A FADA MÁGICA ( Dedicado à minha irmã)
A porta abriu-se devagarinho.Abri os olhos, ainda sonolenta.Minha ir-
mã entrou no quarto e sorriu, ao dizer:" Dá-me tua mão, corajosa
mulher.Ontem foste história,hoje és uma dádiva de Deus.Vamos para casa".
Olhei em volta. As paredes brancas e a cama levemente erguida
fizeram com que eu lembrasse do que ali se passara.Chorei, confortada
por minha irmã. As lágrimas eram de felicidade em celebração à vida,
após um grave problema respiratório.
Já em casa,recolhida em meu quarto, pedi a ela que deixasse as janelas entreabertas. Recostada na cama, olhei o céu. As estrelas cintilavam e estavam tão próximas. Pudera eu colher uma para bordá-las com as cores do arco-íris.Quisera florir esta noite que me acalenta-va e ganhar um beijo da lua.Fiz deste momento uma caminhada rumo
ao meu interior.Pintei-o de céu e agradeci a Deus por esta obra de arte.Neste monólogo com a vida, senti um beijo na fronte.Era minha
irmã. Com ternura, perguntou-me se eu estava bem, pois iria contar-me uma linda história.Respondi-lhe que sim, pois como não estar, mimada com tanto zelo e carinho? Segurando minhas mãos ela começa
a jogar com as palavras:
" Marilene, acreditas em Fadas Mágicas? ...Não respondas agora,
mas eu tenho certeza que elas existem, porque, enquanto estavas no
hospital, uma nos visitou. Ainda sonolenta e com falta de ar, não a viste.Eu te olhava e chorava.Chorava baixinho ao lembrar-me de minhas filhas que tinham cancelado seus cursos na faculdade. Lembrava de meu marido, desempregado, com mais de cinquenta anos
de idade e das contas vencidas que me tiravam o sono.E eu me perguntava com driblar a situação com o parco salário de professora.
Isto me consumia e me angustiava.
Absorta em pensamentos vi entrar no quarto uma Fada Mágica.
Estava vestida de branco e era linda! Perguntou-me o motivo de tanta tristeza. Contei-lhe tudo. Ela me ouviu, com um olhar brando e acariciador.Entregou-me uma varinha e disse-me que se eu fizesse três
pedidos, eles seriam atendidos imediatamente.Exultei de alegria! Com a varinha entre as mãos imaginei o que iria pedir:dinheiro, dinheiro e
dinheiro.Tudo ficaria bem com minha família. Nada de preocupações e
noites insones.Momentaneamente, pareceu-me ver na Fada um Anjo e
eu viajei com ele até minha alma.Que viagem linda! Vi minhas filhas e
meu marido sorrindo, pois eles viam, em cada pôr do sol, a promessa de um novo amanhecer. Lembrei-me, irmã, das vezes em que nós duas
somamos esforços e dividimos fraquezas e os obstáculos foram vencidos.Olhei para a Fada Mágica e ela sorriu.Foi em minha direção e
eu a beijei.Emocionada, agradeci a visita e pedi a ela que fosse ao
quarto ao lado.Ali, com certeza, a mãe que sofria por ver seu filho
partir lhe faria somente um pedido: o milagre da vida.
Mana, envergonhei-me dos três pedidos que pensara em fazer e
agradeci a Deus por me fazer compreender que ,após um rigoroso inverno, vem a primavera, exalando o perfume das flores. E agora,
minha irmã querida, acreditas em Fadas Mágicas? ...Gostaste da história?"
Que momento de sensibilidade e ternura!
Pedi que minha irmã se aconchegasse a mim. Abracei-a, com amor.Orgulhei-me tanto dela e não pude conter as lágrimas ao constatar a grandeza de sua capacidade de partilha e doação.
Respondi-lhe que acreditava em Fadas Mágicas, pois a que estivera
adormecida em seu coração, despertara em nome do amor e da fé.
Marilene Borba
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908822