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CARTAS AO LEO

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Lagoa da Cruz, 15 de Agosto de 2008

Da carta pública de Antero de Quental dirigida ao romântico Antônio de Castilho, tenho o "remate" que também é digno de nota. Antes de te enviar o fragmento final, vamos ao fato que levou Antero a escrever a carta.

Por volta de 1865, havia um grupo de estudantes interessados em discutir a possibilidade de modernização da cultura portuguesa (os futuros realistas): Antero de Quental, Eça de Queirós, entre outros. Em Lisboa, um grupo conservador liderado pelo poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho criticava os jovens de Coimbra. Castilho, no posfácio ao livro Poema da Mocidade de seu discípulo Teófilo Braga, fez uma pequena referência ao grupo de Quental, criticando-lhes a "falta de bom senso e de bom gosto". O poeta Antero, citado nominalmente, prontamente escreveu um violento e debochado opúsculo (folheto) chamado Bom Senso e Bom Gosto, tratando o poeta romântico como causa do atraso português. Essa carta suscitou polêmicas acirradas. Os ânimos se exaltaram a tal ponto que Antero de Quental e Ramalho Ortigão se enfrentaram num duelo em que esse último saiu ligeiramente ferido. Esclarecido o fato, leia a seguir, Leo, o trecho final da carta:

"Paro aqui, Exmo. Sr. Muito tinha eu que dizer: mas temo no ardor de discursos, faltar ao respeito a V. Exa., aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não reverente e tão lisonjeira como eu desejava. [...] Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. Passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele confesso não me merecem nem admiração, nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão.

E por esses motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V. Exa.

Nem admirador nem respeitador

Antero de Quental

Coimbra, dois de novembro de 1865"

Dizem os entendidos que desta frase de Antero: "A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança". Saiu o conhecido ditado: "Não há coisa pior do que velho assanhado e criança precoce".

Do seu amigo e admirador

Ricardo Sérgio.

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Agradeço a leitura e, antecipadamente, qualquer comentário.

Se você encontrar omissões e/ou erros (inclusive de português), relate-me.

Ricardo Sérgio
Publicado no Recanto das Letras em 11/07/2009
Código do texto: T1694733

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Comentários
16/07/2009 01h58 - João Cyrino
Essa carta está no meu livro de literatura e eu sempre achei ela "o máximo".
11/07/2009 21h56 - Roberto Pelegrino
Olá professor, passei para ler o seu interessante texto e lhe desejar um belo final de semana!

Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande/MS - Brasil, 62 anos
655 textos (930601 leituras)
4 e-livros (263 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 07:46)

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