Apenas pensamento
Era incerto o que lhe ocorria, pensamentos desses semelhantes a intuição suspiros suaves do mundo formando mensagens, cadeias quase incompreensíveis de significados. Ouvia atentamente sem entender, pois o que nos é, não o será em breve e mesmo na maciez de simplicidades leves, o espanto lateja para os que anseiam ver.
Era um canto, talvez melodia inédita quase inaudível, mas ela ouvia e sabia estar diante do imprevisível, contornava o mundo grave com doçuras inexplicáveis, com cuidados descabidos e lhe doía não saber fazê-lo de outra forma. Pois o que sentia era maior que muitas verdades, compreender isso causava-lhe desconforto. Ansiava habitar o tempo anterior a ancestralidade dos sentimentos, passar por cima de todos os movimentos antecipar o fim do que ainda não nasceu para ver de forma concreta a realização dos fundamentos.
Talvez fosse pressa, mas nem isso não era, nada era nem poderia ser, apenas um sussurro uma ponta feroz de qualquer coisa que se anseia conhecer, mas nos é inacessível e sendo apenas isso não se apresenta nem se esconde permite apenas uma antecipação do que jamais se realiza.
Talvez fosse uma subjetiva verdade dessas que nos embalam e permitem a unidade, idéias plenas sobre o mundo, conforto macio de poder se perceber como qualquer coisa que existe, e que sendo pode movimentar-se pelo mundo material, dizer, sentir e talvez amar...mas qualquer coisa que seja de fato e unidade esconde ainda assim uma espécie de mistério, sempre haverá em tudo que é, a manifestação do que não se explica, daquilo que jamais será dito e que infernalmente passeia pelos sonhos de todos os que a buscam.
Talvez não quisesse mais pensar sobre o que no pensamento não se fixa, essas sensações feéricas de devaneios insubmissos, os suaves toques do imprevisível, do inaudível, do que se quer, o impossível.
Dalvina
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1903105
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