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A História de Todos Nós

Seus passos levaram-no ao quarto da avó. Parou diante da porta, indeciso. Aquele quarto que tanto o fascinava, pela simples razão de ser intocável, de ser proibido para ele. A avó, zelosa por aquilo que tantos anos se preocupou em guardar, como uma guardiã à porta de um santuário, não permitia qualquer invasão. Agora tinha a permissão, a carta, mas não sabia ao certo o que fazer. Quando menino, depois de muito solicitar, ela deixava-o entrar, mas era questão de minutos, ou seria segundos? Não tinha como calcular, eram momentos fugazes, raros, não tinha como retê-los em suas lembranças. Mas com o passar do tempo e da idade, mantivera-se mais criteriosa, para não dizer mais sistemática, e as permissões foram se rareando, até que se extinguiram por completo. O apego aumentara na mesma proporção que os dias e os anos iam ficando cada vez mais longos e monótonos. A monotonia vinha da saúde precária e os dias longos da dificuldade de andar. Num belo dia, veio a falecer. Belo, pois era um céu azul como a muito não se via nesses dias cinzentos. Morreu dentro do quarto, agarrada aos seus pertences. Mas, o que mais intrigou o neto foi vê-la entre outras coisas, com um livro de capa vermelha sob o braço. Na verdade não viu, contaram-no. Não ousou entrar no santuário após sua morte, mesmo tendo a carta em suas mãos. Muito demorou até que voltasse à casa da avó, que agora pertencia a uma das filhas, Margot.
Margot tinha filhos e os filhos gostam de aniversários, então convidou os parentes para festa de aniversário da caçula. O convite foi feito dois meses após a morte de Florinda. Chamou os mais próximos e a ele, que era um sobrinho muito solicito e apegado à avó. Ele resistiu, não queria se ver naquela casa tão sedo e ademais achava um desrespeito com a morta fazer uma festa tão próxima ao seu enterro. Mas a tia insistiu, disse que tinha algo a lhe falar. Margot o chamou de lado assim que pisou no assoalho antigo e lhe segredou: “Pedro, sua avó lhe deixou uma carta.” Em princípio não se deu conta do que poderia ser, mas não ficou tão surpreso como deveria ou como poderia ficar diante de tal fato. Entregou-lhe um envelope amarelado e um tanto sujo, apesar da avó não ter morrido há tanto tempo assim e afastou-se, num gesto respeitoso, de quem não quer invadir a privacidade alheia. Pedro procurou um cômodo da casa que pudesse ler sem atropelos, enquanto os demais convidados procuravam lugares para sentar e conversar. Abriu o envelope e pôs-se a ler. “Querido neto. Sei que fui cruel com você e o maltratei silenciosamente diante de suas súplicas e pedidos, mas foram atos de uma velha que estava apenas querendo guardar um tesouro que a muito me haviam confiado. Lá não estão objetos quaisquer, como se fosse um quarto de despejo. O único despejo que poderia existir seria eu, fora isso nada mais tinha que pudesse ser descartado. O tesouro que me refiro é muito valioso para deixar em quaisquer mãos. A única pessoa a quem posso confiar a continuação desse trabalho é a você. Essa carta está sendo escrita em tempos passados mas pode ser em tempos presentes, isso não importa. O que importa é que estou lhe dando a guarda do quarto e de seus pertences. Você o merece, provou isso nesses anos de dedicação e perseverança, quando essa velha raquítica e caquética impunha à sua curiosidade a sofreguidão e o desalento. Mas não fiz por mal. Talvez já devesse estar caducando e não me dava conta. Mas siga o seu coração e sei que me perdoará. Estou sendo franca meu querido e por favor não pense que eu não o amei. O meu silêncio era uma arma; arma contra a vontade de lhe contar tudo que queria mas não achava o momento para fazê-lo. Deixo-lhe essas humildes palavras e faça do quarto o seu reduto, o seu lar e sua vida. Habite-o. Tenho certeza que fará por merecer essa confiança e que saberá dar continuidade a algo que custou o tempo de muitos, mas também o prazer e a alegria de fazer o que fizeram. Com amor. Florinda.” Chorou e um borrão se desenhou em meio às belas palavras e grafia de sua avó. Enxugou as lágrimas e saiu pelos fundos para que ninguém o visse.
Por muitos dias ficou acabrunhado, sem entender o que havia se passado. Calou-se, ele que gostava de uma boa conversa. Manteve-se em seu canto, as pessoas ao seu redor estranhando aquele mutismo, mas respeitaram seu silêncio. Demorou, mas se refez, criou ânimo e retornou á casa. Sua tia havia saído mas deixou as chaves a seu pedido. Queria conhecer o quarto, dissera. A tia nada se opôs. Entrou sorrateiramente, em silêncio, assustado, como se fosse ainda criança e sua avó viesse repreendê-lo por estar invadindo o seu domínio. Foi se aproximando pouco a pouco, medindo os passos. Um arrepio subiu pelo corpo e sentiu um leve hálito, e ele sabia que era dela, mesmo sem nunca ter essa proximidade, pois sua austeridade não o deixava. Após sua morte ninguém entrara no cômodo. Ela fizera esse pedido aos filhos e solicitara esse cuidado a quem fosse morar ali. Junto a esse pedido deixou algumas recomendações. Entre outras coisas o cuidado com seus animais, como pássaros e cães; suas plantas que adornavam em volta da casa e entregou o envelope dizendo que era para ser entregue a ele. Agora estava ali, diante da porta que tanto rogara para entrar e não tinha coragem para fazê-lo. Respirou profundamente e adentrou. Acendeu a luz e seu olhar abarcou todo o quarto como se quisesse decifrá-lo numa única olhada. Conteve a ansiedade. Não era muito grande nem muito pequeno, mas o bastante, porém, para guardar uma estante com inúmeros livros e uma mesinha onde provavelmente teria escrito a carta. Lembrou-se do livro em seus braços que encontraram quando de sua morte e os comentários que fizeram a esse respeito. Não parecia ser um livro qualquer, mas não deram detalhes que o pudesse esclarecer sobre o objeto. Enquanto determinadas coisas as pessoas ignoram por completo, não há nada que altere seu cotidiano pobre de paixões e de acontecimentos; nada lhes acontece que não seja como os animais: comem, dormem, fazem suas necessidades e morrem. Basta que algo seja levemente colocado em questão, que aguce sua curiosidade e sua vida se transforma. Pedro sentiu se desperto por aquele livro. Queria achá-lo mesmo sabendo que não seria fácil. Mas a descrição que haviam feito, capa dura, vermelha, com letras de forma cor de ouro dava lhe certa idéia.  Aproveitou para olhar os demais volumes. Eram muitos. Não saberia dizer quantos. Nunca ninguém teve o trabalho de fazer a contagem. Só ela poderia saber e ele, se lhe tivesse dado a oportunidade para isso. Os títulos eram variados e os autores diversos. Eram duas prateleiras de lado a lado do quarto, com um pequeno canto reservado para a escrivaninha. Passaram-se horas e nada de encontrar o referido livro. Mas a culpa era sua, pois parava a todo o momento para folhear um ou outro livro que lhe chamava a atenção e o tempo ia passando sem que notasse. Quando a fadiga já lhe tomava conta, deslumbrou uma capa mais brilhante do que as outras. O volume estava um pouco torto, destoando dos demais, bem enfileirados. Foi um dos filhos, pensou. Ela não deixaria ficar desta forma, dando um ar de desleixo. Era cuidadosa. Pegou o volume e o colou sobre a escrivaninha. Agora pode notar com maior cuidado e viu que o livro tinha uma dimensão maior que os demais. Deveria ter notado-o logo, mas a ansiedade não deixara. Abriu o volume e notou com surpresa que não era bem um livro e sim um diário. Mas não era um diário, era, poderia supor um esboço de um livro. O título: A História de Todos Nós. Ficou intrigado. Abriu-o e começou a ler as primeiras páginas. No ano de 1913, no primeiro dia do mês de fevereiro, atravessando o oceano em noites e noites intermináveis, seguíamos para o Brasil. Nosso navio saíra de Gênova, Itália, há dez dias e as perspectivas de chegada ao nosso destino eram duvidosas. Poderia demorar semanas ou meses, era preocupante. Pessoas doentes ficavam aos cantos esperando a morte ou a ajuda de alguém. Invariavelmente a primeira sempre chegava antes. Seus corpos eram jogados ao mar, não tinha como carregá-los por tantos dias. Poderia propagar doenças. Eu, Giuseppe e os demais agüentávamos firmes. Não sei até quando. A comida era escassa, mas nossa situação na Itália era pior.
A noite chegou sem perceber; a leitura o havia prendido naquela mesa como uma teia de aranha prende sua presa. Estava desnorteado. As sucessões de fatos, pessoas que iam se desenhando á sua frente; antepassados que ressuscitavam das páginas que sua avó tão carinhosamente guardara. Sua tia e as primas chegaram e ele ainda se encontrava ali. Disse que estava arrumando os livros nas prateleiras, sem que eles percebessem sua emoção. Voltaria no dia seguinte. Voltou. Passou a ler cada vez mais ansioso. As páginas davam um panorama de toda a família. Desde a vinda da Itália, até os tempos mais recentes. Sua avó talvez pretendesse continuar muito ainda, mas a morte lhe tolheu a vontade. Terminava no exato momento em que redigia a carta. Finquei inquieto. Aquela carta. Confiar lhe a continuação desse trabalho. Procurou dissuadir dessas idéias. Mas continuou a suposta faxina. Na verdade nada precisava ser limpo, pois tudo estava em plena ordem e limpeza. Ficava ali folheando os volumes. Lia as páginas de um, lia as páginas de outro. Apenas pelo prazer de se manter ali, próximo aos pertences dela. A certa altura o livro caiu da estante. Após sua leitura o guardara de novo no mesmo lugar em que estava, mas com um pouco mais de capricho. Trouxera-lhe um século de história, não só de sua família, mas de toda uma geração. Acontecimentos políticos, revoluções, aspectos filosóficos e científicos. Impressionava os seus conhecimentos e sua lucidez para cada fato narrado e cada acontecimento descrito. Para cada fase parecia mudar a grafia, contudo, sempre bela. Era mesmo uma obra a ser publicada. Mas não terminara.
Numa dessas noites teve um sonho que o deixou amargurado. Sua avó aparecia nele e soluçava, como se a magoasse, como se não tivesse ouvido suas preces. Ficou deprimido. Ela lhe herdara todo seu patrimônio, toda sua história, todos os seus segredos, mas ele não estava a altura de sua guarda. Nas últimas páginas descrevia sobre ele. Falava de suas investidas, seu silêncio implorativo, suas indiretas ouvidas e a indiferença fingida; a indiferença no início e o amor declarado na carta. Começou a ficar bisonho, seu corpo já resistia a entrar no quarto. Perdia o sentido. O que fazer? Não lia nada, apenas ficava ali a brincar com as páginas que nunca chegavam ao fim. Sua tia olhava-o meio desconfiada, achando talvez que não estivesse bem. Um rapaz trancado dentro de um quarto com livros antigos, que coisa estranha, deveria pensar ela. Mas ele não se importava. Suas primas caçoavam dele, dizendo que parecia um padre enclausurado. Deu as costas. O volume novamente veio a cair. Pegou-o e o colocou sobre a escrivaninha. Folheou-o inteiro. Grafias diferentes para cada fato específico. Pareciam muitas mãos trabalhando através de uma. Foi às últimas páginas. Lá, como antes, a referência à carta. Um arrepio subiu pelo corpo. O mesmo arrepio de quando entrou ali pela primeira vez após sua morte. A grafia diferente, o trabalho a continuar, fazer por merecer; a avó chorava ante a indiferença de suas preces; fazer por merecer; trabalho a continuar. Pegou uma caneta e, seu corpo todo em êxtase, pôs-se a escrever: Seus passos levaram-no ao quarto da avó. Parou diante da porta indeciso.



               



Odair Albuquerque
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1911066

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Comentários
07/11/2009 22h47 - Roberto Pelegrino
Olá Odair, passei para le o seu belo trabalho e lhe desejar muitíssimo sucesso!

Sobre o autor
Odair Albuquerque
Penápolis/SP - Brasil, 39 anos
9 textos (337 leituras)
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