Texto

O TABEFE

ALOISIO GUIMARÃES
MACEIÓ/AL, 04/07/2009


O meu velho pai, Aloisio “Gordinho”, na criação dos seus filhos, foi “mais grosso do que papel de enrolar pregos”! Somente isso já o bastante para imaginar o quanto sofríamos na mão do “velho”! Mesmo assim, lhe somos agradecidos à educação que ele nos impôs, moldando nosso caráter no maior espírito de justiça, lealdade e honestidade possíveis.

Para sustentar a prole exagerada, porque, antigamente, pobre não tinha outra diversão a não ser “fazer menino”, o meu pai, além de Funcionário da Rede Ferroviária Federal, onde era um rádio-telegrafista de mão-cheia, foi obrigado o “botar um bar”, que foi administrado por mim e meus irmãos, sob a forma de revezamento. Todo mundo que morava na cidade conhecia muito bem o “SENADINHO” (nome do bar), vizinho ao Aero Clube e que era freqüentado somente pela alta sociedade palmeirense. Atender a bebuns e a pinguços, nem pensar! Era lei do velho meu pai: NADA DE VENDER BEBIDA A QUEM NÃO PREENCHESSE CERTOS REQUISTOS MORAIS!

Acontece que, naquela época (anos 70), um grupo de rapazes da alta sociedade local era apelidado de “A ESQUADRILHA DA FUMAÇA”. Esta denominação lhes foi atribuída porque era voz corrente nos quatro cantos da cidade que eles gostavam de fumar uma maconhazinha! Vou omitir os seus nomes, até porque alguns deles já faleceram e os que continuam vivos são figuras hoje respeitadas. Mas quem viveu nessa época em Palmeira dos Índios sabe muito bem de quem estou falando...

Certo dia, ainda inocente das “coisas mundanas”, eu estava tomando conta do bar, quando chegou um dos “pilotos” da famosa esquadrilha. Sabedor que era das determinações do “velho” e da severidade dos seus castigos, comecei a implorar a Deus para que o sujeito “avionasse” e fosse embora, antes que meu pai chegasse. O cara ficou por ali, como quem quer e não quer e, em determinado momento, virou-se para mim e perguntou:

- Menino, você conhece Zé Pelintra?

Imediatamente, respondi que não. Então, ele afirmou exatamente assim:

- Zé Pelintra é eu!

Dito isto, voltou a perguntar:

- Você conhece Seu Cuca?

Ora, por associação (eu era um garoto inteligente), inocentemente, respondi na bucha:

- O Seu Cuca é eu!

Nesse momento o meu pai já estava se aproximando... Tão logo ele chegou, o safado comentou:

- Aloisio, o seu filho está muito sabidinho... Ele disse que “Seu Cuca é eu”!

A entonação que ele usou na frase deu a entender que eu tinha lhe dito que o “fiofó” do meu velho o queria...

O meu pai, como se diz na gíria, “juntou a fome com a vontade de comer”: levei uma bofetada no “pé do ouvido” que ainda hoje, quando me lembro, dói! Somente algum tempo depois foi que eu entendi o “espírito” da frase: O SEU CUCA É EU. É por isso que hoje, parodiando uma velha canção, digo-lhes que:

- SE EU FOSSE MEU PAI, EU BATIA EM MIM!
ALOISIO GUIMARÃES
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681583

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Comentários
04/07/2009 23h42 - Ceiça Lima
Maravilha Aloisio, você é hilário. Adoro esse seu jeito de escrever, além de me dar uma imensa alegria você faz-me lembrar das coisas de criança, numa intensidade que parece até que estou vendo as cenas passarem em minha frente como um filme. Parabéns. Tenha um belo domingo. Ceiça Lima.
04/07/2009 15h21 - Nicolás Alberto
Lembranças que dóem.... rs rs

Sobre o autor
ALOISIO GUIMARÃES
Maceió/AL - Brasil, 54 anos
379 textos (40548 leituras)
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