Juventude tediana
A chuva caía fina no fim da tarde, e as pessoas se aglomeravam por debaixo do ponto de ônibus na Catedral, e eu como mais uma pessoa comum, fazia o mesmo para não molhar minha roupa, por que não conseguiria secar a tempo de ir para a faculdade. Eu então iniciei ali a minha espera pelo ônibus lotado de gente, o pior horário de todos para pegar um ônibus, e ainda mais em um dia de chuva, tédio era a melhor expressão que meu rosto deveria apresentar para quem olhasse pra mim. Tédio. Mas era justo, era o tédio que me sucumbia. Um tédio diferente, um tédio de uma vida monótona, sem sacrifícios decentes, apenas coisas idiotas. Bem, eu não passo de uma menina sem bagagem para que a minha vida fosse diferente da idiotice que me cerca. Mas está bem, sou feliz do meu jeito. Mergulhando em pensamentos, ao lado do ouvido direito pude escutar uma conversa entre uma mulher na faixa dos cinqüenta anos, meia amarrotada, uma pessoa simples, com um homem um pouco mais velho, com a pele queimada pelo sol, e um odor mau cheiroso ao extremo, o cheiro dele me fez sentir um nó no estômago, eu virei o nariz para sentir o vento que me acalmou a náusea, mas não pude deixar de ouvir ele contando um causo pra ela. Dizia ele que tinha dormido uma semana na cadeia, sem dinheiro pra fiança, por ter batido em uma mulher, que não entendi exatamente o que era, mas achei muito engraçado a maneira como ele dizia que ela havia merecido aquilo. Distraída por essa conversa 'refúgio de tédio' vi meu ônibus chegando, e então suspirei aliviada por não precisar mais ficar ali sentindo aquele cheiro de sujeira misturado com o molho da barraquinha de cachorro-quente, eu já estava quase colocando o café da tarde inteira pra fora. Por fim, me vi dentro do ônibus. Lotado. Pior do que o meu estado externo, o ônibus parecia uma caixa de ferro, fedorenta e úmida, e tão cheia de gente de todos os tipos. O veículo longo balançava de um lado para outro, e vez por outra aquele motorista barrigudo freava tão bruscamente que metade da população do ônibus andava uns cinco passos pra frente. Tudo naquele ônibus me dava nojo. As janelas estavam completamente fechadas, por causa da tal chuva, que não passava de água, que era o que metade daquelas pessoas ali dentro estava precisando mesmo. Os vidros suavam, uma mulher gorda tossia, um bebê berrava desesperado e a mãe gritava com o pobrezinho, e aquilo tudo estava me deixando completamente enjoada. Minha cabeça dava voltas e mais voltas, e eu achei que seria o fim do mundo toda vez que aquele ônibus freava e parava no sinal. Cada parada que ele fazia entravam mais e mais pessoas, e eu não sei por que diabos as pessoas teimavam em espremer mais gente do que aquela caixa de sapato podia agüentar. Eu estava começando a ficar quente, e o suor começou a querer descer sobre a minha testa. Eu estava com o tédio saindo pelos poros. Tudo aquilo, a minha idiotice, as pessoas fedorentas, a mãe desnaturada, o dia de trabalho, a aula que eu ainda teria que agüentar, e o meu medo, o medo que vinha tomando conta de mim, que eu teimava em nomear de tédio, tudo isso, estava me deixando doida ali de pé segurando no corrimão daquele ônibus coletivo, e eu achei que era a hora da minha morte, eu ia desmaiar, eu juro que ia. Então eu fechei os meus olhos, e senti uma suave brisa bater no meu rosto, uns pingos finos de água, e uma luz tomou conta dos meus olhos, senti que algumas pessoas batiam em mim quando passavam, e então abri meus olhos, e eu havia chegado ao ponto da universidade. Desci dali como se eu estivesse fugindo de um bando de mortos-vivos prontos para me sugar até a morte. Respirei. Maravilha, estava a salvo. Muito antes da aula começar, eu comprei meu habitual suco de laranja, sentei-me no banco solitário de sempre, e coloquei tocar uma música, uma música idiota. Não sei para quê as pessoas como eu adoram se auto-torturar ouvindo músicas que nos fazem pensar no que não temos mais conosco, no que se foi, no que ainda vai ir, e fico ali sentada naquele banco, sentindo a minha dor, e eu acho que as vezes até gosto disso. Eu sou ímpar. Cada vez que a dor vem eu me sinto mais forte, e já me acostumei a conviver com ela, por que ela faz parte da minha vida, como na de todas as pessoas comuns. Fiquei ali, com os olhos fixos pra porta da livraria na parte coberta onde eu estava, e eu via as pessoas entrando e saindo, com pressa, outras sem, pessoas pensando em outras pessoas, um casal de namorados ao meu lado, dividindo o mesmo banco, que realmente era enorme apenas pra mim, uma pessoa que vive sozinha nas 'horas vagas'. Mas aquilo começou a queimar o meu peito, na minha mente ecoava o som da canção que eu estava escutando, e os meus olhos desviavam para aquela cena tão absoluta, tão amável e tão cruel. Eu não pude olhar, eu não queria, mas eu queria. A menina era loira, um loiro vivo, usava uma jaqueta branca jeans, tinha pernas bem compridas, uma mão pálida e muito delicada, parecia frágil, e o garoto na mesma faixa de idade dela, era moreno e tinha braços fortes, e os dois entrelaçavam-se em meio aos seus abraços, e seus lábios não deixavam de se tocar nem por um segundo. Minha presença ali foi total e consideravelmente imperceptível, pois quem em sã consciência prestaria atenção em uma estranha que ficava olhando você beijar a pessoa que mais ama em todo o mundo. Fato. Mas eu fiquei ali, afinal de contas aquele ali era o meu banco, o meu lugar de todos os dias de aula, onde eu tomava meu suco, ouvia minhas músicas, lia meus livros repetidos como se os tivesse devorando pela primeira vez. Ali era tudo meu, menos uma coisa. Eu estava sentindo falta, e eu sei do que e de quem se trata, Eu pensava em por que o mundo era tão injusto comigo, ou por que as pessoas parecem tão diferentes de mim, e aí eu comecei a sentir raiva da minha auto-flagelação consciente. Eu resolvi parar. Peguei as minhas coisas, joguei o copo no lixo, dei uma olhada com inveja eu confesso pro casalzinho 20 e franzi a testa com uma cara de nojo pra eles, com raiva por parecerem tão feliz enquanto faziam meu mundo desabar. Não os culpo. São idiotas, assim como eu, assim como todo mundo que tem um coração. Mas enfim, volto eu para o caminho da minha aula, sentindo o tédio chegando, aos poucos, batendo na minha testa como quem bate numa porta, e nem esperando eu abrir começou a entrar e se aconchegar no meu peito. E tudo volta exatamente ao normal da minha semana. Normal. Essa palavra me conforta, ou me acomoda, tanto faz. Só sei que tudo estava normal, tranqüilo, o tédio, eu, tudo de volta, no lugar onde deveria estar. E assim começamos, mais uma vez, outra semana, de muitas e muitas que ainda quero ter, pra mandar esse tédio idiota embora de uma vez por todas.
Nina Fioreze
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1903797
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