SANGUE E SEDUÇÃO VII
6. Morte Certa
Entreabri meus olhos e vi o céu azul além das copas das árvores. Me guindei do chão, tropegando para os lados, batendo nos carvalhos mais próximos. Ainda estava na floresta, tinha adormecido junto de um tronco retorcido e cheio de limo. Atrevessei a mata, desviando dos arvoretos pouco floridos, rumando para a clareira mais a frente, onde as chamas de uma fogueira fraca refletiam sombras bizarras nas folhagens ao redor. Afastei os cipós que desciam dos caules mais altos, e antes que pudesse chegar as vistas dos outros dois, tombei de lado no chão, a bota presa no vão entre duas pedras.
-Ela é sempre desastrada assim? – perguntou o homem de costas para mim.
Learco não respondeu. Correu até mim e amparou-me com os braços. Dando tapinhas leves em minhas costas, ele me fez parar diante do amigo.
-Me parece melhor – disse ele, simpático – o que você acha?
Eu espiei o rosto do novo companheiro de Learco, e quando a cabeça dele moveu em minha direção, vi novamente aquele par de olhos grandes e perolados tentando me invadir, roubar minha alma. Asfixiei devagar, o cérebro parecia ter virado de cabeça para baixo. Não consegui mais pensar.
-Faça ela respirar. De nada nos vale morta – o outro deu de ombros e desviou a atenção para as toras de madeira que estalavam e queimavam em brasa.
Learco ajudou ajudou em minha recuperação. Quando meus sentidos voltaram, uns poucos minutos depois, sentei-me a seu lado e fixei nas chamas que ardiam no meio da clareira. Estava muito consciente de que se voltasse a examinar os traços bem delineados de nosso novo companheiro, cedo ou tarde perderia a concentração e tentaria me matar involuntariamente mais uma vez.
-Alorah, esse é Dimitri. Ele será nosso guia até Perollyes – Learco respondeu a pergunta que há muito preenchia um espaço considerável dentro da minha cabeça – como ele é um elfo, vai precisar de um tempo para se acostumar com ele. Por enquanto acho mais seguro vocês não ficarem próximos.
O guia levantou-se num salto suave, quase imperceptível. Eu notei que estava de pé porque sua sombra projetou-se a minha frente. As botas bateram firme na terra, fazendo-na vibrar de leve. Ele afastou-se para além da mata, desaparecendo de vista. Suspirei, aliviada. A presença dele estava me deixando tensa, agoniada.
-Como se sente? – perguntou-me Learco, rindo amistosamente.
-Estranha – confidenciei – por que não posso olhá-lo?
-Bem – Learco suspirou e afastou as mechas que lhe caíam sobre os olhos claros – ele é um elfo, e como todo elfo, tem dons diferentes, além da compreensão humana.
-Quando olho pra ele, sinto minhas forças saírem pelos poros da pele – murmurei, apreensiva. Olhei por cima dos ombros, temendo que o tal Dimitri estivesse por perto, captando minhas palavras. Encolhi de medo, imaginando o que ele poderia fazer comigo se ouvisse aquela conversa – é uma coisa estranha...parece que...que eu tento me matar contra a minha vontade. Isso é possível??
-É exatamente isso – Learco inclinou a cabeça – veja bem, Alorah, um elfo possui dons que você não pode nem imaginar. E é por isso que vivem longe das cidades, para não serem usados em outros fins. Um dom especial que os elfos possuem é conhecido como Morte Certa.
-Morte Certa? – repetiu, analisando.
-Isso – confirmou Learco – a Morte Certa é mais usada para defesa. Veja, apesar dos poderes que têm, os elfos pouco podem fazer quando são capturados. Como criaturas pacíficas, eles não podem matar. Tirar a vida de algo ou alguém vai contra a Lei de proteção máxima que seguem, e a punição para os que se voltam contra as Leis é a morte.
-Se um elfo mata algo ou alguém, morre junto? – indaguei, perplexa.
-Sim – confirmou meu amigo – então, para se defender ou mesmo salvar a própria vida, os elfos desenvolveram uma habilidade extra, passada de geração a geração. Um dom natural, involuntário.
-A Morte Certa – respondi, um pouco mais esclarecida.
-Exato – Learco balançou a cabeça – A Morte Certa é a única maneira que os elfos encontraram para se proteger, sem atravessar as Leis criadas por seus antepassados. Ela consiste em fazer o inimigo se matar espontaneamente. Na verdade, ele não percebe o que está acontecendo.
-É uma maneira cruel de morrer – comentei, sombria.
-Tem razão, mas sem ela, eles seriam escravizados, mortos, extintos – Learco completou – Dimitri me contou que consegue controlar seu dom.
-Então por que ele tentou me matar duas vezes!!?? – exclamei num sibilo indignado.
-Na verdade, Alorah, ele não tentou te matar – murmurou Learco, pensativo – a primeira vez em que se viram, ele imaginou que você fosse algum intruso ou espião, e que estava seguindo seu rastro para capturá-lo. E na segunda vez, bom...
-Ele não gosta de mim – concluí quando Learco franziu o cenho, confuso – pelo menos ele sabe que não pode me matar...ainda.
-Não se preocupe. Vocês só precisam se acostumar um com o outro – riu-se ele, simpático.
-Devemos partir.
Eu sobressaltei com o susto. Dimitri atravessou a mata num silêncio absurdo e parou atrás de mim. Quando virei para espiá-lo, ele não estava olhando em minha direção. Mantinha-se concentrado em Learco, decidido a ignorar minha presença. Pude então examinar melhor sua fisionomia. Ele era alto, um palmo mais baixo que Learco. Forte, a capa verde-esmeralda escondia as vestes de couro e seda branca que usava. Seu rosto, claro e translúcido como uma folha de papel, nariz fino, assim como os lábios. Os cabelos caíam-lhe sobre o rosto e ao longo das costas, bem amarrados, de um louro-platinado muito liso, ondulando com a brisa gelada. As orelhas pontudas, característica marcante em todos os elfos, escondidas por debaixo das mechas, as sobrancelhas finas. Dimitri lembrou-me um humano, mas um humano nunca poderia alcançar as habilidades supremas de um elfo. A beleza deles ultrapassava os limites da imaginação.
Thammi Lima
Publicado no Recanto das Letras em 12/10/2008
Código do texto: T1224581
Copyright © 2008. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.