Dia de Finados!
Era dia de finados! Passei o dia todo envolvida com vários afazeres domésticos e não me lembrei de ir ao cemitério. Normalmente nesse dia temos o costume de visitar o cemitério, levar flores e rezar pelos falecidos da família. Quando me dei pelo desaviso, já era bem tarde e então comentei:
—Nossa! Hoje é dia de finados e nós não fomos ao cemitério! Que pena!
Meu filho João Paulo de oito anos, logo se animou pensando ser uma ótima oportunidade para um passeio.
—Oba é dia de finados! Mãe, por favor, vamos ao cemitério, eu quero ir.
—Não dá mais para ir ao cemitério filho, já é tarde e logo vai escurecer.
—Ah, mãe! Vamos! Vamos!
—Não filho, no outro ano prometo que vamos mais cedo, mas hoje não dá mais para ir.
Meu filho continuou a resmungar e eu continuei minhas tarefas. Não falamos mais no assunto e não me preocupei mais com o menino.
Já bem tarde, a noite já havia chegado e eu me dei conta de que João Paulo, não estava por ali. Ele normalmente não saía para muito longe e à noite estava sempre em casa. O sol já tinha dado boa noite e nesse momento comecei a me preocupar seriamente com o que poderia ter acontecido ao menino, foi quando me lembrei da nossa conversa sobre o dia de finados então preocupada, comentei com meu esposo:
—Augusto você viu o João Paulo?
—Não! Faz tempo que não o vejo, aliás, me lembro de tê-lo visto conversando com você aí na cozinha mais cedo.
—Meu Deus! Augusto será que esse menino foi sozinho lá pelas bandas do cemitério??
—Ah não! Isso não é possível, ele teria medo de ir lá sozinho.
—Pois eu vou verificar isso agora mesmo.
O cemitério ficava retirado da cidade cerca de um quilômetro e a via de acesso a ele, era de terra ladeada de pastagens, além de ter que atravessar um riacho por uma ponte estreita e perigosa. Passei a mão no cabelo, desatei o avental e saí espavorida pensando em ganhar os rumos do cemitério.
Logo ao sair nem bem havia ganhado a rua vejo uma bicicleta se aproximando com um garoto na garupa. Era o Divino (Divino "Cavalo Doido" como era conhecido) que encostava a bicicleta na calcada de casa, trazendo João Paulo. Eu fui logo interrogando o garoto já querendo dar uma bronca daquelas.
—Menino! Mas onde é que você se meteu? Sabe que horas são?
Divino "Cavalo Doido", explicou na sua simplicidade de caboclo que era muito apreciada por todos na cidade.
—" Eu vinha chegano da roça, e passano lá pelas bandas do cimintero, eu vi o João Paulo lá dento sozin! Aí eu disci da bicicreta e fui lá vê o que que ele tava fazeno ali sozin sozin. E eu priguntei pra ele: Uai João Paulo, quê que cê tá fazeno aqui sozin a essa hora rapais? E ele mim contô que tava acendeno as vela que o vento apagava, mais que num tava venceno não, por causa que acendia uma e o vento apagava ota e aí ele tinha que vortá pra acendê tudin de novo".
Eu fiquei pasma! Virei para meu filho e perguntei:
—João Paulo! Mas você não teve medo de ficar lá no cemitério sozinho?
Ele estava absolutamente tranqüilo.
—Não! Porque mamãe? Eu só estava ascendendo as velinhas que o vento apagava.
—Meu filho, você não sabe que todo mundo tem medo de ir ao cemitério à noite?
Ao que ele arregalou os olhos e respondeu perguntando:
—Não!! Tem??
—É claro que tem menino, você está é maluco.
Divino "Cavalo Doido" dava boas risadas do fato.
Agradeci, ao rapaz e entramos em casa. João Paulo que não tinha idéia do que era ter medo de cemitério, começou a fazer muitas perguntas e a partir desse episódio também ele passou a ter medo.
Obs: Fato acontecido com meu filho de 8 anos.
Maria Helena Camilo
Maria Helena Camilo
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1904564
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