Texto

O Tempo Arqueológico II (Parte 1, introdução)

ARQUEOLOGIA DO TEMPO ARQUEOLÓGICO
O TEMPO ARQUEOLÓGICO II

Por Marcos Pereira Magalhães .

RESUMO
No conhecimento, as idéias acerca da natureza do tempo se refletiram e se refrataram ao longo da história. Em suas várias formas, elas serviram de modelos da experiência humana na presença e em contraste com suas ilusões, na interpretação da vida real. Mesmo nas ciências, quando essas interpretações são contrastadas, elas geralmente criam polêmicas, por partirem de diferentes perspectivas teóricas, às vezes, até mesmo antagônicas. No entanto, são delas que surgem os diferentes períodos que ordenam os eventos históricos relacionados às sociedades humanas. Inclusive, das remotas sociedades amazônicas. Justamente por conta da fluidez na interpretação da natureza do tempo, é possível elaborar conceitos científicos mais plausíveis e distintos das tradicionais perspectivas ao revermos, desde o início da colonização indígena regional, a divisão do tempo arqueológico proposto para evolução das suas sociedades.
PALAVRAS-CHAVE: tempo; periodização histórica; evolução social, Amazônia.

ABSTRACT
In the knowledge, the ideas concerning the nature of the time were reflected and they were refracted along the history. In its several forms, they served as models of the human experience in the presence and in contrast with its illusions, in the interpretation of the real life. Even in the sciences, when those interpretations are contrasted, they generally create polemics, for they leave of different theoretical perspectives, sometimes, even antagonistic. However, they belong to them that the different periods that order the historical events related the human societies appear. Besides, of the remote Amazon societies. Exactly due to the fluidize in the interpretation of the nature of the time, it is possible to elaborate more plausible scientific concepts and different from the traditional perspectives to the we review, since the beginning of the regional indigenous colonization, the division of the archaeological time proposed for evolution of its societies.
KEY WORDS:  time; historical periods; social evolution, Amazonia.

INTRODUÇÃO
A primeira versão do presente texto surgiu com o lançamento, em 1993, do O Tempo Arqueológico, que era a compilação revista da minha dissertação de mestrado. Nela, o problema central girava em torno do conceito de origem e versava sobre a intensidade, o sentido e a duração dos acontecimentos históricos. O livro, entretanto, permaneceu no limbo por longos dez anos. Durante este período raramente foi comentado e menos ainda citado. Quando muito, alguns de seus raros leitores reclamavam da dificuldade para compreendê-lo. Apesar disto, ao longo desse tempo continuei meu projeto e dei andamento à etapa seguinte, culminando com o lançamento do meu terceiro livro (“A Phýsis da Origem”), que apesar de teórico, apresenta dados objetivos de pesquisa. No entanto, a necessidade de esclarecimento de pontos importantes destacados no O Tempo Arqueológico sempre se fez presente, já que parte significativa foi retomada nas obras seguintes.
Em um primeiro momento, a dificuldade de entendimento sentida para O Tempo Arqueológico pode ser relacionada àquilo que Kuhn chamava de incomensurabilidade entre léxicos. Para Kuhn (2006), dada uma “taxonomia” lexical, há toda uma gama de diferentes enunciados que podem ser feitos, bem como um leque de teorias que podem ser desenvolvidas. Dada, porém, outra taxonomia, outros enunciados e teorias completamente distintos também podem ser elaborados, mas que não poderiam ser feitos na anterior e vice-versa. Ele observa, além disto, que enunciados e teorias serão mais verdadeiros ou falsos, apenas, no léxico com o qual foram desenvolvidas. Assim, entre diferentes taxonomias lexicais ocorreria uma incomensurabilidade e a comunicação entre ambas seria incompatível. Grosso modo, isto quer dizer que há episódios no desenvolvimento científico que envolve uma mudança fundamental em algumas categorias taxonômicas e que, portanto, observadores à margem dessas mudanças confrontam com problemas semelhantes aos que os etnólogos enfrentam ao tentar entender outra cultura. Considerando a perspicaz observação de Kuhn, acredito que eventuais dificuldades dos arqueólogos para com o tempo arqueológico, devem-se, praticamente, ao fato dos conceitos e enunciados apresentados não serem comuns à taxonomia então empregada na arqueologia brasileira.
Mas há ainda outro problema, dessa fez causado por mim mesmo. Efetivamente, os conceitos que lancei em O Tempo Arqueológico, além de não serem muito comuns na literatura da disciplina, eram conceitos que eu, até então, não detinha o domínio pleno das suas características gerais. Boa parte deles flutuava entre a clareza da percepção e a obscura ausência de domínio da sua realidade. Isto levava à sensação de ausência, de incompletude.  E, desde então, minha missão pessoal foi preencher esse vazio, procurando eliminar contradições, aprofundar conceitos e esclarecer dúvidas. Como resultado pouca coisa foi abandonada, mas muito foi alterado, aperfeiçoando idéias que, uma vez esclarecidas, levaram a outras. Assim, ainda que a maioria dos termos e idéias a serem apresentadas não seja novidade na minha bibliografia, por outro lado, passou por tal revisão, que mesmo para mim é difícil dizer o quanto permanece igual. Porém, há novidades sim, algumas arriscadas, outras, contudo, bem obvias. De todo modo, a retomada dessa discussão só foi possível graças às mudanças observadas no atual cenário acadêmico da arqueologia brasileira.
Foi quando eu terminava a edição da Phýsis da Origem que notei essa mudança, que vem arrefecendo a incomensurabilidade taxonômica existente entre o que penso e o que leio. Apesar dos seus flagrantes limites, O Tempo Arqueológico virou cult. Todos os quase 1000 exemplares foram vendidos pela Biblioteca do Museu Goeldi, no sistema de encomenda, num prazo de um ano (2005). Outra parte (que haviam me devolvido para abrir espaço no depósito) foi vendida ou repassada por mim, no mesmo prazo. Os últimos exemplares foram negociados no Encontro da Sociedade de Arqueologia Brasileira ocorrido em Campo Grande (MS). O fato significativo era que na ocasião o A Phýsis da Origem estava sendo lançado, contando com boa infra-estrutura de divulgação. Mas o livro mais vendido foi ele, O Tempo Arqueológico. Outra coisa que ficou claro, era que o interesse não partia apenas de arqueólogos, mas de curiosos e estudiosos de diferentes áreas humanas. E mesmo depois da edição esgotada a procura continuou. A questão é: por que ocorreu esta mudança?
Difícil dizer. Porém, algumas hipóteses podem ser colocadas. Primeiro: no fim da década de 1990 surge um grupo de jovens arqueólogos ativos que buscam e propõem novas alternativas teóricas. Esses novos arqueólogos se concentram, principalmente, no curso de pós-graduação em Antropologia da USP. São esses que acabam difundindo, entre os alunos, a curiosidade por novidades, especialmente daquelas provenientes de teorias que não abandonam a evolução histórica, mas tentam romper com o antigo historicismo linear universal e com o relativismo antropológico sem sujeito e sem história das ciências sociais modernas.
Segundo: paralelamente, finalmente pensadores como Foucault e Deleuze passam a ser conhecidos, disseminados e, inclusive, empregados pelos arqueólogos. Quarto: foram traduzidos e laçados no Brasil livros cujo tema central é o tempo, sendo que dois deles são da maior autoridade mundial sobre o assunto, G.J. Whitrow. Quinto: a obra de Milton Santos passa a ser difundida e com a ela a sua noção de acontecimento.
Parece então que foi a combinação do avanço na base de pensamento da arqueologia, com a vulgarização do conhecimento sobre o tempo histórico e o geográfico, que despertou nas pessoas a curiosidade em se saber o que é, afinal, o tempo arqueológico. Por conta de todas essas confluências foi planejada a segunda edição do O Tempo Arqueológico, mas que, por razões de ordem prática, resultaram na revisão, atualização e condensação do seu conteúdo neste ensaio.
Em resumo, o presente texto pretende abordar dois aspectos da arqueologia da Amazônia que estão diametralmente relacionados: um refere-se à divisão do tempo histórico; o outro, como conseqüência, à periodização histórica das remotas sociedades amazônicas. O objetivo será alcançado apresentando a fundamentação de novos conceitos sobre o tempo e propondo alternativas adequadas para além do evolucionismo social e do relativismo cultural. Ou seja, hoje falam do tempo fragmentado versus o tempo linear e, não obstante, o tempo já não é nem uma coisa ou outra. Eis a questão: mostrar como podemos entender o tempo agora.
O que veremos adiante será a exposição primária da diferença entre tempo e história. A história será considerada uma invenção humana atribuída ao Homo sapiens. Porém, o tempo, que indica a direção e o rumo da história, será tido como um atributo físico, que tem origem no próprio nascimento do Universo. Ao longo da história, as diferentes interpretações sobre a natureza do universo levaram a diferentes conceitos de tempo. E os conceitos que resultaram no conceito moderno de tempo apresentaram, na história, representações geométricas distintas. Assim, ao considerarmos a evolução das representações geométricas do tempo na história, observaremos que ele passa da ordem circular à linear, desta última para a desordem do infinitamente pontilhado e, finalmente, deste caos ao ordenamento intrínseco que o conjunto dos diferentes tempos mantém (JAMESON, 1997).
Visualmente, hoje podemos representar o tempo como uma forma que é, simultaneamente, círculo e linha, múltipla e paralela, permitindo continuidades, contigüidades e saltos. Em ressumo, uma espiral onde o tempo se dobra e muda em torno do eterno retorno da diferença. Aqui fica claro, tal como proposto por Deleuze (1988) que, ao contrário do tempo linear, esse tempo eterno pode retornar, porém, só e tão somente, na diferença. Nele, nada se conserva, nada se cria, tudo se transforma; portanto, ele só o é na matéria, tem entropia e, consequentemente, direção.
A história é um múltiplo de eventos espaço-temporais concomitantes e consecutivos, conectados a uma rede temporal onde nenhum acontecimento se isola ou se abstém. Mas para a história vir a ser no tempo, o que dobra e muda é a duração de um acontecimento (de uma sensação). Isto é, tem que haver o acontecimento; o acontecimento tem que estar na duração e para estar na duração; o acontecimento tem que ter relação com outros acontecimentos; cada um deles tem que ter uma intensidade, que é a sua extensão; e cada extensão um sentido, que é a sua direção. Acontecimentos isolados não têm sentido e não podem ter história já que não têm duração e não têm duração, porque estão isolados e sem intensidade.
Se fosse possível existir um Universo composto por uma única partícula de átomo, esta partícula seria eterna, atemporal e não haveria acontecimento e nem história para se narrar desse Universo. O Universo real, muito pelo contrário, é composto por uma infinidade de partículas relacionais reunidas em conjuntos com complexidade cada vez maiores. Em seus diversos níveis de complexidade, cada conjunto apresenta contigüidades com outros conjuntos componentes de um mesmo grupo, cuja história possui acontecimentos com intensidades, sentidos e durações particulares e é paralela e às vezes simultânea, às diferentes histórias de todos os demais outros grupos de acontecimentos quando vistos generalizadamente.
Ora, entende-se assim, que os conceitos que vão explicar os eventos ocorridos na história das remotas sociedades amazônicas apresentam particularidades que precisam ser explicitados. Eles deverão tornar evidente que a história dessas sociedades apresenta sentidos e direções que lhe são próprios. Conseqüentemente, que os cursos históricos possíveis a esses acontecimentos apresentam continuidades particulares, sem qualquer relação de contigüidade com a história do Ocidente, pelo menos, até a conquista e o início da colonização européia. E, por outro lado, que eles apresentam uma cronologia de eventos históricos de bases adjacentes, consecutivas e particularmente organizadas, conforme ocorrem no tempo e no espaço.
Enfim, a perspectiva a ser apresentada será fruto de uma abordagem focada em múltiplas disciplinas. Com elas tenho a pretensão de formatar conceitos específicos que, entretanto, poderão apresentar dificuldades aos arqueólogos que acreditam na auto-suficiência da disciplina, a àqueles que acham que a arqueologia basta a si mesma. Isto não quer dizer que eu esteja inquestionavelmente certo, mas que, apesar das dificuldades, tento empreender um projeto de entendimento para além do óbvio, ainda que esse além não seja novidade ou exclusivo e, muito menos, invenção minha. Porém, apenas o efeito de uma curiosidade multidisciplinar. Afinal, como dizia Heráclito (1992: 485), “os homens que amam a sabedoria devem ter conhecimento de muitas coisas diferentes.”

PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Cientistas como Prigogine (1996) demonstraram, efetivamente, que a matéria animada (a vida), é resultado da irreversibilidade da natureza. Ou seja, de seus sistemas dinâmicos instáveis. Além disto, que os estados da matéria não são da ordem das partículas individuais, mas do conjunto das partículas. Por outro lado, a física tem demonstrado que o tempo é definido pela posição de corpo no espaço e que sistemas dinâmicos possuem histórias diversas imprevisíveis, mas seguindo a única flecha do tempo do nosso Universo: passado/presente/futuro. Isto é, história e tempo são coisas distintas e é o tempo que dá direção à história. O tempo está em toda matéria, desde que ela esteja em algum lugar. Mas por ser dinâmico, é a sua instabilidade quem define as conexões evolucionárias. Em síntese, na vida humana, como na natureza, só há história quando há assimetria espacial, não do indivíduo ou de uma instituição, mas do conjunto das relações sociais.
Por isto podemos dizer que existem diversos centros históricos possíveis, porque cada conjunto de relações sociais ocupa um lugar, de onde a história é narrada. Desse modo, cada lugar é um centro de produção da história possível. Esses diferentes centros possuem acontecimentos com ritmos, características e velocidades diversas mas, tal como a evolução da matéria, seguindo sempre a mesma direção de tempo: passado, presente, futuro; associando-se a outros e formando um conjunto de muitos outros conjuntos.
Segundo Maturana (2001), as relações humanas são comutativas, o que torna os centros históricos não excludentes, pois sempre são componentes de um conjunto mais amplo e geral. Por outro lado, complementarei tais argumentos dizendo que tudo se repete na diferença; que a natureza é diversificada e que a cultura está nessa natureza diversificada variando no tempo e no espaço. Não é só o surgimento e o esgotamento de uma cultura que conta, mas também o espaço de sua vivência. Em síntese, existem diferentes centros históricos e esses centros geradores de eventos, por sua vez, são componentes atratores de uma teia global formada por um conjunto composto de muitos outros subconjuntos, que ocupam posições espaços-temporais distintas.  A afirmação de que tudo na história se repete na diferença implica numa perspectiva de temporalidade distinta daquela atribuída ao tempo linear. Para melhor entender isto mostrarei, adiante, qual é a natureza desse outro tempo histórico.
No momento, como discussão introdutória sobre o tempo recorrerei à Whitrow (2005), que em síntese, atribui a algumas das características do tempo histórico, uma distinção clara com o espaço. Quais sejam: a sua flecha e a sua passagem. Enquanto a flecha descreve a irreversível sucessão de eventos antes-e-depois, a passagem refere-se à distinção que fazemos entre passado, presente e futuro. No entanto ele observa que a passagem do tempo deve ser encarada como um mero aspecto da nossa consciência sem qualquer significância física objetiva. Esta condição, por outro lado, “torna o conceito de tempo completamente subordinado ao de espaço” (op. cit: 167).
Porém, a física dos sistemas instáveis diz justamente o contrário: o tempo não depende de nossa consciência, mundos paralelos existem independentes do nosso conhecimento, uma vez que o tempo precede a história. Por sua vez, Milton Santos (2002) esclarece que o espaço é o conjunto dos objetos organizados e utilizados conforme uma lógica, que ao confundir-se com a lógica da realização das ações históricas, assegura-lhe a continuidade. Deste modo, a história se realiza através do espaço, que por ser composto de lugares diferenciados, não é harmônico e nem pré-estabelecido, pois cada vez produz uma nova síntese e cria uma nova unidade. “Assim ele (o espaço) redefine os objetos técnicos, apesar de suas vocações originais, ao incluí-los num conjunto coerente onde a contigüidade obriga a agir em conjunto e solidariedade” (op. cit.: 40/41).
Como o espaço não é homogêneo, evoluindo de modo particular em cada território, a originalidade do tempo histórico dos objetos não é a mesma em toda parte. Isto garante múltiplas continuidades históricas, pois as possibilidades de diferentes usos dos objetos em territórios distintos implicam em diversas possibilidades evolutivas. Ou seja, ainda que a direção da flecha seja a mesma para ambas, a natureza do tempo é inconsciente e universal, mas a da história é consciente e local. Esta última observação leva-nos a compreender que apesar de serem coisas distintas, há uma intercessão espacial entre a história e o tempo, de modo a fazer coexistirem eventos conscientes e inconscientes, paralelos ou simultâneos, na evolução dos acontecimentos históricos.
Por outro lado, ao mencionar a contigüidade espaço-temporal como um conjunto, é eliminado o risco de fragmentação infinita da história. Assim, pode-se afirmar, tal como o fez Badiou (1996), que o fato da contigüidade histórica se firmar como um conjunto resulta em que o homem seja o submúltiplo de um múltiplo maior lhe caracterizando espaço-temporalmente (isto é, tanto em termos de extensão geográfica, quanto de sucessão histórica). Este múltiplo, por sua vez, seria justamente o conjunto de todos os submúltiplos espaço-temporais da sociedade. Isto nos leva a reconhecer que a situação coletiva excede a soma de suas próprias diversidades componenciais mas, por outro lado, seria outra a situação, se os indivíduos que as compõem tivessem comportamentos particulares diferente.
Sendo assim, o tempo histórico na Amazônia, por ser construído em um espaço regional particular distinto de todo outro, necessariamente, deverá apresentar uma periodização histórica específica, diferente daquela atribuída à divisão do tempo baseada na história das civilizações ocidentais ou orientais. Entretanto, essa periodização deve ser construída segundo a natureza da história no lugar e ser capaz de apresentar uma contigüidade temporal de tal modo integrada, que a coisa-que-é suceda à coisa-que-está-sendo. Como diz Benedito Nunes (2000), antes de se apresentarem como seres determinados, mesmo as coisas chamadas naturais ou artificiais, são, antes de tudo, entes disponíveis, instrumentais, no mundo circundante. Isto quer dizer que além de uma natureza particular, essa natureza não é fruto de gerações espontâneas, ela é fruto de uma situação anterior que criou as condições necessárias para que ela viesse a existir. Caso a situação fosse outra, as condições também seriam outras.
A presença do homem no planeta compôs uma miríade de histórias globais possuidoras de vivências e narrativas próprias. E essas temporalidades heterogêneas não negam a história global, mas a classifica em diferentes especiações regionais compostas de sub-unidades familiares que se distinguem das demais histórias globais do planeta (DOSSE, 1999). A história remota da Amazônia possui a sua própria globalidade, que teve início, duração e fim no próprio espaço regional onde emergiu.
Antes de falar do tempo na arqueologia começo com a discussão sobre o tempo em si. O tempo é um atributo da natureza física do Universo. E essa física e, conseqüentemente, o tempo, nem sempre foram os mesmos diante das transformações sofridas pelo conhecimento sobre a natureza. Todavia, o tempo moderno está diretamente relacionado à cosmologia inaugurada por Galileu e Copérnico e pelas revoluções científicas que eclodiram desde então. Só depois dessa discussão é que, finalmente, situarei o tempo histórico e o tempo arqueológico na natureza.
Para eu mostrar como as idéias a serem apresentadas serão conceituadas, listo abaixo os termos centrais que nortearão este texto tentando evitar, desde já, qualquer incomparabilidade teórica, ainda que a que defendo, nada tenha em comum com as demais. Parte das dificuldades que os leitores poderão encontrar pode vir da expectativa de se encontrar neste texto uma narrativa arqueológica normal. Porém, a observação da natureza nem sempre vai de acordo com o senso comum e, por vezes, entra em conflito com a norma e os costumes. Por outro lado, apesar de alguns conceitos serem de domínio científico e filosófico, mas outros nem tanto, o fato é que eles visam a construção de uma idéia, em princípio, coerente nesses termos e não em outros. Portanto, somente um olhar desarmado poderá perscrutar, em toda a sua essência, as entranhas do eterno retorno da diferença no remoto tempo arqueológico.
Os termos a serem conceituados são os seguintes:
• função trigonotelária;
• o eterno retorno da diferença;
• acontecimento;
• intensidade, sentido e duração;
• simultaneidade generalizada dos acontecimentos;
• presente virtual;
• lugar, território e região;
• história contígua;
• história interrupta;
• padrão cultural;
• noção comum subjacente.

Os argumentos que focarão a história remota na Amazônia, anterior à interrupção causada pela conquista européia, indiretamente implicará na revisão do uso indiscriminado do prefixo pré. Afinal, será que o uso sabidamente errado do prefixo “pré”, que quer dizer preexistir, não compromete as demais tentativas de se compreender o tempo arqueológico amazônico? Não será este o motivo pelo qual, apesar de se tratar de um curso contíguo, a história remota da Amazônia, além de ser chamada de “pré-colonial”, também é subdividida em Fases e Tradições alinhadas sucessiva e hierarquicamente no tempo e no espaço? Creio que a não compreensão do tempo arqueológico compromete, sim, o entendimento das seriações históricas pelas quais passaram os povos amazônicos. Por isto apresento a idéia de que a história remota da Amazônia foi contígua e seguiu seus próprios passos, desde sua gênese há milhares de anos, até a conquista européia, mas nada relacionados aos processos da história interrupta que a sucedeu.
Onna Agaia
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991367
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Onna Agaia
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