O Enigmático Catunda
No saudoso Estado de Iracema, exatamente em Santa Quitéria, nascia, a 25 de maio de 1895, o jovem Thomaz Catunda, caucasiano, que no limiar de alguns anos fixaria residência em Parnaíba e aqui emprestaria seu talento a favor de grandes causas e à Educação. Filho de primos legítimos, Abd-el-Kaader e Júlia Catunda, foi, ele, fruto do primeiro matrimônio de seu pai. Morava nas imediações da Praça Santo Antônio, antiga travessa Basson (hoje, rua José Basson), ao tempo em que lecionava português, ao lado de personalidades como Monsenhor Roberto Lopes e Lima Rebelo, no centenário Colégio Nossa Senhora das Graças (Colégios das Irmãs – como muitos o reportam) e na União Caixeiral. Era moço sério, pacato e de poucas palavras, sempre em trajes brancos. Costumava conversar sapiências com alunos, que não o admiravam apenas como professor, mas, também, como talentoso poeta. Em benefício da comunidade, Catunda serviu, como secretário, à 1ª Divisão do Escritório Central da Estrada de Ferro Central do Piauí, ao lado do respeitado Sr. José Castello Branco. Não tardou a radicar-se parnaibano, evocando o espírito municipalista nas campanhas pró-portuárias de Luiz Correia. É autor da célebre frase, eternizada pelo Livro do Centenário de Parnaíba: “Parnaibano é todo habitante de Parnaíba que concorre com a sua pedra para o edifício comum do nosso progresso”, hoje, exaustivamente usada por aqueles que acham transladar um ineditismo fora de época. Casou-se, em nosso litoral, a 23 de novembro de 1918, com a Sra. Olga de Almeida. O casal não constituiu prole, mas adotou duas crianças: Raimunda Gomes da Cruz e Celso Maia Fonseca, falecido em plena Segunda Guerra Mundial. Apesar de amigo-pessoal de inúmeras personalidades intelectuais da cidade ligadas às Letras, foi um artista com tímidas investidas prosaicas e poéticas, o que soma poucas produções espalhadas nos Almanaques da Parnaíba e nas revistas Raios de Luz: raros contos e alguns trabalhos versificados; levando-nos a compreender um caráter de vida dedicado aos ofícios de suas profissões. Consultando sua filha, Dona Raimundinha, foi-nos revelado uma outra luz de verdade acerca do ensaiado: “Meu pai não gostava de escrever, era mais ligado ao hábito da leitura – dizia, ele, que sua sede por conhecimento era tanta que não perdia tempo com escrita; era um homem simples, bastava o seu favorito feijão e ter algo para ler que se fazia satisfeito”. Foi junto aos amigos Raul Furtado Bacellar, Cordeiro Neto, Mário Carvalho, Edison Cunha, Genésio Nunes, dentre outros, membro da Associação Parnaibana de Imprensa. Quando da visita do então presidente da República, o Sr. Getúlio Vargas, à nossa Parnaíba, fora Catunda um de seus comissionários.
Entre os grandes nomes que se tornaram notórios freqüentadores do Cassino 24 de Janeiro, ostenta-se o do ensaiado. Como poeta, escreveu trovas e sonetos sob a rigorosidade dos versos alexandrinos – o molde mais difícil da língua portuguesa. Fez parte do quadro de poetas representantes, no norte do Estado, do movimento parnasianista. Apesar de parnasiano, seus escritos, também, possuíam certa dose de lirismo, mas é de se entender a fase de transição a qual estava exposto. Trabalhava, a rigor, a homofonia do verso com o domínio de palavras rebuscadas em larga visão objetiva, denunciadas em determinadas passagens descritivas de natureza. Assim como os maranhenses Humberto de Campos, Oliveira Y Ferres e Félix Aires, foi um dos poucos poetas do nosso país a respeitar a continuação de cada verso, sem que necessário o sobreponha uma inicial maiúscula. Para Humberto, assim como para Thomaz, o derradeiro verso não findado por um ponto, seja final, de exclamação, interrogação... Não necessita, no procedente, de tal inicial. Parecia entender, como os mais atentos versificadores, que a poesia, assim como a prosa, necessita de um bom começo, meio e fim aurífero. Contribuiu muito com a Parnaíba quando pertenceu à Sociedade Parnaibana de Expansão Cultural. Confesso o anseio que consumiu por muitos anos minha alma a procura de textos e poesias que remontassem, pouco a pouco, os pequeninos traços de personalidade desse ilustre senhor, no entanto, a constatação não fora outra: assim como o foi discreto e de poucas palavras em vida, assim o foi quando poeta e escritor. Não podemos, enfim, precisar sua preferência poética, visto que tanto escrevia sonetos quanto trovas com a mesma elegância e dedicação. Em 1967, devido a problemas de saúde, dizia o poeta sofrer de problemas devido à água que consumia em nossas paragens, fixou residência em Fortaleza, Ceará; 13 anos depois, dois meses antes de seu casamento completar bodas de diamante, a sete de junho, falece vitimado por edema pulmonar.
Olhos D’Água das Frecheiras
Velho enredo de lenda essa fonte recorda...
Quando alta noite, o luar as águas lhe prateia,
Há suspiros na selva, andam sombras na areia,
E um canto de tristeza erra de borba em borba...
É a hora, diz a lenda, em que a mãe d’água acorda
E a flor do lagozinho, entre aningais, vagueia...
E tendo ciúmes da água essa estranha sereia,
Ninguém, por noites tais, aquele sítio aborda...
Tudo lembra visões de um país encantado!
E até mesmo esses dois burilís elegantes,
Colocados ali como irmãos, lado a lado,
Aos olhos do viajor, que se afasta com mágoa,
Tem a vaga feição de dois calmos gigantes,
Intrépidos velando a entrada do olho-d’água...
(Thomaz Catunda)
Parnaíba, 23 de março de 2008.
Publicado no Suplemento Cultural O Piagüí (Maio/2008).
Daniel C B Ciarlini
Publicado no Recanto das Letras em 07/05/2008
Código do texto: T978999
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