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Um crime perfeito

   Era uma segunda-feira. A manhã transcorria em sua monotonia acelerada no centro da cidade carioca. Carros indo e vindo, o povaréu deambulando por todas as calçadas, subindo e descendo de ônibus apinhados que deslizavam sobre um asfalto já quente pelo Sol que se fazia fulgurante. Todos buscando chegar a seus destinos com a máxima pontualidade, não obstante os eternos engarrafamentos que, por vezes, frustravam esse intento. Quem olhasse para aquele cenário corriqueiro não poderia imaginar o que estava prestes a acontecer.
   Gritos de desespero ecoavam à longa distância. Uma voz feminina bradava por socorro. Populares se dirigiam para o local de onde provinham aqueles apelos aflitos, no intuito de acorrerem àquela criatura desventurada. Um homem, estranhamente, caminhava apressado contra o fluxo da massa curiosa. Abria caminho estupidamente tentando se afastar o mais rápido possível do ponto nevrálgico. Pareceu estar escondendo algo sob a jaqueta de couro preta.
   Agachada ao chão estava a mulher. Ferida, trêmula e em pranto copioso, ela dizia frases desconexas às pessoas que tentavam ajudá-la:
   -Ele está levando embora! Não o deixem levar! Segurem-no, por favor! Não faça isso comigo, seu biltre!
   Uma senhora, ajoelhada, amparava a mulher e, com voz caridosa, proferia palavras com a intenção de conseguir fazê-la acalmar para que pudessem entender o que tinha acontecido:
   -Minha filha, quem fez isso com você? O que aconteceu? Já pedimos ajuda, daqui a pouco a ambulância e a polícia estarão aqui... Eu vou ficar aqui com você... Aquiete-se, por favor...
   Apesar dos pedidos da senhora, a mulher continuava aturdida e ansiosa, pedia sem cessar que alguém fosse atrás “dele”. Todos acreditaram que ela tinha sido vítima de um malfeitor que roubara algo de valor e que o sangramento teria sido feito pelo canalha que, talvez, por uma reação reflexa da mulher tentando evitar o assalto, não teve dúvidas em machucá-la para conseguir levar o que ela carregava.
   Elucubrações diversas eram feitas, alguns diziam ter visto um homem alto, moreno, de jaqueta preta a conversar com ela, depois houve uma ligeira briga corporal entre eles e logo depois os gritos, ela desabando ao chão e o meliante fugindo, inclemente.
   Um homem engravatado reclamava da violência que estava tomando conta da cidade, da falta de policiamento, da insegurança generalizada e outros engrossavam o coro.
   Minutos depois a polícia chegou juntamente com a ambulância. Fizeram rápidas perguntas a mulher, mas a mesma se encontrava desorientada demais para conseguir dar elementos precisos ou respostas lúcidas... Recolheram informações de transeuntes que testemunharam o ocorrido. Enquanto ela era colocada em uma maca para ser conduzida para dentro do veículo de emergência, uma enfermeira tentava recolher impressões quanto ao que tinha sucedido, seu nível de consciência, com o que ela fora atingida. Com manobras rápidas, a ambulância se pôs a caminho do hospital mais próximo.
   O que todos que estavam ali desconheciam é que aquele crime tinha sido premeditado a uns cinco meses, de forma meticulosa e fria.
Luiza, uma jovem de 24 anos, professora de português de uma escola pública, voltava para sua casa, onde morava com seus pais, depois de mais um dia de trabalho. Ela amava lecionar, adorava lidar com as crianças e continuamente mostrava carinho e zelo por seus alunos. A recíproca era verdadeira, pois suas crianças sempre retribuíam com gestos afetuosos sua dedicação e afabilidade.
   Ela admirava a sinceridade emocional das crianças. Quando elas não gostavam, não usavam de hipocrisia ou subterfúgios. Tentava lembrar, constantemente, quando foi que ela começou a usar máscaras, a disfarçar sentimentos de desaprovação, repulsa e tristeza. Sonhava em ser tão coerente em suas atitudes e palavras quanto era o seu coração de menina. Filha única, sempre foi mimada e protegida pelos pais. Cresceu sem grandes dilemas íntimos, jamais agüentara traumas ou prejuízos significativos, a não ser a morte acidental de seu cachorro de estimação. Foi seu primeiro contato com a perda inexorável e a saudade, mas seus pais logo providenciaram outro cãozinho parecido com o que ela tinha perdido. A dor foi aos poucos sendo suplantada pela presença do seu novo amiguinho de quatro patas e jeito brincalhão.
   No campo afetivo, ela namorava, desde a adolescência, um rapaz que era querido e aprovado pelos pais. Júlio era o que se podia chamar de “cara legal”. Gentil, romântico, religioso e solicito. Já formado, trabalhava com o pai num consultório odontológico. Faziam planos de se casarem em dois anos. Contudo, de um tempo para cá, Luíza se questionava secretamente se Júlio era mesmo o homem de sua vida. Ela, consumidora voraz de contos romanescos, se ressentia da ausência de paixão no relacionamento com seu noivo. Era tudo tão certo, tão previsível. Onde estavam aquelas reações excitantes e enlouquecidas que ela lia em seus livros? Seriam apenas manifestações utópicas das fantasias criativas dos escritores? Ela sentia carinho e bem-querer por Júlio, mas, como mulher, ele não a despertava para um mundo de sensações que ela sonhava adentrar. Nunca esteve apaixonada como as mocinhas das estórias que conhecia. Ainda era virgem, sonhava em se casar assim, imaculada. E isso não seria tão difícil; afinal, não sentia sua libido provocada pelas carícias do seu futuro marido. No fundo do seu pensamento ela se sentia mal quando Júlio tentava ser mais ousado. Cresceram juntos, o conhecia a tanto tempo que, ás vezes, sentia que praticava uma espécie de “incesto” quando o beijava e percebia-o mais aceso por ela. Jamais conversou sobre essas dúvidas nem com ele nem com sua mãe que, embora fosse muito unida a ela, era envergonhada demais para confabulações que girassem em torno de sexo e desejos e, na realidade, ela também o era. Sua melhor amiga, Fatinha, dizia que a invejava, pois ela tinha um homem bonito, amoroso, dedicado e aparentemente fiel aos seus pés, enquanto ela ainda se encontrava encalhada. Reclamava que só atraía cafajestes e casados. Vivia indo a cartomantes e fazendo todo o tipo de simpatias para seduzir um homem estabilizado financeiramente, livre, mão aberta e fiel, assim como Júlio. Ela sorria com as palavras da amiga. Talvez Fatinha tivesse mesmo razão em achá-la uma afortunada; com isso, ela se sentia mais culpada por não conseguir corresponder, na mesma medida, o amor que Júlio dedicava a ela.
   Luiza caminhava de cabeça baixa, completamente absorta em seus pensamentos e indagações quando ouviu uma voz se dirigindo a ela. Levantando seus olhos, ela se deparou com um homem moreno, alto trajando uma jaqueta de couro preta. Ela se assustou com aquela abordagem inesperada e o homem, percebendo seu alarme, sorriu e tentou tranqüilizá-la dizendo que só queria saber se ela conhecia a rua que estava no papel que ele lhe estendera. Luíza, quando apurou sua visão, sentiu seu coração disparar, não pelo susto, mas por uma invasão que vinha dos olhos e sorriso daquele homem. Sentiu-se sem chão, sua cabeça rodava e seu rosto ruborizou-se pela quentura que tomava conta de suas faces. Se ela pudesse descrever aquele homem, como faziam os autores de romance, ela usaria palavras como “patife sedutor”, “sem-vergonha apaixonante” ou, quiçá, “pilantra lascivo”. Mesmo perturbada por aquele homem, ela não deixou de achar graça em seus pensamentos. Recuperada do susto, ela pegou o papel da mão do rapaz e disse que a rua não ficava longe, aliás, ela morava na mesma e estava indo para casa. O homem perguntou se poderia aproveitar-lhe a companhia. Ela assentiu meio encabulada. Enquanto andava, o homem puxava conversa. Disse que se chamava Rodrigo e trabalhava como vigilante noturno em um condomínio de luxo. Era divertido, articulado e tinha aquele jeito de quem sabe o que fazer sempre. A seu turno, ela contou um pouco sobre sua vida e ela notou que Rodrigo não tirava os olhos de sua boca, como se ele quisesse devorar seus lábios, a cada palavra que saia deles. Quando eles chegaram à porta da casa de Luíza, na despedida, Rodrigo a beijou no rosto. Luzia, meio sem jeito, entrou para casa sentindo as pernas bambas e o coração pulsar acelerado. Definitivamente ela estava apaixonada! Seu corpo dizia isso, seus olhos, seu coração... Então era daquele jeito que uma mulher experimentava a paixão? Era um composto de sonho, medo, inquietação e vontade irrefreável de tornar a revê-lo. As horas, que até então eram tranqüilas, passaram a ser intermináveis. Ela, intuitivamente, sabia que voltaria a estar com ele, só não sabia quando isso se daria, então passou a ter pressa. Achava que estava perdendo o juízo e se percebia feliz por está daquele jeito. Seu sangue corria mais rápido, sua mente não conseguia pensar em mais nada que não fosse na figura magnética de Rodrigo.
   Ele, como Luíza previu, voltou a procurá-la com a desculpa de que estava passando por perto, a viu andando e resolveu acompanhá-la até sua casa. E assim passou a fazer todos os dias. O envolvimento efetivo não tardou a acontecer. A vida da jovem professora se transformou de forma avassaladora e repentina. Rodrigo lhe fez conhecer todas as sensações do corpo e mente. A encantava com palavras meigas e sedutoras. Ela se via cada vez mais presa àquela relação, não conseguindo mais manter seu compromisso com Júlio. Mesmo sob protesto dos pais, ela tomou coragem para romper com seu noivo. Sua alma estava completamente tomada por aquele sentimento forte e perturbador. Rodrigo parecia se mostrar do mesmo modo apaixonado; todavia, ele sempre dava um jeito de não conhecer a família de Luiza, chegando mesmo a sugerir que ela não contasse nada sobre o relacionamento dos dois.
   Com o passar do tempo, Rodrigo foi ficando diferente com Luíza. Passou a faltar aos encontros, dar desculpas que não convenciam. Não saiam juntos. O tempo era sempre escasso... Não tinha mais tanto desejo e carinho por ela. Passou a ficar impaciente, nervoso... Mesmo tentando não ver, Luiza sentia a mudança...
   Naquela manhã de segunda-feira, ele ligou para ela dizendo que precisa conversar. Marcaram de se encontrar no centro da cidade. Luiza se dirigiu ao local e o encontrou de pé com um ar preocupado. Sem preâmbulos, Rodrigo foi logo dizendo que não podia mais ficar com ela, pois era casado e a mulher dele estava muito desconfiada que ele a estivesse traindo. Disse que a amava, que lamentava aquela situação toda, mas não tinha a intenção de largar a mulher... Dizia sofrer muito, mas era terminantemente o fim para os dois. Luíza não acreditava nas palavras que ouvia, se arrojou contra Rodrigo dando-lhe tapas e gritando que ele não podia fazer aquilo com ela. Ele a empurrou e saiu andando rapidamente, se embrenhando por entre os passantes. Luíza não teve reação, ficou imóvel, mal conseguindo respirar... Enquanto a figura do seu amor desaparecia para sempre, ela sentia seu peito doído como nunca antes sentiu. Que dor era aquela? Seu coração tinha sido arrancado pelas mãos de um homem vil e sem caráter. Quis gritar por ajuda, pedir para que alguém o segurasse; que alguém recuperasse o seu coração que, sangrando, ele levava sob a jaqueta de couro preta. Atônita, ela pensava aquele tinha sido um crime perfeito... Não houve testemunhas... Ninguém soube do que se passava com ela, das promessas que só ela escutou... Nada foi escrito; as palavras se perderam no vento... Sem digitais, sem marcas que o comprometessem... Seu toque, sempre tão suave, não porque ele era terno, mas porque era um crápula que já tinha em mente tudo planejado... Nenhum vestígio poderia ficar... As lágrimas escorriam pelo seu rosto angustiado de forma silenciosa, discreta. Viu sua alma se ajoelhar, combalida pela agonia, no chão. Ela imaginou cenas, quis mendigar pela solidariedade de qualquer pessoa que pudesse estancar aquela hemorragia dolorosa. Polícia... Ambulância... Uma alma samaritana que a amparasse e acalmasse enquanto o socorro não vinha...
Zomer
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910647

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Sobre o autor
Zomer
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 32 anos
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