Texto

Nada justifica uma relação se não houver amor verdadeiro


------ Original do E-mail --------

To: marcos.pablo9@yahoo.com.br

Sent: Quarta, 28 de Outubro de 2009 11:14 AM

Subject: Sexo e casamento

Olá! Seu Marcos Pablo

Meu querido internauta do blog O DIREITO E A BÍBLIA

Não lhe conheço, nem sei muito bem acerca de você... apenas aquilo que estar em seu blog.
Encontrei seu texto por acaso e li “CASAMENTO E SEXO – POR UMA LIBERTAÇÃO DA HIPOCRISIA RELIGIOSA” e me tocou profundamente tudo aquilo ali descrito. Preciso me desabafar com alguém, e não te conhecendo me sinto até mais a vontade pra mim contar-lhe acerca da minha experiência vivida em meus anos de casamento.
O que vivi, vivi..., mas não foi um "casamento"; aliás, tenho muitas dúvidas se saberia me casar! De fato, embora deseje muito, eu tenho medo. Cada página-pensamento me coloca na situação de ver o que não vivenciei, como sendo essa experiência, e o que deixei de viver enquanto me "relacionei"... O que busquei e o que não fui! Levei tudo muito a sério...
Quando eu queria brincar o meu ex-marido queria trabalhar...
O interessante é identificar os pontos e... sentir um desejo enorme de voltar no tempo como que para, pelo menos, tentar... e brincar ou chorar...; enfim, viver a emoção certa para cada tempo!
Chego a pensar que vivi uma relação incestuosa, pois ele me chamava de "filha" e me era o provedor responsável... que me dava a segurança buscada.
Assim, eu penso que, de fato, nunca soube o que é ter um homem, um macho; pois, era tratada como filha...; a intimidade não existia e meus desejos foram contidos; minha sexualidade continuou comprometida e... acabou. Ele conheceu uma mulher, de verdade, uma amante..., e não uma outra "filha", a quem ele se deu e para quem foi homem!

Não o culpo, mas confesso que mesmo amando-o com o amor que lhe tenho e que não é ciumento, nem egoísta... eu me entristeci quando percebi o quanto de mim poderia ter sido descoberto...; o quanto de mim, perdi por não ter visto...; embora tenha visto, desde o início,
que mesmo dizendo me amar [e acho que me amou - do jeito dele], ele nunca me assumiu como mulher...
Quando saíamos em público ele ia à frente...; e não andávamos de mãos dadas; quando encontrava alguém conhecido dele..., ele de mim se afastava; eu não participava da vida dele, ficava à margem...; e ante a tudo, me calava...; mendigava...; e, no escuro, não poucas vezes fingi [...] e depois chorava...
Eu tenho medo de sexo!...
Penso que deve ser bem melhor do que o que eu tive...; mas tenho medo de fracassar; de não saber ser; de nunca me encontrar ou de não saber "dançar"; ou de não encontrar alguém que me entenda e que queira dançar comigo, todas as danças!
Assim, cada dia que passa..., me recolho..., e, de fato, dificulto um encontro... Se que é que eu queira me deixar encontrar com alguém mesmo...
Um desabafo!
Grande abraço.
_______________________________________
Resposta:
Amiga amada: Graça e Paz!
A sua história parece muito com a história entre meu Pai e minha mãe, os quais hoje encontram-se separados, e portanto, posso falar de algo que convivi observando durante tempos em casa.
Ninguém se relaciona de verdade se o jugo for desigual...
Ora, por “jugo desigual” estou falando de desarmonia, de desacordo, de descoração, de desencontro, de desafinação, de desnivelamento, de desentendimento, de maturidades diferentes, de atitudes díspares, de inibições, de falta de intimidade, de falta de igualdade no olhar conjugal, e, portanto, sem alegria de identificação, sem confiança na entrega, sem desejo de dar e de ter, sem alegria no dar tudo e no ter tudo, sem busca de prazer do outro, sem liberdade para provar tudo, e desejo de fazê-lo, sempre... E mais: sem admiração mutua edesejo mutuo...
Ou seja: sem tais coisas não se cumpre entre um homem e uma mulher o que Pedro chamou de “graça comum de vida”...
Portanto, o que tenho a dizer a você é que não é porque você seja uma freek que isto aconteceu...
Não! Basta não haver encontro [...] e pelo menos uma das partes ficará “aleijada”, senão as duas...
Assim, a mulher jamais se conhecerá na plenitude da relacionalidade em nada..., a começar da cama... E o mesmo se pode dizer do homem...
É por esta razão [ou seja: em razão de casamentos em jugo desigual psicológico, afetivo, emocional, espiritual, físico, químico e animal] que em geral o homem vai pensar que se apaixonou pela 1ª amante que tiver...; sim, com quem não tenha nada além da liberdade aflita
do sexo proibido... Também é pela mesma razão que há mulheres que nem ama o amante, mas que não consegue deixá-lo...
Todos os que já foram “bem casados” pela religião e “pela boa disposição de fazer dar certo a todo custo”, mas sem aquele amor que justificasse a união de um homem e uma mulher, e que, portanto, fracassaram no casamento...; passando a sentir o mesmo que você descreveu... — têm a dizer a você que também nunca se relacionaram na vida; que nunca se conheceram; e eu conheço amigos próximos a mim assim, vivendo assim - que nunca discerniram seu próprio potencial relacional e sexual; que se sentiam ou ainda se sentem “aleijados”..., à sua semelhança.
Sim, muitos com forte impressão de que o problema é deles...

Ora, num caso como o seu, por não ter podido nem mesmo conhecer o sexo como prazer [fica difícil relaxar com um homem que trate você como “minha filha”...], vindo você posteriormente a descobrir que o ex-marido conheceu com outra aquilo que ele não teve com você [E é claro! A outra não era “filha” dele...] — é natural que surja no coração enfraquecido e sentido pelos fatos, a idéia de que a pessoa, no caso você, é que não teve a devida competência... , quando, na realidade, não é nada disso...
Sim, pois amor e desejo, conluio conjugal, paixão químico-orgânica, atração inexplicável; atavismos e simbioses psicológicos; entre outras coisas... — não são produções da vontade de que assim seja; sendo, na maioria das vezes, algo que ao começar não se explica e não se faz
lógico; embora encha a pessoa da insanidade da certeza feliz.
Ter morado com um marido, ter tido filhos, ter cuidado de uma casa, ter dormido ao lado de um homem tantos anos, ter tido tudo o que os casamentos propiciam [para o bem e para o mal], não realiza nada além de ter deixado uma mulher e um homem juntos sem terem jamais se unido; a menos que tenham já se unido de modo inexplicável antes de fazerem o rito do casamento. Foi exatamente o que tentei deixar claro no meu texto.
Sem amor não há nada que case um homem e uma mulher!
Podem viver 75 anos juntos, gerar 23 filhos, e nunca terem se casado...
Podem ter transado como preás..., mas se não tiverem se amado mesmo, terão apenas muita consciência anatômica do corpo um do outro, mas nenhuma intimidade...
Intimidade se manifesta nas liberdades da cama, mas, sobretudo, na confiança com a qual cada um se entrega ao outro todos os dias, em todas as coisas... Só existe intimidade quando o amor desavergonha os implicados no vínculo!...
Assim, foi tudo certo com você; exceto você para o homem e o homem para você!...
Entretanto, casada naquelas circunstancias de jugo desigual em quase tudo, o que você julga que uma alma verdadeira e sincera como a sua produziria..., senão choro no escuro enquanto o gemido não era prazer, mas angustia?...
Seria estranho para uma mulher como você  dizer que nunca tinha tido
nada com ninguém, que casou com “seu pai psicológico”, que era trabalhador no escritório, mas preguiçoso na cama; que não gostava de fazer você brincar como gente grande em agonia de prazer; que não se deu a você; que não fez por você mais do que um bom pai faria
pela filha — mas que, apesar de tudo, você teve mais prazer que uma “incorporada”...; e que se deleitou mais do que se o amasse!...
Aí sim! Algo estaria muito errado... ninguém em tais circunstancias poderia ter atitudes e estados diferentes do que vc agora esta passando.
Com isto não acho que você tem que “abanar” a sua sexualidade, como que para “acendê-la”...
Não precisa!... Ela está aí... Viva e intacta... Sim, até que apareça aquele que não deve ser
inventado... Ora, quando o homem real, que não seja uma projeção e nem transferência; que não é a escultura linda do Miguel Ângelo da nossa carência afetiva e emocional; e que, além disso, não é uma fantasmagoria criada pelos nossos ideais conjugais fantasiosos... — chega, então, ante sua aparição, toda mulher, não importando a idade (e sei do que falo e vc deve saber também, que há muitas pessoas ao nosso redor que só depois de “velhos” vão encontrar de fato o amor
real – depois de rompimentos de casamentos só de fachada), pois descobrirá o poder do amor como se tudo fosse tão poderoso em intensidade quanto na adolescência, embora carregado pela maturidade do tempo...
Assim, minha amiga, não se julgue mal; e não se torne impressionada com a falência de seu casamento, nem com o passado dele, nem com seus fantasmas, nem com sua impotência; pois, eu, você, e qualquer um que queira amor sincero e pleno, jamais seremos nada além de
“aleijados”, se casarmos sem que o amor que justifica a união de um homem e uma mulher, com todas as suas nuances, não estiver mais que presente na relação...
Quem não ama, mas diz que mesmo sem amor o casamento é uma beleza, saiba: é tão “aleijado de amor”, e tão distante do amor, que, para esse tal, o casamento é apenas o que de dentro dele se possa tirar como conforto ou segurança material para a vida; se tanto... são um bando de hipócritas fingindo serem feliz quando no profundo de suas almas gostariam de estarem em outra situação... “
Quando duas pessoas se encontram, é Graça.
Quando não se encontram, não é culpa de ninguém; pois, quem de fato se encontra..., esse não quer mais se desencontrar de quem de fato encontrou...
Assim, amiga amada, descanse a sua alma, assim como já descansei a minha.
Já faz um tempinho, uns anos atras, namorei uma garota e a amei de verdade e quase me casei com ela, porém, no entanto, a relação infelizmente acabou, e... depois disso, tive e ainda de vez enquando aparece várias tentações no sentido de fazer eu firmar namoros que
poderiam me levar a querer e talvez me casar um dia – só por conveniências, mas não porque eu de fato esteja amando. Embora seja difícil tenho dito não. É melhor não se apressar, amiga, mas deixe que a graça de Deus um dia lhe una com a pessoa adequada e que o jugo seja igual entre vocês.
“Ó, filhas de Jerusalém! Rogo-vos que não acordeis e nem desperteis o amor até queeste o queira!” já dizia o livro de Cantares de Salomão.

Receba meu carinho, amiga querida; abraços fraternos e que o Senhor Deus esteja sempre conosco nos conduzindo a tomar as melhores decisões na vida. Até mais....
                                                        Marcos Paulo
marco pablo
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1911159

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Indique para amigos
Denuncie conteúdo abusivo

Comentários

Sobre o autor
marco pablo
Teresina/PI - Brasil
15 textos (766 leituras)
1 e-livros (17 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 14:05)

Como anunciar aqui?