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Texto

| Quando o inevitável acontece Ele está sentado em sua poltrona de couro preferida, usava meias e os pés estavam sobre a cadeira, pernas dobradas e os braços em torno dos joelhos. A iluminação era indireta, em pequenos espaços abertos nas paredes, exibindo objetos de arte. Seu coração estava cingido por correntes e ele não sabia a razão. O estômago e as costas doíam e a mente fervilhava em pensamentos que ele não conseguia concatenar. Furtivamente surgiam alguns que sugeriam emoção. Se eu pudesse chorar... Se minha mãe estivesse aqui... mas logo eram substituídos por outros: se fosse possível mudar aquele resultado da Bolsa... Se Hércules vencesse a corrida... ou um turbilhão de pensamentos muitas vezes sem nexo: alguém me chamou? Ouvi pisadas lá em cima... Ele não notou que o dia clareou e a arrumadeira tinha chegado. Custou a encontrar a pasta de executivo, calçou os sapatos e saiu. Deixou o carro no estacionamento e andava sem rumo e cabisbaixo pela faixa de pedestre. Sentia-se tonto e percebeu que ia desmaiar. Quase estava subindo o passeio quando um motorista arrancou e o carona levou sua pasta, ao mesmo tempo em que ele caía apoiado nos braços de um mendigo. Final de tarde. Dois homens olhavam para ele e uma mulher lhe entregou uma caneca esmaltada com um café ralo e amargo. A primeira frase que ele falou, com a voz quase inaudível e embolada, foi: - Acha que vou tomar esta porcaria? Tentou levantar-se e saiu cambaleando pelas ruas, sem saber bem para aonde ir. Sem a pasta, sem dinheiro, sem celular sentia-se completamente desprovido de tudo. Ele não existia, pensou. Um lapso de memória o fez lembrar da mansão onde residia. Já era noite, ele não conseguia ler as placas indicativas das ruas. Assim a noite ia passando, o alvorecer chegou e o homem conseguiu chegar em casa. Como abrir a porta? A faxineira ainda não chegou, pensou. Esmurrou a porta, suando, ansioso e desnorteado. Sentiu que alguém lhe puxava a calça. Voltou-se e uma menina em andrajos lhe disse: - Ei, você quer ser meu pai? O homem enfureceu-se. - Não tenho filhos, acha que quero ser pai de uma menina de rua? E empurrou a menina que perdeu o equilíbrio e caiu perto da sarjeta. Continuava a esmurrar a porta, quando a criança levantando-se e, com os olhos rasos de lágrimas, disse: - Por que o senhor não faz uma chave? Conheço um lugar que faz, não é longe... Isso! Por que não pensei nisto antes? Pensou o prepotente. - E onde fica este lugar, menina insuportável? A menina segurou sua mão, que ele soltou com repulsa e a seguiu. Tudo certo, o chaveiro resolveu o problema, mas cobrou. - Mais tarde passe aqui, fui roubado, estou sem dinheiro e pare de me amolar! Entrou, tirou toda a roupa, tomou uma ducha e dormiu. Sonhou com monstros e guerras. Acordou de mau-humor. Ao abrir a porta, lá estava a criança coberta com jornais, que acordou, esfregou os olhos e disse: - O senhor quer ser meu pai? Um estridente e ríspido “vá embora” foi a resposta. Teve um dia de “cão”. Parte I - continua |
| Yara (Cilyn) Lima Oliveira |
| Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009 Código do texto: T1910608 |
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Yara (Cilyn) Lima Oliveira
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