Texto

Verdadeira

-  Ontem a minha filha me bateu, é por isso que tô roxa. Ela é bem diferente de mim, a senhora sabe como é, dona, vim muito novinha lá do norte, e só tive a dona Alzira pra me ajudar; só que ela era dona de um bordel, e queria que eu trabalhasse pra ela lá nessas coisas que Deus não gosta. Sabe como é, é bão, mas quando a gente faz por dinheiro é pecado, não é coisa que a gente possa sair por aí esbanjando, o corpo da gente é um dom, um presente, e quando a gente desbunda Deus olha feio. Mas a minha filha não pensa assim, ela tem namorado, mas também tem outros, mas ela tem um menino, eu tenho um netinho, já contei pra senhora? E ele é muito inteligente, eita menino-homem da peste, gosta de ler várias revistas, e isso que só tem três anos! Vai comprar pão na padaria sozinho e é muito amigo do Papaco, o papagaio de casa, que não deixa nada barato; às vezes não gosto muito dele porque é muito fofoqueiro, a gente chega em casa e ele conta tudo o que se passou, pra onde fulano foi, o que a minha filha andou fazendo com os homem em casa, ela convida e vai deixando, e ele me conta “assim, assim e assim”, e “aconteceu isso e isso”, e também o meu marido, se ele andou bebendo, e apesar dele ser um homem bom ele não gosta muito que eu fique sabendo de tudo não, prefere ir pro bar e ficar lá quieto com os amigos dele, sabe homem como é! Mas contei que fugi do bordel? Pois é…Fui quando tinha dez ano…E foi aí que comecei a trabalhar com faxina. Sabe que eu já trabalhei na televisão? Trabalhei e conheci aquele ator famoso, o Cássio Mendes, lembra dele? Então, uma vez perguntei pra ele: “o senhor só tem essa calça?”, porque sempre via ele com uma calça só, marrom, e artista com tanto dinheiro não pode ser tão descuidado não! A Regina Lira também me pediu uns sapatos emprestados uma vez, ela só tinha sandália, na novela aparecia toda cheia de coisa, mas lá antes da gravação nem sapato tinha, a senhora veja só! Agora desculpa se eu vou esfregar os óculos, é que passou um caminhão quando eu vinha chegando e embaçou tudo. Ah, sabia que outro dia, fui no cemitério ver o túmulo da minha madrinha, e veio um homem de preto e me deu uma rosa. Só que no ônibus, e era uma rosa tão linda, muito linda mesmo, a rosa começou a sangrar. Eu não sabia o que fazer, era um desespero só, e se os outros vissem? Então escondi bem a rosa no bolso da calça, e quando cheguei em casa não tinha mais rosa nenhuma…- Odete trabalhava como faxineira em três casas e toda manhã de segunda quando chegava na casa da patroa traçava um bom pão com manteiga e chocolate quente antes do serviço, e comia de verdade apesar de falar tanto, enquanto a dona da casa, sonolenta, escutava sem muito ânimo; oferecera-se por mais de uma ocasião para trabalhar duas vezes por semana e o preço seria proporcionalmente menor (trinta um dia, quarenta dois), mas a patroa não suportaria...Já lhe bastava escutar aquelas histórias mirabolantes toda segunda-feira.
  Não sabia se Odete tinha casa, porque toda santa noite era o mesmo tormento: fazia hora até as 22, e costumava dizer “não me importo de dormir no chão!”, talvez não tivesse onde morar…Mas era muito dedicada na limpeza, “adoro ver bem sujo pra esfregar bem e depois ver tudo limpinho e brilhante…”, pode-se dizer que em seu serviço alcançava a perfeição; só acabava não tendo lá muito cuidado com as coisas no ímpeto da limpeza:
-  Isso era assim mesmo?- Contudo, era honesta, e se denunciava, como certa vez com um pedaço do abajur numa mão e outra parte e o fio da tomada em outra...
  Não havia maldade ou mentira no que contava, tão somente ingenuidade e imaginação. Com mais ou menos um e cinqüenta de altura, redonda com seus oitenta quilos de peso, cabelos pretos curtos mas soltos, branca, de óculos garrafais, gostava de andar bem ajeitada, perfumada e com vestidos tubinho quando saía da faxina. No ponto de ônibus, bastava se sentar e haver alguém para que começasse a falar:
-  Sabe o meu neto? Ele é muito esperto mesmo. Jogando taco uma vez, tinha uma senhora dentro da casa dela tomando café…Sabe o que aconteceu? A bola foi parar dentro da xícara dela.
-  É mesmo? E quanto tempo ele treinou pra ter uma técnica dessas?- Nunca conseguia perceber sarcasmo ou ironia nas pessoas.
-  Ele tem três anos só, moço, nunca treinou...Ele já nasceu com o dom.
-  Ah tá…Eu também sou bom de taco…Só ontem de noite solapei duas! Agora vou indo que o meu ônibus chegou, licença.
-  Vai com Jesus, filho…- Freqüentava tanto a igreja católica, rezando para todos os santos, quanto as evangélicas; inclusive trabalhava para a esposa de um pastor.
  Em determinada ocasião, a moça diminuíra seu salário sem mais nem menos, e Odete quis saber por qual motivo:
-  É o seu dízimo, sua doação pra Jesus.
-  Mas Jesus não come...
  Do seu jeito, era bem esperta…Afinal tinha mais de quarenta anos de estrada.
  Na verdade não tinha filha nem neto, e morava com um homem chamado Paulo, um bruto, que a espancava sempre que no final do mês não tinham o que ele julgava suficiente. Mas de que importava para ela essa verdadezinha? Sua sinceridade valia muito mais.
Marcello Salvaggio
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1902882

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Sobre o autor
Marcello Salvaggio
São Paulo/SP - Brasil, 26 anos
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