![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() |
Texto

| A Carta Não sei ao certo como dar início a esta epístola, na verdade não me vem à cabeça um pretexto plausível para tal vontade de lhe escrever agora, já que estou de frente com a morte, sentindo o seu baforar desejoso a me rondar como uma águia astuta e paciente estuda sua presa – a lebre – antes de lhe atacar. Prestes a dar o último suspiro de vida estou, desejoso de viver mais um dia, e outro, mais outro, para ao menos lhe encontrar novamente. Almejava estar ao seu lado quando você lesse estas linhas que escrevi já exausto, para saber qual seria sua reação ao saber que seu pai, o humilde ser que lhe criou, morreu sozinho ansiando pelo menos um gesto amável, uma palavra de afeto apenas, ou até uma pequena lágrima gasta com o seu velho. Quem sabe estou agora contigo... Já que este papel gasto e velho está em suas mãos, estou morto. O que sentes em verdade? Tristeza? Arrependimento? Indiferença? Pois então me faça um favor: imagine-me agora ao seu lado. Levaste um susto? Desculpe o seu velho, acabei de dar longa gracejada a imaginar tal cena. Acalme-se flor do dia. Deveras te assustei, não foi? Perdão. Perdoe o seu velho. Veja deste modo: o bom humor de seu pai não se esvaiu nem mesmo com a solidão dos anos! Enfim, sem mais delongas vou dizer ao que escrevo. Você há de ter uma pequena – mínima que seja – curiosidade do que passei nesses sete anos que não nos vemos, estou certo? Assim espero. Pois bem, eis aí um bom motivo para tal carta! Estou certo, não?! Quero que tu, minha filha, veja como foram meus anos longe de ti, talvez lhe mate a saudade. Não acreditas não é? Nem eu mesmo creio no que escrevo, sabes que sou um bocado egoísta e não estaria escrevendo somente por você e sim por mim. Talvez eu esteja com medo da morte e essa epístola me mantenha algumas horas a mais de olhos abertos e o corpo quente. Pois se não quiser continuar lendo, rasgue agora o fúnebre papel. Vamos, rasgue! Não irás fazer isto não é? Não, não irá. Estou certo, conheço-te ao menos um pouco flor do dia, o bastante para saber que sua curiosidade não a deixará fazer o que é certo. Pois então prossiga a ler, sacie seu desejo indiscreto! Por onde começo então? Pelo dia em que tu me deixaste aqui é o mais adequado. Correto? Pois então caminhamos a ele. Naquele fatídico dia acordei com um sentimento de vazio no coração, algo me dizia que seria hoje. Seria hoje o dia em que tu, minha própria filha, minha única filha, a flor do dia me abandonaria, me largaria em um asilo qualquer pela cidade. Pois estava certo, não estava?! Há tempos ouvia conversas de você e seu marido sobre o assunto, do quão bom seria deixar-me descansar em um lugar apropriado, rodeado de velhos com quem eu poderia fazer amizades, onde receberia cuidados necessários pra minha idade e... Enfim, queriam o melhor pra mim! Pura pilhéria, não? Como podes achar que me afastar de você e meus netos seria o melhor pra mim? Há pouco falamos sobre o meu egoísmo, mas o seu ultrapassou qualquer tipo de limite! Pergunto novamente: Como podes? Espero que o remorso lhe tome conta por um instante sequer! Alarma-se? Aquiete seu coração então, respire um pouco, tome ar por um minuto... Percebes agora, que me tornei um pouco amargurado e chato com o tempo. Pois então se sinta culpada por tal mudança, tu és sim! Como podes? Como podes? Como podes? Consciência a martelar... Não a minha, a sua! A minha jaz em paz, nada de mal fiz a ti, a tua eu já não sei. O que me diz? Eu sinto que mesmo lhe agredindo com estas palavras duras tu, flor do dia, não deixarás de ler até a última palavra. E isso muito me diverte. Não sabes o quanto. Enfim, prossigo com minhas lembranças. Banhou-me, vestiu-me, perfumou-me, mala arrumada, prontos a ir estávamos! Calmo e sereno me encontrava, acho que já resignado com o infeliz destino. Durante a longa viagem você tentava conversar, fiz-me de mudo. Querias que eu falasse o que? Um de meus gracejos? Puro melindre de sua parte! Disse várias vezes que iria me visitar periodicamente, para que não me sentisse só e com saudades de casa. Em algum momento nesses sete anos, flor do dia se imaginou em meu lugar? Se seus filhos te jogassem em uma guarida sem lhe visitar sequer uma vez, o que sentirias? Não, não pode sequer imaginar a solidão em que me encontro. O desgosto com a vida por ser jogado no lixo como algo indesejado. A dor no peito que me aflige todas as noites antes de dormir. Não penses em me visitar agora, se fez tarde minha filha, a capciosa águia já se alimentou da pobre lebre de outrora, lembre-se que estou cá morto se tu tens esta carta em mãos, meu corpo defunto não deseja nem necessita mais de sua companhia. Deixe-o apodrecer em paz. Pratique o que você fez muito bem todos esses anos, ignore! Sobre a epístola? Leia, re-leia, guarde, rasgue, queime... Faça o que quiseres, não conseguirás me tirar da cabeça. Não, isto flor do dia não há de esquecer! Perdoe o seu velho, não consigo me conter! Tens que concordar que isto tudo tem um quê de pilheria infantil. Deixe-me então gracejar, desfrutar de algum tipo de júbilo antes de entrar por fim na maldita cova. Continuemos... Chegando ao endereço indicado no papel em sua mão, entramos. Fui recebido com aparente alegria, pura farsa de recepcionista. Onde aquilo tudo podia ser motivo de alegria? Acomodei-me, por certo o lugar era acolhedor, calmo e afastado do caos da cidade. Mas repito: Como podes? Você pouco ficou, minutos para ser um mais exato. Deu-me um abraço apertado e fez questão de repetir que voltaria a me visitar. Disse ainda que a não despedida de meus netos para comigo só comprovava visitas futuras e constantes. Lembra-se? Chamo a sua atenção para isso, como meus próprios netos não se importaram em se despedir do avô? Cômico se não fosse trágico. Cômico/Trágico eu diria. Logo depois a minha flor do dia se foi. Esperei sua prometida visita por dias, semanas, fiquei preocupado, nenhuma notícia sua nem de meus netos por meses. Tentei entrar em contato, mas parece que foram dadas recomendações expressas para não me deixar comunicar com minha família daqui do asilo. Depois de meses me resignei. Você tinha deveras me apagado de sua vida. Irônico, eu diria. Logo eu que te criei sozinho, sem a ajuda de ninguém, nem mesmo de sua mãe que fugiu com outro homem. Dediquei minha vida a sua educação, e me retribuiu assim? Irônico, não?! Certo cansaço me assola, sinto que é chegada a hora do meu adeus, não a você que me deixou há anos, adeus a vida, adeus a mim mesmo, adeus ao meu corpo. Pois enquanto tenho forças para segurar o lápis, continuo. Dois anos depois fiquei sabendo da morte de seu querido marido. Não me perguntes onde e como fiquei sabendo de tal fato, não vais querer que eu sussurre em seu ouvido a noite como eu soube, vais? Creio que não. Mas voltemos à morte do pobre varão que flor do dia tanto amou, morte da qual não senti tristeza, dor, aflição ou coisa do tipo, senti indiferença. Não me julgue mal minha filha, querias que sentisse o que? Nenhum apresso tenho para com o homem que fez-lhe a cabeça contra seu pai. Não se acanhe em parar de ler agora, tenha paciência, logo dou fim a esta enfadonha carta... Ano após ano refleti, olhando agora para os anos que passaram, percebo hoje – à beira da morte – que nunca senti nada de ruim por ti, isso não seria possível. Flor do dia é a minha história, minha biografia, minha fábula. Tudo de mais perfeito em meu triste e longo viver. Peço humildemente perdão pela postura burlesca e carregada que adotei nesta carta. Só queria lhe transmitir um pouco de minha dor para tu saberes talvez um pouco do meu sofrimento. Não por maldade e sim por oportunidade. Conhecendo-te bem como conheço, sei que sua consciência pesou durante todos esses anos, só não teve o ímpeto de vir me visitar. A real intenção desta epístola é te dizer apenas uma coisa: - Eu lhe perdôo Flor do dia! |
| Renan Martins |
| Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009 Código do texto: T1909762 |
![]() | Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Renan Martins). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. |
Comentários 
Sobre o autor

|
Renan Martins
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 17 anos
54 textos (2164 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 23:56)
|
![]() |