OFERENDA
Para alguém sob o signo de
Augusto dos Anjos
Falas como sempre da morte falas como sempre
desde os primórdios desde os prenúncios
das tuas falas primeiras e também dela sempre
continuam as palavras quando te calas quando
em mim se calam os sentidos e os silêncios dela
a morte sempre a morte fundamento
da tua linguagem
mas a vida a espreitar a espreitar-te sempre
no centro da ponte na ponta da outra ponta
da linguagem.
Sonhei quanto sonhei com a tua incoerência
com a tua traição ao tema da tua pena em tua boca
com os desvios de presença da morte sempre jovem
nos mares de navegar sempre este destino
de incessante a cantares. As perdas achados pérolas
as cruzes de a calares no mais fundo o teu pisar
na terra observando dela as pegadas teu mergulho
nas águas conchas desta morte sempre-viva
e sempre, a estreitar-te sempre,
a vida-que-não-morre, sempre a vida,
no centro mesmo da amada em teus dizeres
no centro mesmo da amada em teus calares
sempre a estreitar-te, no centro
da fonte da vida vida da linguagem.
Linhagens...
Está na antologia GARIMPO DE PALAVRAS, Editora Guemanisse, 2007. (Agora, com pequenas modificações).
Zuleika dos Reis
Publicado no Recanto das Letras em 21/02/2008
Código do texto: T869006
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