Metástase
12-03-08
Semana passada eu li sobre aquela teoria do choque. Parece bastante assustador para quem vê, mas eu não sei se é bom ou ruim para o paciente. O médico que concedia a entrevista garantia que era um tratamento muito bom, seguro, saudável. Nunca sei no que acreditar.
13-03-08
"Do you really want to live forever?"
Eu não sei... Mas às vezes a perspectiva de morrer me aterroriza. Viver para sempre deve ser muito chato...
Tive um pesadelo. Queriam me assassinar, depois de matar uma amiga minha (cuja face não reconheci), e com requintes de crueldade (derreter o cérebro com um líquido injetado na cabeça). Eu tinha que fugir o tempo todo, mas era o tempo todo seguida por pessoas diferentes. Mesmo protegida por grades e muros e pessoas eu vivia com medo de morrer. Acordei encharcada de suor às duas da manhã.
Ele me ligou tão tarde ontem... Me senti tão abandonada, esquecida, morta... É complicado tentar associar as suas idéias e as suas necessidades a outras pessoas. Principalmente quando se trata de alguém com vínculos afetivos demasiado estreitos.
Não. A vida não pode fazer sentido. Preciso concordar com o professor de Filosofia: eu invejo os animais. O ser humano é o único ser mortal. Os animais não têm consciência da morte, ao passo que para o humano essa é uma das maiores fontes de angústia. O nada amedronta o homem, e a morte é a passagem para o nada. Para o esquecimento. Para a destruição daquilo que um dia representou alguma coisa. Mas eu gosto de pensar na morte como uma coisa boa, como "o fim da festa", o derradeiro descanso desse desfiladeiro de atribulações. Ainda assim, talvez fosse melhor se eu não soubesse que vou morrer.
Não sei quem sou, só sei do que não gosto. Eu não gosto de iogurte natural, de trabalho doméstico, de ficar parada, de ficar sozinha, de padronização. Eu não sei jogar bem xadrez, mas queria uma gata chamada Dinah. Ou Alice.
25-03-08
Eu ganhei muito chocolate esse fim de semana. Eu até gosto de chocolate, mas acho enjoativo e além disso sou alérgica. Não vejo outra graça na Páscoa, a não ser o feriado prolongado. Tenho me sentido muito mal. Até quando eu vou viver em função do próximo fim-de-semana ou feriado? Como viver em função de um espaço que eu não ocupo mais? Como viver uma vida que não é mais minha?
"Cogito ergo sum". Eu vou morrer porque estou viva. "Não tenha inveja dos mortos". Não tenho inveja dos vivos. Nem de mim. Se eu apressar o processo e usar meus pulsos como saída de emergência, o que vai acontecer? Até onde abdicar de uma vida miserável e abraçar a morte pode ser uma boa saída? Existe uma boa saída? O que é bom?
10-04-08
"Deus está morto. E nós o matamos. E ainda comemoramos. Vocês não sentem o cheiro da putrefação cósmica? Vocês não vêem os oceanos ressecados, o sol apagado?"
Eu sou uma mercadoria. Eu me vendo. E por muito pouco. Não há mais lugar para a peça humana no meio desse relógio mecanizado. O que interessa é produzir-consumir, num ciclo sem fim. O que interessa é o establishment. O pós-modernismo sepultou a razão. E agora? Como ficamos nós, desamparados, já que Deus está morto e a ciência está em seu crepúsculo? Estamos sem referencial.
Essa cadeira não existe. Nada existe. Estou há quase uma semana me sentindo abandonada. estamos incomunicáveis. Sozinha, desamparada, desfocada. Eu deveria pular do terraço, mas não posso. Preciso ouvir a voz dele de novo, tocá-lo de novo. Ou vou apodrecer por dentro.
11-04-08
Ontem, depois do almoço, ele me ligou. Eu estava sentindo sua falta, tanto... Esvaziei um pouco as glândulas lacrimais e depois tentei dormir. Foi difícil.
12-04-08
Não quero esse mundo. Não quero essa sociedade. Não quero esse sistema. Não quero essa vida. Mas também não quero morrer.
15-04-08
Eu vivo na era da laicização do mundo. E daí? Talvez fosse bom ter um pouco de sagrado. Talvez fosse bom ter fé. Mas eu não sei, nunca vi.
"Because sometimes you feel weak
You feel weak, you feel weak
And feeling weak you just want to give up..."
07-05-08
E se Baudrillard estiver correto? E se vivemos no mapa, e não no território? E se tudo for um simulacro do real?
Tenho dormido tão pouco e mal ultimamente...
21-05-08
18 anos. Grande coisa. Pelo menos agora não vou mais ser barrada em show e vou poder fazer minha tatuagem e meu piercing. No mais, nenhuma diferença. O camarão com ele ficou para depois do feriado. Uma pena.
Bárbara Rocha
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908695
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