Texto

a Wembley story


July 21th, 2000.
Despenteada, essa é minha situação.
Não tem como não ficar, somos muitos, no calor de Londres, esperando o Oasis chegar. "O que será que Paul tá fazendo agora?"
Quer saber? Na minha mente, passam tantas coisas, menos que ele é legal.
Não quis vir comigo. Minha mãe ,que está longe, diria que isso é um sinal. E deve mesmo ser.Já estou mais que na hora de pensar em mim, e não num cara egoísta como ele. " Se fosse um Belle & Sebastian eu até iria, mas...", isso foi o que ele me disse. Bullshit, desculpa para não estar aqui comigo.

Nevermind, estou aqui e tudo o que quero é curtir o som, e me sentir uma espécie de extensão do Liam Gallagher, cheia de pretensões.
O que tenho no meu bolso? Um maço quase vazio de cigarros, pouco dinheiro e a chave do meu apartamento. Que bom, pois isso é tudo o que eu preciso mesmo ter.

Com sede, preciso beber algo. Talvez conheça alguém legal, pra ficar bêbada junto.
" Você é uma freak"... Ele tem razão, talvez eu seja mesmo.
Cerveja na mão, tá calor, quero prender meu cabelo.
Vou pedir aquele cara pra segurar o copo pra mim, quem sabe não é alguém legal.

- hey, segura pra mim...
- tudo bem.

Não deve ser daqui. Não é muito alto, gostei do jeito dele, mas deve não prestar nada. Pra variar um pouco. Tenho uma teoria meio doida, que diz respeito a homens que gostam de Oasis. Pra mim , eles não prestam pois querem paracer o Liam e agem como tal. Too much esnobes, U know. Sei que é uma teoria ridícula, mas é o que penso. Paul não gosta de Oasis, mas não presta também. Talvez ele seja uma exceção.

- Posso beber um pouco?
- Só um pouco, porque eu tenho pouco dinheiro, e estou com sede.

Ele sorri, como se eu estivesse brincando, mas eu não estava.

- Mora em Londres?
- Moro.
- Sozinha?
- Agora sim.
- Por que agora sim?
- Porque...sim.

Confesso que esse meu jeito de desprezar as pessoas é um pouco exagerado, mas eu realmente não estava com vontade de conversar. Fiz duas tranças em meu cabelo, e logo coloquei um boné para me proteger do sol. Ele continuou bebendo minha cerveja e eu o observei até o copo estar vazio.


- Então... vou te pagar uma outra cerveja.
- Não precisa.
- Mas eu bebi tudo...
- É, percebi.
- Você não é daqui, acertei?
- Nem você.
- Acertou.
- Brasil. Rio de janeiro.
- São Paulo.
-...Também moro em São Paulo.
- O mundo é pequeno.


O mundo é minúsculo. Incrível coincidência Até ouvi minha mãe novamente dizendo que era um sinal. E talvez agora fosse mesmo. Conversamos . Já em língua tupiniquim. Conversas de estudantes estrangeiros." Quanto você paga pelo aluguel aqui?" "Conseguiu emprego em algum lugar? "

Já era tarde, e o show já estava pra começar e só percebemos isso, pois o espaço foi ficando cada vez menor com tantas pessoas à nossa volta.

- Morou na França?
- Um ano...em Paris.
- Fiquei três dias por lá , três dias ótimos.

Luzes apagadas.
Não era nossa primeiro show do Oasis, mas parecia, pois pelo menos o meu coração estava aceleradíssimo. Ficamos nas pontas dos pés para ver a música de apresentação, ainda sem a banda no palco. Nos primeiros acordes de Go let it out tudo o que fizemos foi rir não sei se de alegria, ou de nervosismo. O som era ensurdecedor, e eu tinha que berrar no ouvido dele. Mas não importava, pois a conversa continuava boa. Era algo sobre o amor francês que ele teve.

- Não deu certo?
- Não, eu vim embora.
- Que pena.
- Já foi...passou!

Who feels love? estava tocando essa quando contei a ele sobre Paul. foi quase uma discussão sobre homens ingleses e brasileiros, aquele eterno papo de "quem é melhor, o brasileiro ou o inglês?". Respondi que no fundo todos eram Liams...e não prestavam. A discussão continuou até Stand by me, porque queríamos cantar junto com a platéia, acender isqueiros, essas coisas...
Em Dont look back in anger, surgiram as primeiras confissões da noite. Foi estranho e engraçado.

- Posso te contar uma coisa?
- Conta...
- Odeio cerveja...
- Odeia cerveja?
- É , eu só bebi, porque queria um motivo pra continuar falando com você...
- Não acredito. E eu confesso que também não gosto muito de cerveja, só comprei pois não tinha nada mais para beber, vai ver que foi por isso que deixei você beber tudo.
- Talvez não tenha sido só por isso.
- Who knows?

Cantamos junto Champagne Supernova. Talvez porque estávamos alegres, talvez porque não estivéssemos entendendo direito o que significava aquela nossa conversa, talvez porque gostássemos da música, talvez porque estava todo mundo cantando junto.
Ou talvez por um motivo que só nós dois sabíamos.

" Someday you will find me, caught beneath the landslide
in a champagne supernova , a champagne supernova in the sky"

E foi exatamente aí que nos beijamos. Talvez porque não era preciso, ou talvez porque não queríamos mesmo. Ou talvez porque gostamos do beijo. Fico com essa última opção.


"This is our last one, good night , God Bless you... ", disse Noel

Estava chegando ao fim. E não conseguia tirar os olhos daquele menino, que não parava de cantar e repetir no meu ouvido o refrão daquela música. ..

- Tonight I am rock n roll star!!!

Não tive dúvidas que realmente ele era. Peguei em sua mão e saímos dali, ainda durante o "bis", pensando que já era hora de mudar minha opinião sobre meninos que gostam de Oasis.
si anjos
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1909496

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Comentários
07/11/2009 00h42 - Alexandre Menezes
Ôpa. Foi um prazer ler seu texto. Espero que tenha chega para continuar postando. forte abraço.

Sobre a autora
si anjos
Santos/SP - Brasil, 33 anos
11 textos (132 leituras)
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