Morte e Vida
A mulher acabara de sofrer outra perda terrível em sua vida, sabia, ou ao menos imaginava que aquilo que sonhara para si e para àqueles a quem amava estava desfeito. Mas um aborto depois de tantas tentativas foi o que se seguiu. Tomada por uma dor lancinante e envolta em lágrimas, ela foi até ao monte mais alto, decidida a dar cabo da vida e se afogar num mar, num mar além das ilusões. O casamento estava desfeito, as perspectivas antes sonhadas, murcharam. A depressão a inundara... Sofria na iminência da morte, flertando não mais com o desconhecido, mas com a sensação real do fim, certa de que a sua existência não teria mais significado. Ela não se lembrou do esposo que a amava e amargava seus dias sofrendo por sua dor, ela não se lembrava dos amigos que até então, não tiveram mais forças para alcançá-la, pois ela havia se perdido em si mesma, ou talvez, de si mesma. Estava sozinha, estava no vazio, no vácuo de qualquer intenção. Quando deu por si, perdida ela encarou o abismo de dor.
Quando sentiu que precisava se jogar, afinal, era o próximo passo a dar, uma mão segurou o seu braço, impedindo que pulasse. Mas quem? Ela olhou e não viu ninguém, então decidida, ela fez menção que iria se lançar as águas, ao abismo que ceifaria a sua vida, mas novamente a mão a segurou. Certa de estar alucinando, ela olhou ao redor e começou a chorar, sentou-se na beira do abismo e pôs-se a chorar e a sofrer por sua dor. Pensou ter sido um anjo a tirá-la daquela amargura que a tomara de assalto.
Com os olhos abertos, ela viu que estava flertando com a MORTE, e que havia se esquecido do amor que sentia pela VIDA. Foi então que se lembrou, há momentos, que em solidão, precisamos ser afagados por ninguém menos que nós mesmos. E até mesmo Deus em sua sabedoria, nos constrange a acreditar que o Amor verdadeiro é algo que se revela na certeza plena pela VIDA, de que somos únicos, inteiros e, por isso mesmo, inigualáveis e indispensáveis a EXISTÊNCIA.
Então foi salva, com uma certeza de que a sua vida era preciosa, de que a sua existência, ainda que insignificante pelas circunstâncias, era única. Ela se ergueu e convicta de seu valor, seguiu para àquilo ao qual sempre ansiou. Não se lembraria dos dias em que foi tida como a abortiva, e por essa certeza, ela sabia, geraria seus filhos mais que sonhados!
Xande Ribeiro
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1900730
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