Texto

Levada da breca

Veio a noite...a madrugada...a manhã....
O minuano assobiando e a grama verde coberta pela geada branca. O galo canta a canção matinal e aos poucos a casa acorda para cumprir mais um dia.
Era aniversário do menino Flávio; ele amanheceu ansioso, não queria ir para a escola, não queria saber dos beijos, do bolo e nem tão pouco dos brigadeiros,  ele apenas pensava no seu presente.
Papai comprou uma linda bicicleta.

Eu tinha apenas três anos e Flávio sete. A alegria estava nos
olhos daquele menino. No quintal da nossa casa ele exibia seu
novo brinquedo. Rapidinho aprendeu a andar de bicicleta.
Eu, uma menininha curiosa queria muito dar uma voltinha
com aquela biclicleta. Flávio ciumento sempre dava um jeitinho
de me tirar de perto dela. Uns empurrões e alguns beliscões, impuseram respeito, mas por pouco tempo.

Beliscão nenhum foi capaz de superar a minha teimosia e tramei com meus pauzinhos. Planejei direitinho como iria dar uma voltinha naquela bicicleta linda.  Fiquei esperando Flávio pegar sua bicicleta, corri e agarrei sua garupa, segurei firme e me deixei arrastar, ele tentou pedalar cada vez mais rápido, eu agarrada como se repetisse: _ daqui ninguém me tira, daqui ninguém me tira!

Subiu a rampa com tudo e seguiu para o meio da rua. Eu com apenas três anos, persisti no meu sonho, e não soltei, fui no embalo das suas pedaladas e nem percebi o bichão enorme que estava para me engolir...

Quando percebi estava dentro da barriga do monstro. Ouvia apenas gritos e um homem enlouquecido puxando meu corpinho para fora daquele bichão.

Fui atropelada, fiquei embaixo do eixo dianteiro do caminhão, cai retinha e não sofri nenhum arranhão. Pálida e assustada  comecei a chorar, querendo minha mãe.

O Caminhoneiro gritou, xingou tanto e minha mãe ouviu calada.
Pobre mamãe nem imaginou que suas crianças estavam na rua.
Pobre homem, estava tremendo.

E quem pagou o pato foi o coitado do meu irmão, perdeu sua
linda bicicleta. Papai enfurecido, pendurou a bicicleta no teto da casinha guarda-trecos. Ninguém ousou discutir suas ordens.

Flávio me odiou, foram tantos os beliscões, até o dia da sua vingança:
Eu, Flávio  e Lígia fomos brincar na casa do vizinho japonês, os cachorros ferozes escaparam, todos fugiram, pularam o muro e eu tão pequena e indefesa, fui o almoco das feras. Fui socorrida pelos japoneses, mordida até o dedão do pé, fiquei dias na cama.

Eu poderia ter morrido ao três anos. Escapei da morte duas vezes. Meu anjo da guarda é poderoso... Aquele ódio permanceu até o dia que vovó lhe deu uma luneta, enquanto vasculhava o céu com sua luneta, ele repetia, se você chegar perto das minhas estrelas, eu te mato, juro que te mato.

Por dois anos a linda bicicleta ficou naquele lugar, todos os dias
Flávio foi até a casinha olhar seu brinquedo. E num desses dias percebeu que a corda estava podre e a bicicleta estava preste a cair.

Menino sempre é danado, ele subiu pelos caibros, alcançando a bicicleta, chaqualhou seu brinquedo, forçando sua queda. Pobre bicicleta, estava em péssimo estado. Os pneus podres,  e com certeza papai não compraria pneus novos.

Nos olhos do menino o mesmo brilho de dois anos atrás; lavou, poliu, coloriu e sua colorida bicicleta ficou mais colorida com os adesivos da sua banda predileta, e voltou a pedalar naquele  zigue-zague  ritmado, enquanto as estrelas dormiam no céu.

Os pneus danificados, não aguentaram seu peso, ficando apenas os aros, e mesmo assim o brinquedo fazia o menino feliz.

Eu sempre atrevida, insisti naquele sonho, mesmo com as ameaças de morte. Determinada, encarei a bicicleta, aproveitei o momento que Flávio estava na escola. O brinquedo era toda meu, mesmo sem pneus eu arrisquei, embarquei naquela aventura, queria aprender a andar de bicicleta e fazer zigue-zague no mesmo ritmo do menino.  Foram dois ou três dias e depois de levar muitos tombos, muitos arranhões, eu finalmente consegui andar de bicicleta.

Flávio só ficou sabendo, quando espiando as estrelas me viu pedalando ao lado delas no céu.

Até hoje escuto seus gritos: Eu te mato, eu te matooo!





Sonia Ortega
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991384

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Comentários
21/05/2008 02h30 - gaivotadourada
Querida Poetisa... Uma delícia este teu conto...são aquelas mágicas que a nossa visualização nos coloca novamente nos mundos da infância, e realmente tornamos a existir lá, e viver outra vez esses instantes, pois fazem parte de nosso Eu! Parabéns e obrigada a compartilhar um pedacinho desse teu Mundo! Abraços!
20/05/2008 16h30 - Claraluna
Linda Flor de Cerejeira/Que gera uma outra flor,/Quero nesta terça-feira,/Reafirmar-te meu amor.///Boneca de porcelana/Encanto dos olhos meus/Com fio de filigrana/Desenhou-se os olhos teus.///És poeta, mãe, amiga,/Vim aqui pra ti ninar/Enquanto dormes, querida,/Até ver-te o despertar.///Tu que vives no futuro/Difícil de se explicar/Um bom dia eu te auguro/Com essa canção de ninar...///Beijos da mamma, veinha
20/05/2008 11h47 - meriam lazaro
~*~ Olá, Sonia! Uma bênção do Pai foi acordar hoje e ver teus comentários em minha página. Eu também gostei muito do "Aprendiz de Sonhador". Comentei lá na Malu, no poema dela "Mistério", que contém poesia dentro de poesia, que eu havia feito um assim meio sem querer. Gostei da brincadeira. ~*~ Beijos, querida, fique com Deus. Meriam

Sobre a autora
Sonia Ortega
Japão, Escritora Amadora
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2 e-livros (65 leituras)
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