METAMORFOSE DE GREGOR SAMSA PAI
Gregor Samsa,pai, sonha. No sonho, vê-se transformado em gigantesco inseto. Quer dormir e não pode, está deitado de costas e em tantas décadas de vida, jamais conseguiu dormir deitado de costas, só de lado, sempre com o corpo voltado para a porta do quarto, pronto para revidar completamente qualquer ataque, a exata postura que Gregor Samsa Filho mantém enquanto dorme, sendo esta, por sinal, a única característica que ambos possuem em comum.
No sonho, o inseto tenta desvirar-se uma, duas, dezenas de vezes"...antigamente tanto poder, agora onde meus olhos sem catarata, minhas patas vigorosas, minhas mãos que curvavam o mundo e as gentes à vontade...terrível, a mais terrível das coisas a velhice..." e de novo e de novo e de novo tenta desvirar-se: esforço infrutífero.
Gregor Samsa, pai, ignora o axioma dos insetos "Uma vez de costas, para sempre de costas", conhecido de todos: pré-históricos, contemporâneos, velhos, moços, gigantescos, mínimos. O fato de conhecê-lo e de, por conhecê-lo, ter que admiti-lo sem ressalvas nem contestações, impede qualquer de tais invertebrados de entregar-se a especulações de natureza metafísica, como causas primeiras e últimas que o confortem na posição inexorável de pernas para o ar quando,por mero instinto de sobrevivência, debate as próprias patas à exaustão, tentando recuperar a postura com a qual os viventes costumam andar pelos caminhos do mundo. O fato de conhecer aquele axioma impede o mesmo invertebrado de entregar-se a lamentos, ao contrário de Gregor Samsa, pai, ser de exceção em sua espécie, com o único pensamento a martelar-lhe a cabeça "que pesadelo, que dor nas costas!" ente apavorado com a perspectiva da longa noite de insônia que o aguarda dentro deste sonho de inseto velho.
Acorda, de repente, com o quarto inundado de Sol, as patas todas no chão, as antenas eretas, a visão perfeita "que maravilha, foi só um sonho, sou de novo inseto forte,jovem" e esmaga a barata que dormia recostada no rodapé.
Do livro inédito HIDRA INOFENSIVA PARA HEROÍSMO NENHUM.
Zuleika dos Reis
Publicado no Recanto das Letras em 27/03/2008
Código do texto: T918531
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