Toinha e Toinho
Essa história aconteceu realmente comigo, quando eu trabalhava em Santa Catarina e no Paraná vendendo coleções de livros em universidades e indústrias de lá, a mais de dez anos atrás. Eu e meu tio alugamos uma casinha "maneira" em Itajaí, e fomos morar lá eu, meu colega de trabalho sua mulher, e seus dois filhinhos pequenos. Eu e esse colega passavamos só o final de semana lá, a bem dizer. O casal era muito legal, de uma família simples e muito gente boa, lá da cidade mesmo. Trabalhávamos durante a semana viajando muito, e curtíamos o final de semana com churrasco, cerveja, passeios em Balneário Camboriu e Blumenau. A mulher desse meu colega, uma vez me disse que morria de saudades de um de seus nove irmãos, que morava em São Paulo a mais de dez anos, e nunca mais havia mandado notícias. Volta e meia ela falava do “Toinho”. Era "Toinho" pra lá, "Toinho" pra cá, Às vezes até chorava quando imaginava que o cara poderia ter morrido, vítima de alguma bala perdida, ou coisa parecida. A gente sempre reconfortava a moça, mesmo sabendo que uma vez em São Paulo, tudo seria possível, não só a vida dele ter melhorado, mas como também ter acontecido algum “acidente de percurso” de um projétil mal intencionado.
Um dia, porém, minha tia veio de São Paulo com uma notícia que encheu de esperanças o coraçãozinho caipira de minha amiga. Ela nos convidou a ir para São Paulo festejar o décimo oitavo aniversário de minha “prima-princesa”, sua filha mais velha. Todos da casa encheram-se de expectativas: eu teria a oportunidade de rever a galera, algumas gurias de lá, meu colega conheceria finalmente a “cidadona” que ele sempre sonhara, e a mulher dele poderia procurar seu irmão “Toinho”. Digo procurar, porque foi o que disse a ela a semana inteira, pois a moça não parou de falar nesse assunto um minuto. Acho que a´te sonhava com o reencontro. Se ela fosse sonâmbula, coitado do marido dela...
Cheguei em São Paulo antes deles, num sábado à noite, e fui direto pra festa. E que festa!!! Lotado de gente, muita bagunça, cerveja, mas infelizmente nenhuma guria na minha cola. Lá pelas tantas, alta madrugada, chegou finalmente o casal de amigos do Sul, a festa quase acabando, e a única coisa que a moça falou foi: “Toinho, Toinho, Toinho....”. Parecia um mantra, um despertador desregulado que a tadinha da irmã saudosa repetia regularmente. Chegamos na casa de minha tia, e na hora de eles irem dormir, ela me pede um favor “imeeeeeeenso”. Conseguir o telefone da rádio da cidade pra anunciar o irmão dela. Segurei o riso quando imaginei em todas as esquinas de Sampa um auto falante a tocar “ Toinhoooooooo, chegueeeeeeeeiiiii!!!!!”. Expliquei a ela que aqui em Sampa não tinha dessas coisas mas que, com muita sorte, em uma semana a gente conseguiria entrar em contato com alguém da família dela, e localizar o irmão.
Acordamos no domingo, eu com uma ressaca violenta, morto de sono, seis e meia da manhã, e nos preparamos para levar o casal para conhecer a “matriz” da livraria, na USP. Estávamos no carro (Towner é carro? Até hoje imagino um pacotão de pão pulmann com rodas...), minhas tias na frente, eu e a moça atrás (já que o marido dela não acordou de jeito nenhum por causa do porre que tomou na festa...), e adivinha qual foi o assunto da moça o tempo inteiro??? Toma-lhe Toinho!!! Aí eu encrespei, e revelei pra galera do carro que o seu verdadeiro nome era Antonia (naquela época não tinha o status atual de uma “Antonia” da Globo, mesmo eu já gostando do nome), e ela ficou possessa. Pelo menos foi o único meio de ela parar de me amolar com a história do irmão. Mas volta e meia ela olhava para fora do carro, como que a procurar por ele. Eu pensava: “ Meu Deus, será que ela não descansa nunca???”.
Ao chegar no portão da USP, umas sete e meia da manhã, num dia friiiiiio pra caramba, olhei para fora do carro, na direção da portaria, e olhei para dentro de novo, para a Antonia. Olhei de novo para fora, para dentro, e falei: “ Toinha, óia o Toinho lá fora.” . Ela me mandou um belo palavrão, puta da vida, e eu repeti, “Toinha, oía lá o cabra!!!”. Ela se recusou a olhar e eu chamei o cara:”Toinho, ô Toinho, “chegaí” homem!!!”. O segurança veio em minha direção, muito contrariado, e perguntou: “Quem te falou que eu me chamo Toinho???” “Tua irmã, a Toinha! Olha ela aqui!!!”. Puxei a Antonia pelo ombro e ela quase pulou pela janela ao reconhecer o irmão, o bendito Toinho que ela não via a mais de dez anos, trabalhando como segurança da USP, rendendo um colega que faltou em cima da hora, e voltando de férias um dia adiantado por causa disso.
No final da estória foi uma choradeira geral da mulherada, eu rindo que não me agüentava, principalmente por que eu não imagino até hoje como eu reconheci o cara e tive presença de espírito o suficiente pra chamá-lo na hora certa, e no momento exato em que estávamos saindo com o carro em direção à loja. Será que eu tive presença de espírito, ou tinha algum espírito "de presença" lá???
Até hoje, quando eu encontro alguém em que eu havia lembrado recentemente, ou desejo muito mesmo falar com alguém e esse alguém me liga eu lembro dessa estória. A mente tem poderes que a gente nem desconfia!!!
mauricio garcia
Publicado no Recanto das Letras em 18/07/2008
Código do texto: T1086653
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