O Pulo do Gato em Chamas
Esclareço aqui para vocês, o voto de castidade que o gato Fanjo fez.
Desde que nasceu, jurou guardar à contento seu falo, seu vulto. Vulto, porque por não conseguir se olhar por baixo, achava que tinha um troço insosso no meio de suas pernas. Não conseguia ver seu falo como os cachorros conseguem o ver quando arqueiam seus corpos junto aos postes e pernas amareladas de seus donos.
Por assim explicado, eis que surge um dia uma bela cachorrinha, gulosa que quase morde seu pinicoso. Neste dia homérico, o gatinho Fanjo, domesticado por si mesmo, sentiu algo diferente. Suas pupilinhas dilatadas quase lhe explicavam silenciosamente que não precisava enxergar para desejar. Foi assim, num rompante, que o gato antes calado, frígido (se é que pode-se dizer assim), impotente, estéril e intocável, começou a miar. E miava alto, quase gritando.
Todas as vezes que passeava, miava à procura da bela cachorrinha.
Em um dia atípico, que os pássaros não voavam no céu, e os homens com seus cornos evitavam a Torre Eiffél, o gato pulou, e em meio à turbulentas chamas instintivas, alçou vôo esplêndido ao mar, em que dizem que os peixes-pássaro anunciaram sua morte e lá se tornou eternamente deles. Os peixes-pássaro cuidaram de seu corpo. Um honroso destino para quem não conseguia destinar seu desejo. Conseguiu nadar e até voar!
Caio Garrido
Publicado no Recanto das Letras em 28/09/2009
Código do texto: T1836508
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.