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Texto
| HISTÓRIAS PRÁ BOI DORMIR II - NECO E VICENTINO - Vicentinooooooooooo... Ô Vicentino! Nenaaaá, você sabe onde se enfiou esse fiapo de gente?! - Sei não, seu Salomão. Acho quí devi dí ta lá prás banda do córgo... saíu cás vara dí pescá... Todos os dias eram assim. Meu avô perguntando pelo Vicentino sem que ninguém soubesse o seu paradeiro. As galinhas, as ovelhas, os porcos todos por alimentar e o sujeitinho saia de fino e arrumava um canto sossegado pra fumar seu cigarrinho de palha e depois tirar uma pestana. Esse maravilhosos espécime do matuto esperto, ladino até não poder mais, morava na fazenda desde que lhe nasceu o primeiro dente. Fazia parte da família de agregados. Vicentino foi criado por Nena, a cozinheira. Tornou-se rapaz e foi ficando, dava uma ajudazinha aqui outra ali, mas o que gostava mesmo era de dormir. Era um sujeito magricela, com olhos enormes e um bigodinho fino. Era preguiçoso para o trabalho, mas para comer e inventar desculpas, era diplomado. Aliás, ele nem tinha paladar, porque comia qualquer coisa que fosse agradável aos olhos. Tinha uma coração enorme e gostava muito de animais. Uma vez apareceu com um filhote de urubu dentro do chapéu dizendo que iria ficar com ele. Nena e minha avó quase surtaram. -Vicentino!!! Suma com esse bicho nojento! - Dona Pilar, eli é tão bunitinho. Tadin, caiu du nínhu í pra mórdi eli num morrê dí fome, eu truxí eli. Vô dá um banhu nêli, vo dá dí cume í arrumá um caxótinho pra eli drumi lá nu quartinhu, mais eu. -Você é quem sabe. Mas esse bicho come carniça, e eu não o quero aqui dentro de casa. - Comi não, Dona Pilar. Vo insiná eli a cume só coisa limpa, a senhora vai vê. Posso ficá quêli?! - Sim, pode ficar, mas não o quero aqui dentro. O filhote de urubu recebeu banho com sabão de coco, foi enxugado com toalha e devidamente acomodado num “caxótinho” para tomar sol, enquanto Vicentino preparava uma “papa” de carne crua amassada com fubá bem fininho para alimentá-lo. O filhote recebeu o nome de Neco. Cresceu forte e saudável entre as galinhas, galos, patos e perus que circulavam no galinheiro, mas que não tinham a liberdade de voar. Neco acabou por conquistar a todos. De meu avô até Nena que antes sentia náuseas quando via o filhote sendo alimentado. Vicentino ganhou um companheiro inseparável para suas horas de vadiagem pelo pasto ou para horas de soneca escondido entre as sacas de café. Ele se deitava e o Neco ia chegando com seu andar meio “bamboleante” e se acomodava esperando por um cafuné – era comum vê-los dormindo lado a lado enquanto o sol estava a pino! Quando chegava a hora do almoço, Neco acordava de seus devaneios, abria as asas, dava uma boa espichada no pescoço parecendo “farejar” o cheiro da carne fresca sendo fatiada na pia da cozinha. Ele parecia sorrir quando saia aos pulos até tomar impulso e levantar vôo indo direto pousar no jirau junto da janela, onde Nena [antigamente] colocava as panelas de ferro depois de areadas. Ficava ali, emitindo seus sons roucos para chamar a atenção e ganhar uns pedaços de carne fresca. Ficava por horas olhando pela janela e depois de receber seu manjar fresco, ele aproveitava para alisar as penas ou simplesmente enfiava a cabeça embaixo de uma das asas e dormia. Já o Vicentino com aquela cara de “fuínha”, esgueirava pela cozinha ou despensa furtando pedaços gigantescos de bolo de fubá, marmelada, queijo, biscoitos de polvilho, lingüiças defumadas e tudo que pudesse servir de alimento e quando alguém reclamava, ele sabiamente dizia que era o Neco que havia assaltado a despensa. Parecia ter uma fome interminável e um baú cheio de desculpas esfarrapadas. Uma ocasião meu avô recebeu a visita de um amigo médico, Dr. Messias – bonachão e muito falante que depois de uma longa conversa no gabinete do meu avô, prontificou-se a consultar todos os empregados. Quando soube da novidade, Vicentino, que estava “quentando as mão” perto do fogão de lenha, foi saindo de mansinho com medo das supostas injeções e o Neco que não era bobo nem nada, foi junto. Ao sentir a falta dele, meu avô pediu para Nena chamar o fujão. Foi inútil. Ele só voltou na tarde do dia seguinte após certificar que o “Doto” havia partido. E voltou com muita dor na barriga, depois de comer tanto milho cozido e assado no braseiro. Choramingando pediu um chá, e segundo o diagnóstico de Nena –“Eli ta impaxado! Tem que tomá purgante!” – Mas o Vicentino era totalmente contra qualquer coisa chamada remédio, recusou o purgante. Meu avô então, pegou o famoso vidro de “purgante”, ficou olhando e dirigiu-se á despensa. Quando voltou, nos avisou que não deveríamos comer o doce de leite que estava na gamela. Era um presente para o Vicentino. Ninguém entendeu, mas obedecemos enquanto meu avô saia dando gargalhadas. No outro dia, Nena preparava o café e sentiu falta de alguns petiscos de sua despensa. Havia sumido duas lingüiças, metade de um queijo e o doce de leite com gamela e tudo. Perguntou a ele se havia pego, ele negou dizendo: -“Deve dí tê sido o Neco. Dí noite ele tava sem sono e cum muita fome. Acho quí cumeu tudo sozinhu. Êita bicho guloso, sô!” Meu avô deu uma sonora gargalhada e disse: -“Humm... Sei!” Não demorou muito e o Vicentino foi ficando meio amarelo e suando, até que não agüentando mais saiu correndo se trancando no banheiro. Ficou horas neste vai e vem enquanto meu avô dava gargalhadas e conversava com o Neco, que tranquilamente comia o seu dejejum de carne fresca e olhava virando a cabeça para o lado parecendo rir da situação. E como dizia meu avô: “Tem gente que tem o olho maior que o estomago.” Mas no final tudo se resolveu da melhor maneira possível e Neco e Vicentino ainda aprontaram muitas lá na fazenda... |
| Luciah López |
| Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008 Código do texto: T991189 |
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Sobre a autora

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Luciah López
Curitiba/PR - Brasil, Escritora Amadora
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