Striked again
Quase meia noite.
Mas sem dormir, buscou algo interessante para ver na TV, algo que me fizesse parar de pensar. Exercício difícil. Impossível, quase.
"Vou escrever um livro com crônicas dessa minha vida absurda"
Dizia para si enquanto tentava descobrir onde deixou o isqueiro. Na TV, programas de vendas de objetos bizarros, tão fúteis que não chamavam mais a atenção. Enquanto acompanhava com os olhos a faca que tinha "mil-e-uma-utilidades", lembrava de Pedro levando mais um livro pra lhe entregar.
Aquilo não saia da cabeça, mas não entendia o porquê.
"Eu não sou do tipo que fica encantada com livros, mas com o dono deles. Eu não leio mais nem jornais."
"Não é possível que um simples livro de crônicas do Caio Fernando Abreu vai me deixar nesse estado. Mais uma vez, mais um livro"
Pedro era um amigo, desses que são referência para a vida inteira. Indica livros, cds e filmes tão legais que ele mesmo contado já vale o ingresso, a compra, a leitura.
Lembro-me bem quando estreou "Amores Perros"* no cinema. E eu estava em casa tentando terminar uma matéria especial, que prometi estar na redação, até às quatro horas do dia seguinte. Pedro me liga quase dez da noite e me convence.
-É sessão especial, vai todo mundo.
"Todo mundo" ele quer dizer, ele, Michele, Tatiana (sua namorada), Marcelo, Tiago e eu. Os argumentos de Pedro convenceriam até minha avó a sair de casa àquela hora.
Eu fui e gostei do filme. Mas percebi que não terminaria a minha matéria nem por um decreto. Chegamos em casa ás 4 da manhã devido aos extensos comentários sobre um filme que durou quase três horas e que chegava até ser cansativo, mas que Pedro conseguiu nos fazer ficar até o fim.
Lembrando daquilo tudo, acendi mais um cigarro e cheguei à conclusão de que era altamente influenciada por ele.
"Putz, não é possível".
Pensei em Tati, ela era legal. Minha amigona, apaixonada. Três anos e meio de namoro. Rosto sempre feliz, sorriso e palavras meigas que me faziam acreditar em mim. Gosto de Tati. E Pedro. Não é preciso mais falar o que acho de Pedro. Gosto dele, e isso não é certo.
Com controle remoto na mão percorro a sala com os olhos e vejo uma garrafa de água vazia ao lado de meus projetos inacabados: Um saco de doritos fechado (eu não como algo nutritivo há tempos), o meu capacete (andar de moto é a única coisa que faço direito na vida), e o livro que Pedro me deu (preciso queimar essa coisa).
Me dirijo até o livro, abro para ler novamente a dedicatória.
"Pra menina mais do avesso que já conheci contos que talvez nem mesmo o autor consiga entender. Te adoro, e faz tempo que te digo isso."
Pê.
Leio a dedicatória sem perceber que estou sorrindo sem esforços. Dedicatória normal, de um amigo qualquer, tento imaginar desse modo. Mas se tivessem sido só isso, um livro e sua dedicatória. Mas foi mais que isso.
Terça-feira, o dia anterior.
Eu tô na lanchonete da Faculdade comendo pão de queijo, sem preocupação. Tiago toma coca-cola enquanto ensaia mais uma vez o que vai dizer no seminário de Comunicação Comparada. Chega Pedro. Senta, me olha com cara de "preciso-conversar-com-você".
Que foi, pergunto.
- Tem um livro de Lorca que preciso pegar urgentemente na Biblioteca. Vamos comigo.
- Tem cigarro aí...
- Não, sem cigarros hoje.
Entendi.
Eu e Pedro, há tempos, temos códigos que só nós entendemos. Às vezes penso que nem nós entendemos. Ter cigarros é um deles. Cigarro é a Tatiana.
Não que eu seja uma bruxa má, mas vai entender o que se passa na minha cabeça quando eu estou ao lado dele. Acho que não passa nada, na verdade.
Biblioteca principal.
Nenhuma alma por perto. Ali, parados diante de autores estrangeiros, eu e Pedro e os livros sabemos o que acontecerá. Ele me olha com o sorriso que eu gosto de ter, o sorriso irônico de quem pensa, "de-novo-aqui-eu-e-você". E eu o olho com cara de "não-acredito-que-vamos-fazer-isso-novamente". E nos beijamos.
Beijos de namorados apaixonados, molhados e agressivos, e que duram no mínimo cinco minutos, ou até que escutemos alguns passos.
É o que acontece.
Enquanto mais alguém divide o setor de autores estrangeiros conosco ele me entrega o livro de Caio. Não diz nada, não precisa. Pega o do Lorca e vamos embora.
Com o livro que ele me deu na mão sento novamente no sofá disposta dessa vez a lê-lo e esquecê-lo.
"Prometo que esse será o último", penso.
Tentando me convencer que não aceitarei mais nada de Pedro, nem livros, e nem beijos. Nada. Penso o quanto soa impossível isso acontecer.
Lembro que ele me pediu em namoro antes de começar com Tati, há muito tempo atrás, e eu não aceitei. Eu não me entendo, definitivamente. Vai ver que eu gosto de tê-lo assim, em bibliotecas, entre um livro e outro, vai entender.
* Amores Perros ganhou o nome de Amores Brutos no Brasil, mas eu sou fã do nome original.
20.01.03
si anjos
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1909536
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