide, todas definidas a partir da seriação tipológica. Muitas vezes substituem o termo fase pelo termo cultura, mas sem qualquer revisão nos meios e atos que resultaram no complexo cultural definido.
O problema da seriação tipológica está na sua definição base, ou seja, no conceito de tipo. Tipo é um conceito surgido no bojo da era industrial e refere-se a um modelo invariável produzido em série. Na seriação tipológica não há redundância porque toda diferença, quando não constitui outro tipo que se torna comum, é reprovada pelo ‘controle de qualidade’. Ela é simplesmente descartada como insuficiente para definir um padrão. Em geral, os objetos são re-arrumados até que se possa estabelecer um padrão tipo qualquer, de acordo com a expectativa da Fase ou Tradição que norteia a classificação. Portanto, os procedimentos técnicos descartam as diferenças e reagrupam as variáveis em grupos de semelhança.
Acontece que os objetos são provenientes de sociedades agrícolas, sem qualquer relação com os modos de produção industrial. Nessas sociedades os objetos não são produzidos em série, mas artesanalmente, de acordo com a habilidade individual do artesão. Por isto eles não podem apresentar um padrão tipo, porém, por admitirem variações causadas pelas diferentes fontes de produção individual, podem ser agrupados dentro de um padrão típico. O modelo padrão típico admite redundâncias e, inclusive, seria sua fonte de transformação. Isto porque ele depende não só da dinâmica coletiva da sociedade, mas também da sensibilidade e do universo individual do artesão.
O padrão típico representa um modelo dominante, que possui um sentido compartilhado. Entretanto, interações pessoais, familiares, comunitárias intra-territorais e inter-territoriais não só interferem nos sentimentos, como inclusive podem gerar novos significantes e, assim, resultar em elementos redundantes no interior do modelo dominante. Os elementos redundantes podem circular entre os artesões por conta das inter-relações sociais e virem a ser coletivamente conhecidos, mas permanecerem culturalmente secundários por muito tempo. Mas esses elementos podem passar a circular intra-territorialmente, numa determinada sub-região cultural e, inclusive, inter-sub-regionalmente, suplantando outros até então dominantes.
O modelo dominante sempre apresenta elementos que identificam um sentimento e uma mensagem e, portanto, um sentido histórico. Tanto mais intenso será o sentido, quanto mais os elementos forem populares territorial e temporalmente. Por isto, quanto maior for a força de expressão social de um elemento, maior será a sua intensidade cultural e maior será a capacidade de duração da mensagem permanecer replicando as expressões significantes da informação. Nos modelos dominantes também há ocorrência de elementos redundantes e essa redundância ocorre nos níveis objetivos e subjetivos. Ou seja, na estrutura e no conteúdo. O mais comum é que a estrutura apresente maior resistência à mudança, enquanto o conteúdo, por ser subjetivo, apresente maior permeabilidade, estando muito mais sujeito à mudança. Isto porque os sentimentos estão sujeitos às emoções coletivas, mas que estão fortemente ligadas aos padrões culturais que se constituem no sítio mesmo do assentamento histórico comunitário. Por outro lado, a estrutura não pode ser observada como algo invariável ou permanente e carregada de signos universais imutáveis. Pelo contrário, são as reorganizações estruturais que desencadeiam as mudanças mais profundas.
No ambiente não existe indivíduo isolado e nem a sociedade ou um grupo social humano está isolado do mundo circundante. Eles interagem, comutam. Sendo assim, eles manteriam uma relação inteirativa, onde os organismos não vêem o outro como ele é, mas como eles o apreendem sensivelmente nesta operação conectiva. Ou seja: experiências exteriores são absorvidas, mas conforme as experiências particulares dos sujeitos de uma sociedade com o seu mundo circundante peculiar. Portanto, os eventos geradores de mudança, que ocorrem no interior do padrão cultural dominante, podem se repetir em uma região através da inteiração entre as suas diferentes sub-regiões culturais e os territórios sociais de onde eles se manifestam. Na inteiração comutativa temos uma dinâmica que retira de qualquer território social a hegemonia sobre a evolução das sub-regiões culturais. Essa dinâmica civilizacional implica em um acontecimento coletivo de longa duração, que é ao mesmo tempo múltiplo e heterogêneo e cujas relações sociais são organizadas pela ação centrífuga da cultura regional, concomitantemente à ação centrípeta da história local.
Na perspectiva histórica regional, onde diferentes padrões culturais convergiram para uma noção comum subjacente, é possível identificar o período em que diversas sociedades amazônicas - independentemente do nível de organização social e do aparato material particular que tenham tido - empreenderam o seu processo civilizador. Além disto, mostra a solução para o paradoxo existente entre a perspectiva social evolucionista e a estruturalista, que é simplesmente abandonar as duas e entender que o espaço é a ordem das coexistências comutativas possíveis; que o espaço regional é composto por sub-regiões culturais, compostas por territórios socialmente explorados, que são compostos de assentamentos históricos diversamente ocupados. E que, paralelamente, a evolução histórica não seria uma mera sucessão escalonada de diferentes níveis de complexidade social, porém a conjugação comutativa de seus diferentes cursos.
Embora os territórios sociais condicionem a experiência do mundo das pessoas de muitas maneiras, eles remodelam a história de acordo com as informações que as pessoas recebem de fora. Na Amazônia, o espaço regional seria um mosaico de territórios cujos artefatos culturais, além de fluírem de um para o outro, se particularizariam conforme os lugares onde se estabeleceram. Daí se poder dizer que a gênese das sociedades amazônicas remotas deu-se quando práticas, costumes e técnicas regionais diversas convergiram para uma mesma noção comum subjacente, compartilhada espaço-temporalmente, segundo populações organizadas nos diferentes assentamentos históricos dos conjuntos de territórios sociais culturalmente distintos.
Pode-se concluir que a noção comum regionalmente subjacente, com seus diferentes padrões culturais, é a chave para entendermos a evolução das sociedades amazônicas mais complexas. A agregação social, mediada pela cultura, garante a inteiração comutativa das populações regionais a partir de seus territórios sociais, o que implica numa maior capacidade de expressão cultural.
Quanto mais integrados socialmente são os sujeitos de uma comunidade, maiores são as chances de sucesso material e cultural dessa sociedade. Essa integração social se verifica quando as informações afetivas, técnicas e ideológicas circulam dos espaços externos para os internos da sociedade e vive-versa, como um meio pedagógico de inclusão cultural. As ações pedagógicas não são, necessariamente, formais. Elas também não se resumem à esfera familiar, mas se realizam no círculo de relacionamento social do sujeito, producentes e predominantemente (SHAIK, 2003). Assim, quando diversas sociedades, de diferentes territórios, mantêm vínculos culturais comutativos, temos um processo histórico com uma noção comum subjacente modulando os diferentes padrões culturais dos territórios sub-regionais.
Em resumo temos o seguinte quadro:
Região Amazônica
Região civilizadora com noção comum subjacente
Região
Sub-região cultural
Território social
A região é o grande espaço universal onde os processos civilizadores convergem todas as culturas para uma mesma noção comum subjacente. Ela se divide em sub-regiões culturais. As sub-regiões culturais são conjuntos de diferentes territórios sociais com padrões culturais compartilhados. Elas são simultâneas no espaço (contemporaneidade real) e no tempo (contemporaneidade virtual) e não possuem fronteiras políticas definidas. Elas ainda podem avançar umas sobre as outras, mas regularmente apresentam áreas neutras, onde a circulação de costumes e técnicas são regionalmente coletivas. As sub-regiões dividem-se em territórios sociais, onde as tradições e as experiências são partilhadas e as técnicas e os costumes coletivos se particularizam. Mas são nos assentamentos (sítios) que subdividem os territórios (não representados no esquema), onde a história é vivenciada e diferenciada.
Vejamos o caso dos chamados estilos Santarém estudados por Denise Gomes (2002) (ela sugere que se empregue o termo "estilo" em vez de "cultura" Tapajônica ou Santarém, em razão da falta de resultados publicados que propiciem a contextualização acurada das evidências). Ela apresenta uma seqüência hipotética da área Tapajós-Trombetas, com a presença de doze "modos” consecutivos, em que se propõe o desenvolvimento cronológico dos estilos decorativos e iconográficos. Assim, ela redefiniu o estilo Pocó associada à Tradição Barrancóide, por sua vez relacionada à Tradição Borda Incisa, cuja datação é dos séculos IV a IX D.C. (300 a 900 D.C.) e o estilo Konduri, associada à Tradição Borda Incisa Ponteada, datada de 1000 a 1500 A.D. Não há nenhum acordo quanto à essa definição, embora seja aceita com ressalvas. Mas Vera Guapindaia (comunicação pessoal), observando as datações e suas relações com as Tradições propostas, conclui que a associação com Barrancóide ou Borda Incisa, não funciona por questões cronológicas, especialmente por conta das últimas datações obtidas por ela (ainda não publicadas) em sítios do baixo Trombetas .
Além de datações mais recuadas do que aquelas atribuídas às Tradições relacionadas com os tais estilos, especialmente o Konduri, Guapindaia (2001, 2007) as obteve de sítios interfluviais, ribeirinhos e de lagos os quais apresentaram variáveis estilísticas entre eles e, inclusive, intrusões estratigráficas e cronológicas entre os níveis Pocó e Konduri, que na literatura tradicional se sucederiam. O que se observou, grosso modo, foi uma grande variação local, dentro de uma sub-região cultural circunscrita por territórios sociais compostos de diferentes domínios ambientais.
Denise Gomes também identificou essa mesma variedade durante seus estudos, especialmente numa suposta influência Konduri. Daí concluiu, que ela teria uma dinâmica mais complexa, na qual o estilo e a iconografia operariam em níveis diferenciados, e que o reconhecimento de uma intencionalidade estilística, cujo objetivo seria marcar sua etnicidade, conduziria à percepção de que a iconografia dentro do território social estava sendo reinterpretada pelas comunidades locais, devido a processos de interação de natureza diversa.
Ora, tudo isto é resultado da inteiração comutativa das comunidades dos territórios sociais de uma sub-região com padrão cultural compartilhado, que se distribui e se individualiza entre seus diversos assentamentos históricos locais. É assim que as sub-regiões resultam numa grande capacidade de expressão cultural, sem que haja um centro único de domínio social. Pois, todos os assentamentos históricos são potencialmente centrais e potencialmente marginais. Na verdade, eles são, simultaneamente, o meio e a margem, o centro e a periferia. Considerando, por outro lado, que os domínios de um território vão muito além das áreas de assentamento, incluindo áreas tributárias exclusivas e áreas tributárias comuns, mais áreas focais distribuídas segundo a diversidade ecossistêmica do seu ambiente geográfico, então concluímos que mesmo os assentamentos históricos são centrais e marginais em seu próprio território.
Outra sub-região cultural apresenta o mesmo tipo de evolução histórica. Esta seria aquela que é circunscrita pela ilha do Marajó, mas que também pode incluir áreas do continente. Esta sub-região tem como expressão cultural mais conhecida a chamada Fase Marajoara, que foi filiada à Tradição Policrômica. Hoje os pesquisadores entendem que a cultura Marajoara originou-se localmente, à partir de um processo de mudança que ocorreu entre as comunidades que já habitavam a ilha desde 5000 anos atrás. Essas comunidades eram compostas por populações que viviam da pesca, caça e da coleta de moluscos e teriam se assentado na metade lesta da ilha. Seus restos resultaram em sambaquis, que foram destruídos nos últimos dois séculos para a produção de cal e fabricação de botões.
Mas foi a partir de 3500 anos atrás que pequenas aldeias, de diferentes etnias, espalhadas ao norte, sudeste e ao centro da ilha, que exploravam diferentes nichos ecológicos (campos, florestas e áreas ribeirinhas), vivendo da caça, pesca, coleta e da agricultura itinerante, vieram a construir, gradualmente, a riqueza arqueológica da ilha de Marajó. O contato permanente entre as populações, as trocas de produtos e experiências permitiram o incremento populacional, a produção em larga escala e uma relação geopolítica interétnica, que acabou resultando em um padrão cultural sub-regionalmente compartilhado. Assim, embora exibissem organização social e política independente, as sociedades marajoaras desenvolveram uma cosmogania compartilhada, que evoluiu não só no tempo, mas também no território social de cada uma das sociedades. Essa evolução ficou refletida na em suas produções ceramistas, que os arqueólogos subdividiram em fases culturais, tais como a Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Acauã, Marajoara e Aruã. Embora algumas delas tenham se sucedido, outras foram contemporâneas e exerceram influência mútua.
A própria Meggers percebeu, anos atrás, a diversidade nas técnicas decorativas para a Tradição Policrômica e sugeriu que esta seria uma amalgamação de traços introduzidos de diferentes direções e combinados de diferentes maneiras. Mas para ela tal origem poderia explicar a falha em identificar seja um núcleo local de desenvolvimento ou um complexo ancestral fora da Amazônia (MEGGERS, 1987). Mas agora percebemos que esse amalgamento nada mais foi do que o resultado das manifestações locais, que exteriorizava e interiorizava, segundo a sua propria experiência histórica, elementos culturais partilhados da noção comum regional.
Como podemos interpretar das evidências arqueológicas juntamente com as evidências etnológicas, a organização humana no espaço amazônico dá-se em diferentes escalas, com qualidades diferenciadas, mas que não foram, necessariamente, alcançadas através de ações competitivas e, portanto, não podem ser simplesmente ordenadas hierarquicamente. Considerando as sub-regiões com seus devidos padrões culturais, mas também as sazonalidades climáticas e a heterogeneidade ambiental, nada nos impede pensar que existiram estratégias desenvolvidas por uma mesma estrutura sociocultural para ocupar e/ou explorar, por si só, diferentes locais, através de diferentes organizações sociais (MAGALHÃES, 1993). Com isso quer se dizer, que podemos substituir a incongruência técnica embutida na idéia de Tradição e suas Fases, não apenas por outra seriação histórica, como inclusive mostrar que uma rede histórica regional mais ampla, entendida como um processo civilizador com diferentes temporalidades, construiu e foi construída por experiências socioculturais locais.
O emprego do termo civilização aqui deve ser entendido como o conjunto dos códigos e padrões que regulam a ação individual e coletiva do ser humano numa região com determinado noção comum subjacente. Essa noção comum se distribui irregular e cronologicamente no espaço organizado dos territórios sociais, cujas condições de manutenção e transformação histórica de um grupo, Nação ou etnia, resultam no aprimoramento sub-regional de seus próprios valores, instituições, criações, etc. Por conta disto, na Amazônia, até podemos afirmar que teria havido uma “Idade Tropical”, já que ela se refere a um período da condição histórica do homem na Amazônia, em que as sociedades eram, cultural e socialmente, muito homogêneas. Porém, o mesmo não se poderia dizer do período seguinte, o Neotropical.
Historicamente, a Cultura Neotropical, portanto, apresentaria diversas Idades. Porém, essas Idades variariam tanto no tempo quanto no espaço, de modo que só poderíamos nos referir às diferentes Idades particulares de uma sub-região cultural como aquelas definidas pelo médio Amazonas e Marajó, que se dividiriam em territórios sociais e estes, por sua vez, em assentamentos locais historicamente constituídos. As sub-regiões culturais seriam espaço-temporalmente simultâneas a outras e, por conta disto, partilhariam experiências comuns de largo aspecto regional.
CONCLUSÃO
Atualmente, o que se observa na produção arqueológica sobre a divisão histórica do homem amazônico, é que há uma grande resistência na mudança de conceitos cujas bases estão cientificamente superadas. Apesar disto, elas permanecem narrando a história e norteando o rumo das pesquisas. Por quê? Provavelmente, por causa da excessiva superficialidade no trato dos conceitos aplicados, que impede que se vá além do sucesso aparente e se compreenda, à fundo, as suas limitações em contraste com a potência explicativa de outros conceitos.
Na verdade, o que podemos concluir das atuais teorias arqueológicas, é que a história das sociedades humanas, ou seja, a seriação evolutiva das sociedades regionais pode, de fato, apresentar uma periodização própria, bem distinta das periodizações atualmente propostas. Na Amazônia, o tempo histórico é uma sucessão de acontecimentos sub-regionais simultâneos, a partir de eventos locais, que têm intensidades, sentidos e durações específicos. É justamente essa periodização regional que pode substituir com sucesso e de modo bem mais amplo, as limitações explicativas de antigos paradigmas, que apesar de esgotados e bastante criticados no passado recente, permanecem sendo empregados.
Foi segundo esta perspectiva que formulei a hipótese de que além da antigüidade holocênica da presença humana na Amazônia ser milenar, teria existido uma longa duração na formação histórica e sociocultural indígena, cuja complexidade mais tarde alcançada foi fruto da reorganização de experiências locais milenares e da reestruturação sucessiva, mas não linear, de técnicas e práticas culturais originais (MAGALHÃES, 1993, 2005, 2006). Quando a reorganização das sociedades implicou na reorganização da própria estrutura sociocultural, então ocorreu uma mudança histórica, que foi espaço-temporalmente irregular, mas regionalmente coletiva. Esta reorganização estrutural fez com que antigas sociedades de caçadores-coletores, que representavam uma civilização com processos históricos e ordenações socioculturais particulares, ou seja, a Cultura Tropical, passassem por uma transformação que resultou em outro processo histórico com outras ordenações socioculturais, mais complexas e mais heterogêneas. Isto é, resultou na Cultura Neotropical. Entretanto, como acontecimento histórico de extensa ocorrência regional e de longa duração, a Cultura Neotropical se subdivide em diferentes sub-regiões culturais, por sua vez subdivididas em diferentes territórios sociais, com intensidades, sentidos e durações particulares.
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Onna Agaia
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991358