DOIS
Tem coisas que só seus olhos lêem e sabem na raiz a feitura de um meu verso; distinção entre a poesia e o fato concreto. Coisas que só a sua razão alcança e o meu nenhum sonho debruça... Portanto, nesta carta o que nos cabe e o que as folhas por enfeite balançam.
(A carga desta caneta de hoje é em Hivana, d'UFÉ!)
Aquela árvore! Este é o motivo da intenção; e as palavras que chegaram truncadas. Só agora, depois, muito depois, é que me lembro com nitidez da existência de uma determinada escada e com esta lembrança, um emaranhado enorme vindo junto: linhas, fiapos, pétalas arrancadas, toda sorte de resíduo e já sem tempo para juntar...
...Seu rosto em minha frente querendo dizer coisas e a urgência carregando a possibilidade do instante! Quando pude, sim, pedi que te entregassem os raios de sol colhidos e desenhados em lápis de cor, mas não sei ao certo o destino do friso dourado que abraçava tudo.
Havia naquele dia, um perfume que dava a impressão de vir do lado! Foram os últimos minutos que antecederam o intervalo que se fez.
Não, eu não soube de pronto; pela extensão do trajeto de tantos relógios, você pode calcular com certeza.
Desde que aportaram essas lembranças, é como se alguém em pesado traje escuro andasse de lá para cá sobre um risco no piso, as mãos no bolso e o olhar baixo feito o pêndulo das vontades recolhidas, aguardando a liberação do passaporte...
Tenho uma dificuldade enorme em decifrar os silêncios, embora o maior deles seja o companheiro fiel. Talvez por isso, talvez e então pense que de tão próximo, eu já tenha lhe decifrado o idioma, mas é engano!
Quantas e quantas vezes tenho tido por certo o que se demora mal vestido... Das compreensões, restando nenhuma às vezes e lábios tantos em desatino a todo canto. De tudo, a lembrança maior do seu chamamento e mensageiro duvidoso... Não fosse isso, a nenhuma necessidade de ao menos a menor rispidez em nenhum tempo e as águas sem precipitação.
O dar as mãos é tão simples e se distorcido, desanda à foz das coisas perdidas ou largadas imperiosamente.
O endereço daquela árvore, tão distante!, e o ar comprimido; você não tinha o direito de ter dado margem para que tudo me chegasse qual casaco mal cosido e o inverno sem capuz!
Não podia ter dito aquelas coisas tão explicitamente, pois que nunca se deu à transparência dos sentimentos... Claro que tomei pelo inverso então, afinal, seu jeito sempre em falso.
Que despropósito tivemos a graça de ter vivido... Chicote de estrelas, as dores de lua, as coisas secretas de sonhos que nunca tivemos e a poesia insinua!
Só pode mesmo ser Arte, não duvido: transformar o nem tanto, o de forma alguma em belo, objeto de disputa, pelas cores que imprimimos no abstrato à imaginação das pessoas... ocultos negros grifos em tom pastel esmaecido, como se ingênua fragilidade experimentada e o distorcido da maldade alheia passeando qual se em próprio colorido!
Agora mesmo, repara o resquício: recostada nessas palavras mansas, a ternura que nos temos, à reserva do que nos acomete quando em outra cor e ao vivo...
Esse ar sério plantado, goiaba no deserto seco ou pequi do sul, intransigência dura e o bom-humor que tenho lacrado, revestido; a minha maneira de rir das coisas é diferente da maioria: tem hora que até me irrita, confesso, conter o riso, mas das defesas tanto melhor o nenhum perigo das pedras (d)e liras! (risos)
Eu só sei que é preciso chão para adentrar essa fronteira da árvore erguida e que a janela do meu 6º sentido não é aberta qual teimamos em parecer; pelas tolices não me importo: o óbvio de pequenês banal às páginas de vida me são milho aos pombos em tardes inúteis quando ao banco de alguma praça enganando o tempo!
Pois aquela árvore! Toalha de mesa em ramos floridos e o café da hora em aroma gritante...
Eu ficaria horas te pintando o quadro que desembalo do pardo papel, mesmo porque gosto e além, ao tanto que sei, parece música em seus ouvidos, porém sem óleo secante na mistura dessas tintas e o mais leve toque esbarrado na superfície seria pior que imenda de soneto e irremediavelmente triste.
Prefiro conservar a alegria camuflada que brinca aquém de qualquer vidraça, pois que me é conforto forte e a ternura existe.
Faça um próximo verso! Revide...
Agora eu vou-me embora à necessidade de viver o irreal; a vida que sonhei e o sono capital!
...Não sem antes te assoprar um beijo; dois: que tal?
Ene Mathias
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681777
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.