O Pergaminho Esquecido
Kzar parou diante da bifurcação na trilha da montanha e refletiu.
Por doze meses, ele percorreu o mundo em busca do pergaminho esquecido: havia enfrentado bandidos, gigantes, dragões, feiticeiras e necromantes. Organizando as peças deste quebra-cabeça sem fim, tentando encontrar a pista definitiva, que lhe indicasse o paradeiro da relíquia.
O último adversário — um elfo negro — só revelou o que sabia após tortura. Kzar, sempre um nobre combatente, não se reconhecia nos métodos que tinha de utilizar. Para alcançar seu objetivo, tinha de jogar o jogo dos inimigos.
— No cimo da montanha... — o elfo murmurou, enquanto sua vida se esvaía junto ao sangue que jorrava dos membros decepados — É lá que está o que busca.
Mas agora Kzar estava diante dum impasse — a bifurcação na trilha da montanha. Um dos caminhos levava para cima, para o cume, para onde jazia o pergaminho, o outro levava para o vale, para a cidadela, para onde moravam sua família e amigos.
— Doze meses! — Kzar arfava — Doze meses longe dos que amo! Vale a pena tanto esforço por causa dum mero rolo de papel?
Esta era a pergunta que ele se fazia desde o primeiro dia em que partiu em viagem. Não sabia qual era o conteúdo do pergaminho, mas os boatos diziam que quem o possuísse dominaria céus e terra, seria louvado pelas nações, sua fama seria eterna.
— Vale a pena? — Kzar repetiu, e sua voz retornou em ecos pela imensidão. Veio-lhe à mente o rosto da esposa e dos filhos: Lívia faria aniversário em poucas semanas e Kalel já deveria estar aprendendo o manejo do arco com o avô. Recordou-se dos anos que se refugiou no pastoreio, para escapar de seu destino de guerreiro. Mas não se pode fugir de sua natureza, ele concluiu, e viu mais sangue nestes últimos meses do que em toda sua vida pretérita. Mesmo que eu jamais obtenha o pergaminho, meus feitos serão cantados pelos vates. Derrotei os mais temidos oponentes, pisei nos territórios mais longínquos, vi coisas que outros olhos não sobreviveriam para ver — Basta! — Kzar se decidiu — Voltarei para os meus.
O herói desceu a montanha e chegou à cidadela. Foi saudado com festividades nunca vista antes naquela região.
Kzar retornou à vida pacata, dos dias sem surpresa, mas de afeto e conforto. No entanto, todas as noites, após seus filhos terem ido dormir, após ter amado sua companheira, Kzar subia ao sótão e narrava suas histórias em pergaminhos que seriam encerrados num baú.
Numa destas histórias, ele narrou a decisão diante da bifurcação na montanha, mas, apenas desta vez, ele optou pela trilha do topo e dos perigos que guardavam o pergaminho esquecido, dos monstros que enfrentou lá em cima e da grande glória obtida.
O que Kzar não poderia esperar é que, um dia, durante uma faxina, sua esposa encontraria o manuscrito e, impressionada com a história, a mostraria ao sábio da cidade, que levaria ao Duque, que, por sua vez, ordenaria a impressão e encadernação daquela história em códices.
Kzar jamais havia visto ou conquistado o pergaminho esquecido, mas a história que ele escreveu conquistou os ouvidos e corações de todos os povos e, hoje, ela é até mais conhecida do que a lenda do pergaminho: as aventuras de Kzar são contadas nas praças públicas, para crianças antes de elas irem dormir, nos teatros e nos salões da corte.
A imaginação venceu o pior dos inimigos — a realidade.
Henry Alfred Bugalho
Publicado no Recanto das Letras em 25/12/2008
Código do texto: T1352705
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