Texto

O médico mandou!

-O médico mandou, amor...

-O médico mandou uma pinóia! Uma pinóia!

- Você não diz que me ama, que faria qualquer coisa por mim?!

- Ora, vejam! Isso nunca! Onde já se viu...

- E eu? Como fico? Você quer que eu morra? É isso, seu insensível?! É isso sim! Eu sei...

- Ah, não! Como assim? Não confunde as coisas não... Você quer morrer!!! Por sinal é por isso que eu pago uma fortuna a esse maldito psicólogo...

- Ta reclamando, ta?! Contando migalhas, seu sovina?!

- Só estou dizendo que foi você que começou com esse negócio de querer morrer...

- Por culpa sua! E agora que estou me tratando, que o médico me passou um tratamento, você não quer cooperar conosco!

- Pois eu prefiro ser viúvo do que ser corno!

- Ta vendo?! Você quer que eu morra...

- Você quer morrer! E se desistiu disso, me avisa logo que é pra eu suspender esse médico patife agora!

- Você não é capaz de entender. Não é uma alma sensível. Eu sou um grande pássaro aprisionado. Tenho desejos. Freud disse que...

- Eu quero mais é que Freud se F...

- Pára! Insensível...

- Antes insensível que corno!

- Pois então vou me matar. E você vai morrer de remorso...

- Antes morto que corno!

- Mais que cisma! Que diabos... Só quero uma transa, caramba!

- Ah, é? Tudo bem... Direitos iguais! Direitos iguais!

- Ok. É justo.Acho que me oponho? É justo sim!

                 Silêncio.
                 Dois minutos depois...

- Eu pago um cara, um profissional. Ta resolvido.

- Não quero.

- O que?!

- Quero um homem que me deseje de verdade.

- Qualquer homem vai desejar você de verdade. Você é bonita...

- Michê nem pensar!

- Que que é?! Você quer dar pra um amigo meu, por acaso?

- Deus me livre! Você só tem amigo canhão... E não tente mudar as coisas. É um TRA-TA-MEN-TO!

- É sem-vergonhice!

- Tratamento...

- Sendo assim, também quero cortar os pulsos. Também resolvi morrer. Quando começo o tratamento?

- Você?! Ninguém em todo o mundo é mais feliz que você...

           Mais silêncio.
           Três minutos.

- Que tal um swing?

- Legal! Adoro dançar!

- Ai, como você é velho... Ninguém mais dança swing. Hoje se faz swing. É uma troca de casais. No sexo, entendeu?

- E que diferença faz ser corno pelas costas ou assistindo? Antes corno iludido que corno consciente...

- Mas você vai comer outra também, criatura!

- Cornear você ao mesmo tempo em que você me corneia não me transforma em um não-corno. Você é mulher, nunca vai entender. O sujeito pode ser um grande cara, uma vez corno, ele sempre será o grande cara corno, reconhecido pela cornitude. Pela cornitude! Não pelos seus feitos...

- Mais que fixação!!!

- Na cabeça dos outros...

         Calaram-se por uma hora, entre pensamentos de amor e morte.

 - Quero o divórcio!

- Não, obrigado. Eu te amo.

- O jeito então é me matar...

- Eu poderia matar você, mas não sou dado a essas coisas.

- Antes assassino que corno...

- Brava!

- Cabeçudo...

- Posso pedir uma coisa?

- Hum...

- Caso aconteça, me engane. Não quero saber. Fingi sempre pra mim, me iluda. Enquanto se fingir de santa, será a minha santa.

           Ela sorriu de um jeito quase adolescente.

 - Não poderia te enganar, seu bobo.

- Por que não?

- Por que sou um grande pássaro aprisionado... Mas que te gosta muito...
 
        Então fizeram amor como nunca. E, até onde se sabe, jamais traíram um ao outro.

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Déda Lizz
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907393
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Comentários
25/11/2009 23h07 - Lula Oliveira
Leve e gostoso de ler...adorei! beijos
07/11/2009 18h57 - Maycon Batestin
eu fui rindo e rindo e rindo e cheguei aqui: - Quero o divórcio! - Não, obrigado. Eu te amo. e chorei de rir! otimo, excelente, maravilhoso conto.
06/11/2009 17h03 - josé cláudio
Maravilha de crôncia! Adorei! Paz e bem.

Sobre a autora
Déda Lizz
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 29 anos
19 textos (1017 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 09:17)

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