Texto

MARCINHA


A primeira recordação que eu tenho do meu Jardim da Infância, além do fato de ter azucrinado o juízo da minha mãe para me matricular na escola, não é muito boa. Eu só me lembro da angustia de ver todas as crianças sendo entregue aos pais, e eu ser a única a ficar na sala com a professora. Não sei por quanto tempo eu esperei, mas me pareceram anos. Naquele dia experimentei pela primeira vez em minha vida a sensação de solidão e abandono, ao mesmo tempo em que descobrir como era bom ter minha mãe por perto. Poder olhar nos seus olhos e receber um abraço. Quando vi minha mãe chegar foi uma sensação indescritível. Nossa! Como foi bom sentir aquele abraço!
Mamãe resolveu me matricular na mesma escola em que meu irmão estudava, pois considerava uma boa escola. Porém era um pouco longe de nossa casa, para chegar lá tínhamos que pegar ônibus. E naquela época isso não era tão pratico como agora e acabava causando atrasos freqüentes. Foi então que minha mãe resolveu me matricular no colégio de freiras filiado a paróquia de Santo Antônio próxima de nossa casa. Foi então que aconteceu meu segundo primeiro dia na escola.
Da mesma forma que antes não guardo muitas lembranças, mas uma coisa ficou guardada na memória. O cheiro da hora da merenda, que me faz recordar a cena: Eu, meu guardanapo, meu lanche e minha merendeira sozinhos no banco do pátio. A menina que falava pelos cotovelos ficou muda, o silencio que eu sentia era tão profundo, que a imagem das outras crianças sumiu da minha memória. Só me lembro de um pátio vazio e silencioso... Eu, meu lanche e minha merendeira e mais ninguém. Também lembro vagamente de haver pensado que tinha cometido um erro ao insistir tanto em ir para a escola. Porque todos gostavam de ir a escola se era assim tão vazio?
O silencio só foi quebrado quando senti a presença da Ir Juliana minha primeira professora. Ela sentou ao meu lado, com seu hábito comprido e branco, suas bochechas rosadas e um sorriso amigo. Naquele dia ela lanchou comigo e me colocou no colo.
Eu acho que passei anos no colo dela, eu fiquei tanto tempo no jardim! Naquela época as crianças entravam para  a escola com 6 anos em média  e eu... Tinha três. Daí a dificuldade de fazer amizades e o motivo de passar anos no colo da Irmã. Quem é que ia brincar comigo? Além de ser a pirralha da turma, falava miando e ainda era a queridinha da Irmã. Eles deviam me achar um nojo!
Durante o que me pareceu quase uma vida, a Irmã Juliana foi minha única amiga naquela escola. Mas até que eu gostava! Ela conversava comigo e ouvia todas as minhas fantasias, me fazia às vontades e eu protagonizava quase todas as danças e peças infantis. Pobre Irmã Juliana! Ela mal sabia que estava criando uma monstrinha mimada com cara de anjo. Mas vamos deixar esse detalhe para mais tarde!
 Da forma como devia, as crianças do jardim iam para o CA e novas chegavam. E eu, por me acharem muito nova, continuava ali no colo da Irmã, fiz pós graduação e mestrado em Jardim da Infância. Só quando entraram crianças da minha idade no jardim, é que me lembro de ter conseguido amiguinhos.
Foi então que surgiu Márcia Antonia, minha primeira amiga e um dos grandes amores da minha vida. Aquela que abriu as portas para todas as outras.
Márcia era muito linda, tinha cabelos bem curtinhos, escuros e cacheados, olhos negros, pele morena, meio gordinha. Ela tinha uma voz encantadoramente animada, uma vontade de viver contagiante. Eu tenho a impressão de que ela andava sempre rápido! Nós brincávamos, sorriamos... Cantávamos Elis Regina no ônibus do seu João todos os dias quando voltávamos para casa. Seu  João quase ia a loucura, agente costumava guardar o lanche pra fazer piquenique no ônibus e sujávamos tudo pra desespero dele! Eu me lembro do sanduíche de doce de leite condensado que ela trazia. Pra mim era um manjar dos Deuses! Manjar que eu não comia em casa, pois só comia pêra e biscoito “goiabinha”. Minha mãe sofria pra me alimentar!
Nós éramos muito animadas, corríamos de um lado pro outro. Eu achava estranho às vezes a preocupação dos adultos. Sabe aquele tipo de preocupação velada? Que fica no ar, mas ninguém fala? Era coisa de instantes, nós nem dávamos bola! Agente queria era viver!
Em pouco tempo fiquei muito ligada a Márcia e ela a mim, na escola parecíamos siamesas. Márcia às vezes ficava febril e tinha que ser lavada pra casa, e nossa ligação era tanta que eu ficava com febre também. Eu notava a preocupação da minha mãe, mas ela nunca se opôs a nossa amizade que crescia cada dia mais. Certa vez nas férias ou em um feriado não me lembro bem, ela queimou um dedo (acho que com fogos). A ponta do dedo de Márcia ficou negra e seca. Eu nunca tinha visto tal coisa! Mas vocês pensam que ela chorava ou evitava as brincadeiras? Claro que não! Continuava a mesma de sempre... Alegre! Mais do que eu até. Foi num dia normal de brincadeiras  nas escola que a ponta do dedinho da Márcia caiu. Ela não chorou ou se assustou, pegamos o dedo examinamos com nossa ia a curiosidade infantil e simplesmente guardamos. Engraçado como ela fazia a vida ficar simples!
Nós nos sentíamos tão completas uma com a outra, acho que nunca mais me senti assim ao lado de outra pessoa. Algumas vezes o pai ia buscá-la na escola de carro, quando eu o via no portão meu coração doía e eu me sentia sendo roubada. Uma sensação de incrível solidão! Mas minha amiga praticamente todas às vezes ficava ao meu lado e voltava no ônibus do Seu João comigo. E quando isso acontecia, eu ficava tão feliz  que o Céu se abria como por encanto!
Mas o dia que mais marcou, foi em certa manhã durante as férias.  Eu estava em casa e de repente bateram à porta. Era Márcia Antonia e a tia Arlete sua mãe! Ela tinha feito a mãe ir até minha casa pra me convidar para passar o dia com ela, pois estava com saudades de mim. Jesus! Pensei eu: - Ela me ama mesmo!
Passamos o dia todo juntas na casa dela onde morava com a mãe e seus avós. Fui recebida com todo carinho que se dá a alguém que é benvindo e importante. Como sempre brincamos muito e fizemos desenhos, Márcia adorava desenhar.  Na hora do almoço olhei para a parede da sala e fiquei encantada. Seus avós mandaram emoldurar vários desenhos que ela fez e colocaram na parede, e quando se referiam a eles falavam com tanto carinho! Achei tão lindo, que desejei que isso também acontecesse com meus desenhos também. Aquele dia foi tão maravilhoso que eu jamais me esqueci.
Durante todo o tenho que me restou de férias, eu sonhei e ansiei com o dia em que eu retornaria escola para estar com minha grande amiga. Os dias pareciam durar séculos, todo dia eu ia dormir cedo pra ver se passava mais rápido. Fiz assim até que enfim chegou a véspera da volta as aulas. Ah! É um dia mágico excitante! Um dia com cheiro de livros novos, uniforme novinho dobrado sobre a cama. Dia de ficarem horas admirando a caixa de lápis de cor e arrumar a pasta para o grande dia.
Na manhã seguinte eu vesti sem demora meu uniforme, mamãe me penteou os cabelos impecavelmente e tomei o café da manhã quase forçada. Pois a ansiedade era tanta que eu não tinha fome.
Depois de tudo pronto fiquei na varanda da nossa casa esperando o ônibus escolar. Eu não consegui esperar sentada na sala como sempre, afinal eu iria reencontrar minha amiga e compartilhar com ela todas as novidades. Só em pensar meu sorriso ia de orelha a orelha!
Finalmente o ônibus chegou e o Sr João nem precisou buzinar, eu nem beijei mamãe como sempre fazia. Corri e logo entrei no ônibus, procurei por Márcia com olhos ansiosos e um sorriso nos lábios, mas infelizmente ela não estava lá. Perguntei ao Seu João e aos coleguinhas se sabiam noticias de Márcia e ninguém respondeu. Então eu deduzi que seu pai a tivesse levado de carro como às vezes fazia. Sentei no meu lugar e esperei chegarmos na escola, porque com certeza ela lá estaria.
Quando chegamos à escola fui logo uma das primeiras a descer do ônibus. Saí correndo ao encontro da minha querida amiga, procurei em todos os lugares que costumávamos brincar e nada. Perguntava por ela e ninguém me respondia, uns faziam até que não me ouviam. Depois de muito perguntar sem obter resposta, ouvi alguém dizer em voz baixa que minha amiga estaria internada e muito doente. Eu sabia que ela tinha febre às vezes, mas será que dessa vez a febre foi muito alta? Minha mãe sempre falava que febre alta era  coisa perigosa. Nesse momento o que era ansiedade virou desespero, agonia, eu nem conseguia pensar direito! Precisava saber notícias da minha amiga. Continuei a perguntar e no máximo o que eu conseguia era um olhar constrangido das pessoas. Foi então que alguém falou, não sei se diretamente para mim, o seguinte:
- Márcia Antonia morreu!
Eu não acreditei no que eu ouvi e saí correndo em direção à igreja, pois sempre no primeiro dia de aula havia uma missa. Tinha certeza que ela estaria lá, mas não estava. Eu me senti perdida e vazia, voltei para a escola e dei de cara com o Seu João no portão e perguntei:
 - É verdade que a Márcia Morreu?
                          Ele olhou para mim e com um tom repreensivo falou assim:
-Quem te falou uma besteira dessas? Que bobagem! Morreu nada!
Eu senti um alívio tão grande no peito que me acalmei e fiquei no pátio da escola esperando por todos                         voltarem da missa. Então como todos os anos, formamos em filas para entrarmos sermos conduzidos as salas de aula. Só que nesse ano foi diferente, nossa diretora a Ir Gertrudes pegou o microfone avisou que não haveria aula, e para rezarmos pela alma da coleguinha Márcia Antonia que havia falecido. Depois de ouvir aquelas palavras eu não fiz mais perguntas, voltei pra casa desolada e em silencio. Sentia uma dor fazia por dentro que eu não entendia. Eu nem sabia o que era morrer direito, nessa idade só se entende e vida.
  Quando cheguei em casa descobri que até minha mãe sabia que minha amiga havia morrido. Eu não entendi porque não me disseram, talvez quisessem me proteger ou talvez fosse difícil para eles olharem para a melhor amiga. Até eu mesma lá no fundo me senti mal por estar viva. Naquele dia fui tomar banho e fui pro meu quarto em silencio, e até hoje eu não sei por que foi que ela morreu. Ninguém me contou, acho que foi leucemia, mas não tenho certeza.
   Durante alguns meses, para preocupação da minha mãe, eu ás vezes saia do meu quarto com um ar de extrema felicidade, contando a todos que estava brincando com minha amiga Márcia Antonia. Jurava de pés juntos ser verdade dando todos os detalhes minuciosamente. Com o tempo, suas visitas imaginárias foram ficando mais escassas até que chegaram ao fim e eu voltei a sorrir. Hoje, Márcia é uma doce recordação que trago comigo. A recordação do meu primeiro amor... Minha primeira melhor amiga.



  Dedico esse conto a memória de Márcia Antonia, que abriu as portas do meu mundo para além da minha casa e deixou gravado em meu peito o significado da palavra “Amiga”.

Cinara
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1900591

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Cinara
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