Ao "Arcanjo" Miguel
Carta ao arcanjo
E assim começa: Eu com cinco anos, as 6:00hs da manhã no balcão da padaria pedindo ao balconista. "Moço, me dá tês pão!" Que na verdade eram cinco, mas, o balconista já sabia. É isso Miguel, para falar do que você representa para mim eu precisaria de 51 anos escrevendo. Mas, entre tantas coisas boas que eu vivi ao seu lado, eu vou lembrar algumas, entre muitas, e que foram também marcantes na minha vida. Eu só sei que era bem pequeno, uns três, quatro ou cinco anos talvez, estava eu, sentado numa bicicleta monark verde (eu acho que era monark), com mais três irmãos e você com a perna da calça levantada até o joelho, empurrava a bicicleta no meio da água que transbordava do riacho(que depois virou valão), da rua da Quermesse desafiando a natureza para fazer cumprir as suas convicções e também nos dar uma boa formação religiosa. Hoje eu sei que não era fácil para você e, também sei o quanto foi(e ainda é!) importante para mim a sua determinação na sua obra espiritual junto com Deus. Para mim, era uma aventura deliciosa, eu adorava!
Aos domingos na igreja Miguel, tantas e tantas vezes na hora da ceia, você num gesto simples mas que para mim era apaixonante deixava um pouco de suco de uva no cálice e molhava o meu dedinho para eu chupar, era uma delícia! Chegávamos em casa e tínhamos até o prato chique da época, o frango. Lembro também Miguel, da quinta da boa vista. Você e minha mãe (ela sempre presente), nos colocavam no trem (éramos e ainda somos, oito filhos) e íamos felizes da vida, pendurando nas chupetas do trem como se fossemos um bando de macaquinhos em hora de lazer. Ah Miguel... Como eu gostava daqueles passeios na Quinta da Boa Vista! Na véspera de tanta ansiedade, eu nem conseguia dormir direito e você também parecia uma criança, ia brincando com a gente no trem e chegando lá, enquanto brincavamos na grama você e a Ondina, esticavam a toalha clarinha na grama e punham em cima, a galinha, o arroz e a farofa. Era maravilhoso!
Outra lembrança maravilhosa entre tantas que eu tenho de você Miguel, era o passeio de trem a Tinguá, a Maria fumaça que agente pegava em Miguel Couto é uma das lembranças mais fortes que eu tenho da minha infância, até o cheiro da fumaça branca do trem que pareciam chumaços de algodão flutuando no ar eu gostava Miguel. O banho de rio, o pik-nik na praça e também a casa de pau-a-pique em Piranema perto do Silas e da Tiana, a casa da vovó Luciana e da tia Nair, a qual eu lembro com muito carinho, pois as vezes eu ficava lá por dois meses e você com saudade do seu caçulinha ia me ver. Lembro também Miguel, daquele barraco na beira do campo lá em Rupturita, onde um dia eu e você (só estávamos nós dois) estávamos com muita fome e você foi no rio e com as mãos pegou alguns peixinhos e um muçum, e não é que nós comemos o muçum com pão e k-suco! Que delícia!
Sabe Miguel, se naquela época fotografia fosse tão comum quanto é hoje, este tesouro que eu tenho na minha memória, eu mostraria com fotos aos meus filhos e com certeza eles iam perceber que aonde você ia eu estava agarrado nas suas pernas. A sua dedicação a Deus Miguel, me proporcionou momentos maravilhosos, enquanto você se realizava trabalhando para Deus eu me divertia. As congregações Miguel, elas me marcaram muito, o desafio e a determinação de fundar mais uma igreja, e foram muitas; Ponto chic, Nova Jerusalém, Caioaba, Jardim Alvorada e Muriqui entre outras que não me lembro no momento e eu gostava muito, assim fui crescendo e percebendo como o meu pai é grande.
Miguel, você se lembra desta frase? "Olha o seu Miguel!" Eu saía da escola as 10:30hs passava em casa trocava de roupa, almoçava e ia de trem ao seu encontro na Av. Graça Aranha com dois tabuleiros de doce que a Ondina preparava com muito carinho para você vender. Trabalhavamos eu e você. O carrinho ia cheinho: Sandwich de queijo, de presunto, cuz-cuz, arroz doce, bolo de aipim, refrigerantes e quando chegávamos à porta das salas você falava... Olha o seu Miguel!. Ao final do dia já com o carrinho quase vazio, você sempre guardava para mim um Sandwich e um refrigerante. Aquele momento para mim era mágico, não pelo lanche e sim porque eu gostava muito de estar ao seu lado. Fui crescendo Miguel, e você sempre presente, sempre amigo, sempre respeitado por todos à sua volta, isso me deixava muito feliz. Outra coisa que me marcou muito Miguel, foi o armazém do Carmari. Aos sábados você ao invés de descansar, ia trabalhar e algumas vezes me levava com você e, eu achava lindo ver você atendendo as pessoas sempre com um sorriso no rosto. Eu lembro também Miguel, dos sábados que você levantava cedo e ia ajudar um vizinho a matar porco para vender e como recebimento pelo trabalho, você levava para casa uma fatia do bichinho e nós comiamos a carne de porco fresquinha no domingo. Pois é Miguel, eu também estava lá com você. Uma das cenas que mais me marcou meu Pai, foi quando eu, ainda com meus vinte anos, estava em dificuldades financeiras com uma sapataria que eu montei numa loja que o Fidel(meu cunhado)me alugou na frente de um estacionamento. Na preocupação de pagar aos credores eu perdia o sono e ficava até de madrugada assistindo a televisão, e você sabendo do meu momento difícil ficava comigo, sem dizer qualquer palavra que fosse me aborrecer ou me magoar. O seu silencio e a sua presença me dava o apoio que eu precisava para superar aquela dificuldade, e eu superei.
São tantas as passagens Miguel, que a minha personalidade foi se formando no reflexo da sua, muito de mim veio de você e eu agradeço a Deus por ter me dado o privilegio de ser filho seu e da Ondina.
Hoje meu Pai, eu tenho privilégio de lembrar da minha infância e me deliciar com as minhas lembranças. Quando um amigo ou um cliente
me pergunta porque que eu nunca estou aborrecido com a vida, eu respondo a eles... "Pergunte ao meu Pai Miguel, ele me ensinou que o prazer da vida não está no que vemos e, sim, no que somos."
Eu sei meu querido Pai, que você não nos criou (somos oito irmãos), para sermos o que você queria e sim para sermos felizes e honrados. E deu certo meu caro! Com você e a Ondina, eu aprendi a ter respeito, responsabilidade, sinceridade e amor ao próximo e, isso moldou a minha personalidade tão positivamente que hoje eu amo e sou amado por muitas pessoas. Eu te amo muito meu PAI.
Do seu... Muléquinho!
Muléquinho.
Dan Silva
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T990094
 | Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Dan Silva). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. |