De onde é que eu te conheço mesmo?
Olho para o tecido surrado daquele sofá e no mesmo momento, lembro que prometi algum dia cuidar daquela parte da casa, mas eu nunca tenho tempo para isso.
E o gasto visível daquele móvel onde costumo desperdiçar alguns pares de hora em frente à TV assistindo a minha própria vida passar, não parece me incomodar muito. Não naquele momento!
Hoje não assisto TV, continuo a contemplar o tecido velho do sofá mesmo que não haja muito espaço para isso, porque tenho companhia.
Companhia estirada no mesmo espaço que eu, mas que não parece compartilhar o mesmo ambiente que o meu, porque ele lê. O que não é nenhuma novidade, mas ele lê. E isso agora me incomoda.
- Por que você lê sempre os mesmos livros?
No momento da pergunta há uma troca de olhares. Ele esquece a leitura e eu, o sofá. Mas é isso só no momento da pergunta, porque na resposta já estamos de volta aos nossos interesses.
-Eu não leio sempre os mesmos livros.
Típico dele. Negar todas as coisas que afirmo. E o silêncio da casa me faz pensar em coisas bobas como: o dia em que fizemos nosso mapa astral e acabamos descobrindo que capricórnio é o signo ideal para ele se relacionar. Mas ele insistia num cinismo só dele que era o nosso que tinha que ser.
E vendo aquele ser teimoso e orgulhoso mergulhado nas leituras de sempre, volto a achar que capricórnio é mesmo a melhor opção para a vida dele.
Ao mesmo tempo me vejo fitando-o da cabeça aos pés, e em instinto espontâneo até demais, arranco o livro das mãos dele.
-Que capricórnio o quê... Você é pra lá de meu...
-E você... Pra lá de louca.
Sorrindo um para o outro, deixamos o silêncio chegar.
-Essa não deveria ser a deixa para você me beijar?
Depois de atender ao pedido dele, dou uma risada sínica porque sei que aquilo o deixa no mais alto grau de sua timidez. O bastante para começar mais uma de nossas conversas em forma de provocação bem humorada.
- Sabe que eu não gosto que ria da minha cara...
- Não to rindo da tua cara, louco.
- E agora me imita....
-No quê eu to te imitando?
- No da tua cara...
- Você tem sérios problemas e um deles é essa certeza sem fundamentos de achar que o mundo gira em torno de ti.
- Fez de novo...
E agora ele já estava rindo daquilo, porque “aquilo” serve mesmo para rirmos um do outro.
E é certamente esse o motivo que faz com que nossos signos combinem, não dando nenhuma chance a capricórnio.
-Você me chama de neurótica, mas tem mania de perseguição, percebeu?
-Eu sabia que nunca daríamos certo...
- Pois é... Você é errado demais. Do time de futebol a arrumação dos seus CDs, que ninguém consegue entender.
- É que a única pessoa que precisa entender alguma coisa sobre os meus Cds, sou eu mesmo.
- Típico de alguém tão egoísta.
- E tem mais.... Eu me recuso à discutir futebol com você... loser.
Provocação futebolística- tenho de concordar- é nosso melhor assunto para grandes discussões. E como esse tópico ele domina como ninguém, fingi não ligar e mudar logo de assunto.
- O que você quis dizer com “sabia que nunca daríamos certo” ?
- O que você acha que eu quis dizer?
- Responder com pergunta não vale...
- Já chegou Escrito nas Estrelas na locadora...
- Não fuja das respostas, Fernando.
- Não fugi das respostas, apenas estou te avisando porque você gosta desses filmes “água com açúcar”...
- Sou eu que gosto? Nós vimos esse filme no cinema...
- Eu não. Eu dormi durante toda a sessão.
- Mentira. Logo depois que saímos do cinema e fomos àquele café perto aqui de casa , você divagou sobre a história a noite toda...
- Você deveria mesmo parar de tomar café, Ale.
- E você deveria parar de mudar de assunto a todo segundo...
- Na verdade quero continuar minha leitura, posso?
- Você já leu esse livro umas 4 ou 5 vezes....
Sem querer voltar ao começo da conversa, ele põe a leitura novamente enfrente aos olhos e os pés no meu colo. Vou dividir minha atenção entre o velho surrado sofá e as meias brancas que ele põe para esconder todas as pancadas que carrega no futebol com os amigos toda terça-feira.
-Você tem sorte.... Eu vim com a coleção completa do Belle & Sebastian.
- Então você também tem sorte pelo mesmo motivo. E como eu devo ter alguns b-sides a mais, isso significa que você tem muito mais sorte. Eu vim mais completo.
- E mais convencido também...
- Foi você quem começou...
- Começou o quê? O nosso namoro?
- Não, essa conversa. Quem começou o nosso namoro fui eu...
- Quando? Você é péssimo para iniciativas....
- Mas se eu não fosse te ligar, nunca falaria comigo.
- Partindo do princípio que eu não tinha seu telefone, tem razão.
- Não precisava ser por telefone.
- A sua timidez básica nunca me permitiria tal abordagem...
- Eu não fui tão tímido assim...
- Não.... Imagina. Até hoje não sei se você mais cruzou os braços ou olhou para o chão quando nos encontramos pela primeira vez.
- É...mas fui eu quem te pedi um beijo.
- É. Pediu. Porque se fosse eu, não pediria nada, tinha roubado esse beijo.
- E por que não fez?
- Mas me diz uma coisa. De onde mesmo que foi que eu te conheci?
- Não faço a mínima idéia, só sei que eu já tinha você nos meu sonhos há séculos.
si anjos
Publicado no Recanto das Letras em 08/11/2009
Código do texto: T1911237
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