Texto

Zumbi

Eu deveria estar dormindo, terei muito que fazer, meu amanha já está todo programado, como todos os meus dias, todos iguais, mas o sono não vem.
Olho para o relógio são 03h15min.
Tomo o último gole da quarta xícara de chá, junto com mais um punhado de comprimidos, e assim continua a minha espera. O tempo me arrasta sem deixar marcas.
Estou sentado na cama, gotas de suor escorrem em meu rosto, um velho ventilador gira sem grande resultado, posso ouvir o vento lá fora, me aproximo da janela, a vidraça está emperrada.
O vento vem surgindo, cantando alto, mexendo com tudo a sua volta, meu ventilador com sua única velocidade, não me satisfaz. Tento mais uma vez abrir a janela, mas mais uma vez não consigo.
Olho para o relógio são 03h15min.
Fico observando todo o movimento que o vento fez surgir. Ele arranca algumas folhas de uma árvore, sai viajar com elas, girando no ar dançando a sua melodia.
Baile de ilusões.
O vento acabou, e as folhas agora despedaçadas caem ao chão, e enquanto ainda procuram seus pedaços, podem ouvir o vento voltar a cantar carregando outras folhas.
E eu aqui com um ventilador que não ventila.
Saio de perto da janela, caminho pelo quarto, não sei para onde ir, não sei o que fazer.
Paro.
Não chego a lugar nenhum e nada vem até mim.
Chuto uma cadeira que está no meu caminho. Chutei forte.
 E ela voou para o meu reflexo no espelho. Que estrago eu fiz, e ainda machuquei o pé.
Tudo porque você não vem. Venha sono, venha me satisfazer, antes que lembranças e pensamentos surjam a me perturbar.
Olho para o relógio são 03h15min.
Ainda tenho tempo, posso esperar.
Tenho um quarto grande, mas poucas coisas nele. Enormes espaços preenchidos pelo vazio.
Vou deitar na cama. Fico olhando o ventilador girando, dando voltas sem sair do lugar. Às vezes eu acho que somos todos engrenagens que movemos o mundo, mas se não somos como querem, simplesmente nos trocam e o mundo continua a girar do mesmo jeito.
Uma pequena claridade começa a avançar sobre o quarto.
Ouço carros, buzinas, vozes.
Vou para a janela de novo, nem tento mais abri-la.
Não vejo nada.
Está quente, muito quente, ao meu lado esta porcaria de ventilador que fica dando voltas sem fazer um vento decente, essa janela que não abre, e lá fora o vento corre solto.
Olho para o relógio são 03h15min.
Logo, logo vou dormir.
As vozes aumentam, estão conversando, ouço risadas, estão felizes. Agora posso velos, um lindo casal passeia de mãos dadas, um carro percorre as ruas rumo ao seu destino, um homem corre na praça.
O sol vai aumentando sua intensidade, o vento está cada vez mais forte. O ventilador ainda parece que vai embalar, mas continua tudo igual, nem sinto mais o seu vento.
Olho para relógio são 03h15min.
Tento mais uma vez abrir a janela, só consigo me machucar.
Estou com o rosto e as mãos colados no vidro, o vento balança as árvores. O ventilador parece que quer desistir. O sono ainda não veio.
O sol invade por completo o quarto. Posso ver muitas pessoas na rua, começando mais um dia, mais uma chance. Uma lágrima escorre em meu rosto enquanto deslizo até o chão.
O relógio desperta. São 07:00 horas.
Rodrigo Cassarotti
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910402
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Comentários
25/11/2009 20h48 - Simone Marck
Oi Ro!!!!! Este eu tive o privilégio de ser a primeira a ler e sem dúvidas é mto bom. Bjão
16/11/2009 15h41 - Sil Castilho
Oie... Adorei o conto... Prende a atenção e nos leva a viajar contigo pela madrugada e a agonia desses momentos insones... Espero mais textos, viu!? rsrs Beijinhuxxxxx*-*
07/11/2009 15h18 - Maith
Parece que você sonhou que não tinha sono e acordou com o despertador. Que coisa! Você foi muito original e criativo. Parabens! Bom fim de semana ( sem insonias nem pesadelos rsrs)

Sobre o autor
Rodrigo Cassarotti
Novo Machado/RS - Brasil, 29 anos
4 textos (144 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 10:28)

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