Úngula Fatal
Josú foi comprar pão. Nada especial. Dia simples, momento simples: buscar um pão fresquinho, recém assado na padaria. Pegou um, dois, três moreninhos, Geni preferia-os assim, moreninhos e crocantes. “Basta.” Josú andou até o caixa sapiando as prateleiras, não compraria mais nada. Estava na fila, um nobre senhor na sua frente, a concretizar a negociação com a atendente, e atrás uma mulher, de belíssimo corpo, curvas nocauteantes que gelavam a espinha de qualquer observador apreciador da causa, calça justa, deveria ter saído da academia e passou na padaria só para refrescar-se com algum refresco qualquer. Josú foi pagar os pães e, num súbito, ali ocorreu a estranha situação. Sua unha. “Minha unha.”
A atendente perdera-se no mundo da unha de Josú, mais crescida que o normal, com um acabamento digno de nota. Ela não era manicura, nem aspirava tal situação para si mesma, mas a unha fê-la paralisar. A pele de Josú era morena de sol. Ele não era gordo, não era magro. De um aspecto saudável, músculos bem aparentes, as veias de seus braços salientavam, como num gesto de auto-afirmação, a confirmar a importância do fluxo que vinha de seu robusto antebraço para sua mão, e por conseguinte, para seus dedos, longos dedos. Habilidosos dedos. Dir-se-ia que Josú tinha qualquer profissão que usasse os braços. Bem hidratado, seu couro mantinha uma rusticidade eufemizada, num aspecto de lençol-de-uma-noite-dormida, com pequenos vãos nos dobramentos de suas articulações. Adiante, sua palma, mais clara que sua cor natural, era fortemente marcada pelas sinuosas linhas, de um tom mais escuro que a palma. Habituado a suar nas mãos, acanhadas nascentes de água salgada deslizavam dali. Com pêlos medianos nas xuranhas, a mão de Josú era digna de uma obra Renascentista, jamais se vira tamanhos atributos plásticos em uma mão. Suas unhas eram suavemente quadradas nas pontas, que homogeneamente ajudavam, tímidas a compor a ferramenta mais significativa do Homem em toda a sua existência: a Mão. Com a curviliniedade adequada, mediana, suas unhas possuíam um começo branco, que mais lembrava o pôr-do-sol, na sutil degradê de cores das raízes às pontas, pintadas à aquarela. Certamente lixadas, as unhas compunham com maestria a expressão estética de sua mão. Com tantos dotes, contudo, um empecilho rompia a hegemonia da mão. A unha do polegar direito era demasiada grande perante as outras. E ela causava a quem a olhava um ímpeto magnético, distanciando o observador dos fatos terrenos, fechando-o em seu próprio mundo, atônito. Sua forma ovalada remetia a um antigo espelho, o que produzia, provavelmente, a imensa atração observador-Unha. O momentâneo ostracismo à que a pessoa era levada enquanto estivesse a admirar a forma, contornos e cores da unha envernizada, brilhante, reflexiva é comparado à duração da Idade Média, para quem o sofria. A Alma humana perdia-se na unha, e desorientada, perdia também o conceito espaço-temporal da situação, demorando, pois, a retornar a seu posto de origem: a Consciência.
Terminado o lapso: “Moça.” Pausa. “Moça?” Pausa. “Moça, quanto fica?” “Ah, perdão, eu tava distraída, acontece às vezes.” Diz ela, ainda presa à unha pelo olhar. E continua “Só os pãezinhos? Dois reais, por gentileza.”
Josú mete a mão no bolso, afastando a unha do campo de visão da mulher, desmantelando, assim, a ligação entre os dois corpos.
Eis a vida. Na mesma noite, Josú entorpeceu o tradicional Teatro Pedro II, arrancando-lhe o ar da platéia. E a cada gesto seu ao tinhoso violão, ele e unha recebiam uma saraivada de palmas, marcando, por muitas vezes, o tempo dos choros de Nazareth ali embalados.
Igor Moreno
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1900176
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