Pombas!
Andar pelo centro de São Paulo sempre fora um prazer. Gostava de caminhar observando as pessoas, os prédios, imaginando histórias; embora se irritasse um pouco com a sujeira e fedor de mijo humano em alguns pontos – ás vezes não tão escondidos assim. Aquele dia caminhava a trabalho.
Entrou no prédio da prefeitura, local que alguns anos depois abrigaria uma idéia que lhe passou pela cabeça naquele dia. “Poderia ter um concerto da Sinfônica aqui!”. Passeou, olhou e até arriscou entrar no elevador na tentativa de descobrir como funcionam os outros andares, quais são as caras das pessoas que trabalham com e para a prefeita. Nada feito.
Saiu. Parou no farol para decidir se seguia pela Líbero Badaró, a fim de cruzar o Anhangabaú pela tradicional São João, ou se atravessava o viaduto para chegar de vez ao Teatro Municipal. Foi então que um rapaz, que estava parado do outro lado da rua, veio em sua direção. E encarou: “Oi, cheiro de buceta.”!
Ele continuou andando, subindo a rua, como se nada tivesse acontecido. Ela também continuou… parada. Agora, estarrecida. Atravessou a rua rapidamente e ficou olhando, sem reação, para o indivíduo caminhando despreocupadamente rua acima. Esqueceu do trabalho, esqueceu do cigarro, esqueceu do calor, esqueceu da saudade, apenas parou.
Respirou fundo, num misto de revolta e resignação. Nisso, um senhor do alto de seus 70 e alguns anos, parou na sua frente e fez um barulho que nunca havia ouvido na vida. Daí ficou ali, olhando pra ela, parado, morto. Morto depois do barulho. Poderia ter sido um barulho de “estou morrendo”, mas ele respirava bem – e alto.
Quase desesperada, achando que era folga dos anjos e eles haviam a escolhido como alvo de peripécias nada divinas, entrou no Othon Hotel.
Ah! Agora sim! Othon Hotel do centro, um lugar chique, com elevadores antiqüíssimos, hóspedes importantes, diárias caras, caviar no café-da-manhã, funcionários irritantemente educados… Como é que é? O senhor gerente não sabe onde ficam os elevadores? Seria porque está tão concentrado OLHANDO PROS MEUS PEITOS?!?!?
Andou o mais rápido que pode pra longe daquele cruzamento bizarro. Parou em frente ao Café Girondino, e fumou um cigarro. Chorou um pouco. Não muito. Depois de tudo isso, é capaz de parar um imbecil na sua frente, tirar a camisa e oferecer-lhe o dorso nu cheirando a desodorante barato; e suas absurdas segundas intenções, claro!
Respira…
Pra tirar a má impressão do dia, resolver comer num restaurante natural nos arredores da Paulista – chega de centro! Comida natural gostosa e um chazinho curam qualquer sentimento de angústia, vergonha e culpa.
Desce até o Emiliano. Está fotografando lobbys para uma pesquisa de locação. Porém, desvirtua-se totalmente quando percebe, debaixo daquele calor infernal, pombas se banhando na água da sarjeta da Oscar Freire, em frente ao tão exclusivo Hotel. Não resistiu! Tirou uma foto, acendeu um cigarro e riu sozinha. Minutos de euforia com a ironia da vida.
nani escosteguy
Publicado no Recanto das Letras em 18/07/2008
Código do texto: T1086803
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