Cada um dói de si!
Além de jornalista, sou uma artesã das letras, que produz arte e cultura. Também sou, no jargão atual, "usuária de um sistema de saúde mental", denominado Caps (Centro de Atenção Psicossocial), criado como alternativa à extinção dos manicômios, oferecendo um tratamento mais humano e menos doloroso para lidar com a “loucura”.
Não temo o rótulo de "doente mental". Temo o preconceito e a discriminação. O elogio óbvio que possam fazer ao meu trabalho é que ele não é resultado de uma mente doentia, pela qual se deva ter uma complacente admiração. Meu trabalho é, simplesmente, bom; na maioria das vezes, ótimo.
A arte, como sabemos, é capaz de transportar, de dentro para fora, diversas situações, sentimentos, sonhos, necessidades e anseios que a maioria das pessoas não consegue expressar verbalmente.
Através das várias manifestações artísticas, nós, portadores de transtornos mentais, conseguimos planejar e organizar nossa realidade. Muitos que se consideram "normais" não têm a coragem que temos de expor a nossa intimidade traduzida em pinturas, desenhos, esculturas, música, literatura, teatro e cinema.
Entendo que a única forma de quebrar o preconceito é mostrar que as pessoas com sofrimento psíquico ou transtorno mental são ainda produtivas e atuantes. A sociedade não pode tirar de nós o direito de conviver e sermos aceitos, o que contribui sensivelmente para a nossa melhora.
Arte e loucura caminham lado a lado. A arte é parte importante de qualquer tratamento multidisciplinar (que usa diversas expressões de arte-terapia aliada à medicação, descartando a internação); é ela que cuida para que não sejamos excluídos da sociedade por nossas limitações.
Através da arte, reconstruímos nossa identidade sem sermos estigmatizados. Dentro da arte, queremos trazer à tona o que temos de melhor: mostrar a nós mesmos nossas potencialidades. Em resumo: a arte nos permite interagir e conviver com a sociedade.
Na Idade Média, o louco era banido do convívio social, assim como o leproso. Em muitos lugares, a idade das trevas ainda faz suas vítimas, aprisionando-as em verdadeiras fábricas de loucos.
Este tipo de mentalidade precisa mudar, com urgência.
Não somos a lepra da sociedade, o cancro que precisa ser extirpado. Ao contrário: tudo que amamos e buscamos é o poder de viver em paz, de sentir o calor humano de um toque gentil (a compaixão libera o fluxo de nossas humanidades); o bem que somos capazes de sentir por baixo das esfinges que vestimos.
Basta de "camisa-de-força"!
Basta de sanatórios e isolamento!
Como disse Noale Toja*, é preciso desconstruir o antigo processo de linguagem, não só da mídia, mas de todos os segmentos sociais, em relação às manifestações artísticas que envolvam portadores de doenças mentais. A reforma antimanicomial propõe exatamente essa mudança de mentalidade e visão.
A discriminação e o preconceito são modelos táticos de medo, de muralhas, de campos de força, que engessam o nosso processo de criatividade, seja no mundo, na família ou na sociedade.
O que eu apurei em anos de tratamento medicamentoso e terapia, lutando com a balança descontrolada do transtorno bipolar, foi a seda que isola a sensibilidade da vulnerabilidade, distintas uma da outra. Talvez, dimensionalmente, distantes.
Nós é que insistimos no que é permeável.
Sensibilidade não é defeito!
Portanto, deixem-nos com o que sentimos de "normal" ou de "louco" em nós.
Cada um dói de si!
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• Noale Toja é uma das responsáveis pela direção da TV Pinel, de São Paulo, que completa 10 anos de uma iniciativa bem sucedida.
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Paraty (RJ), 14 de maio de 2008
Email enviado à direção da TV Pinel, parabenizando seus profissionais pelos 10 anos de atividade e por sua indiscutível atuação no Movimento Nacional de Luta Antimanicomial, que, neste 18 de maio, completa 30 anos.
Silvia Mendonça
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T990984