Texto

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Eu aguardava ansiosamente pela chuva prestes a desabar do nosso céu. Estava quente e me lembrava de tantas coisas, analisava cuidadosamente o que refletia.
  É incrível notar como por detrás do Sol a chuva vem e como por detrás da chuva o Sol não deixa de brilhar. Eu sentia falta de tantas miudezas, tudo mudou. Era para ser escrito de outra maneira, começou daquele jeito e terminaria assim. Fui naquela festa, tudo girava como lembranças a se recordar. Aquele garoto, porque voltou assim? Trouxe consigo tantas e tantas lembranças, e somente lembranças, porque tudo passou e aquele erro foi meu.
Olhava as fotos de dentro da caixa dos inúmeros segredos do meu diário, chorava ao ver quem contemplei durante anos. Ah! Se ele soubesse quanto o amei, quanto o quis bem juntinho a mim, quanto eu desejei aquele corpo e aquele beijo, da boca que sorria amorosamente e misteriosamente. Ah! Se ele soubesse como os olhos dele me fizeram sonhar, que saudades da minha eterna felicidade que acabara recentemente quando tudo isso desapareceu. Ainda assim tinha minhas boas lembranças de tudo que eu quis viver e não vivi.
Sentia uma vontade imensa de sair com os amigos, curtir cada segundo das minhas festas intermináveis de antes, beijar a boca de quem quisesse, beber a bebida que eu tanto gostava, dançar e sorrir nos calores das minhas antigas amizades. Queria perder um pouco meu chão. Flutuar por aí, me sentir leve, sorrir por apenas sorrir, correr na chuva, rir de qualquer tombo que me esperasse nos deslizes dos meus dias, contemplar a beleza de um Sol nascendo e sorrir a noite com a beleza de um céu todo estrelado.
Minha vida nunca teve graça se não tivesse um motivo para viver. Eu até tinha, há algum tempo atrás, mas agora esse motivo se refugiou nas pedras do meu peito. A morte para mim nunca foi a solução para os problemas, mas aos poucos a frieza e solidão da morte me embriagava um pouquinho mais, quase aceitando sua eterna oferta. Dei conselhos para um, para outro, mas para mim aquilo que eu dizia não fazia diferença alguma.
Eu sempre me questionei tanto. E realmente, estava na beira de um abismo de puro espinho, prestes a me jogar para sempre de corpo e alma. E quem disse que alma não é doente?, a minha já não tinha cura. Eu perdia aos poucos a esperança de tudo. Abandonava a mim e aos outros. As doenças da carne me corroíam por dentro e a minha alma que quase já nem existia. Quem me conhece sabe o mínimo que me é necessário para viver, e o que tinha o pouquinho que ainda existia, se “apagou” aqui dentro. Eu sentia que nada mais restava para mim a não ser morrer. Mas quem me garante que a morte era a minha solução?
Não. Eu conseguia aos poucos de volta a minha sobrevivência, e encontrei onde eu já queria desde muito antes ter achado. Encontrei lá, naqueles belos olhos castanhos tão alegres quanto eu precisava. Aos poucos tudo foi voltando a ter sentido, mas talvez logo acabasse, acabasse comigo. É, são nove horas de viagem daqui até você, pode ser apenas mais um dos meus desafios.
Sim, eu chorei ao ver aquelas fotos e me lembrar do que eu sei que ainda vou viver, e espero mesmo ser ao lado teu. “O fulano é... Ele é a chuva que vem me refrescar, a noite que me acolhe para descansar, o Sol que me esquenta e me estimula a continuar. É o beijo de uma outra boca que há tempos eu desejo, é o cheiro do perfume que completa o que eu desejo, é o abraço forte que eu sonho junto a mim, é talvez o maior desafio que abre aos poucos as portas para eu renascer. Ele é talvez o que espero desde quando nasci, ele pode ser para sempre minha felicidade, ele pode ser a razão do meu viver.”. Alguém sabe onde encontrá-lo?
Quem nunca sonhou com o príncipe encantado? Ah! Um dia eu te encontro. Eu chorava pelas lembranças do nosso futuro. Eu sei quem vai me fazer feliz e sei quem eu quero para sempre fazer feliz. Será que estou apaixonada? Não, não. Meu peito ainda está escuro demais para acolher uma outra paixão. Talvez ele estivesse aqui durante o tempo todo junto de mim na mesma escuridão. Envio-lhe meu coração.
A morte não é a solução, mas a vida nem sempre vai te trazer a tua vida de volta. Quem me conhece sabe o que preciso para viver. E quem garante que é isso.
Quanta beleza! É, a gente escolhe para que caminho queira levar a vida, e eu quero a minha junto da tua. Quero esquecer para sempre o passado que há pouco eu deixei, quero esquecer estes quatro anos perdidos na escuridão. Você não vem? Vou subir na sua nave para que me leve às estrelas...
Anelise Lena
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910350

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Comentários
08/11/2009 16h44 - Hugo Fazzi Verne
Humm, é interessante a maneira como vc consegue transmitir o que sente ao papel (ou tela do computador, que é bem menos romântico x/). Mas... Sabe... É preciso tomar muito cuidado com esse tema, pois o papel não gosta quando vc não é sincera com ele, e se vc não for sincera consigo mesma vc não consegue ser com ele. Tem certeza de que é esse o amor da sua vida? Tem certeza de que não é uma imagem projetada sobre um fundo real que responda a todos os seus anseios e esperanças nos quesitos amor e romantismo? É um marco cultural inplícito na nossa geração que o amor e o romance estejam intimamente ligados à "alma gêmea". Como se existisse uma só pessoa no mundo que servisse pra você, e é justo isso. Como vc ficaria se essa pessoa tivesse nascido na Índia e morrido de tuberculose aos 10 anos? Deixei de acreditar em almas gêmeas quando comecei a ler Vinícius. Não é preciso amar alguém para sempre para o amor ser verdadeiro. "Que seja eterno enquanto dure." Existe algo mais lindo e sincero que isso?
07/11/2009 23h54 - Hugo Fazzi Verne
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Sobre a autora
Anelise Lena
Maringá/PR - Brasil, 19 anos
17 textos (308 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 05:49)

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