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A MULHER DO TREM

Todas as manhãs a mesma cena se repetia, sob o estridente som dum antigo despertador, um objeto de família que ela herdara da avó..
Acordava às quatro da manhã acalentada pelo canto do seu galo esfomeado e desnorteado, que ciscava pelo quintal daquela sua parca casa de alvenaria, mais que improvisada, arranjada tijolo por tijolo adquiridos com anos e mais anos apenas do seu árduo trabalho.
Orgulhava-se do fato, pois sempre acreditou que "o pouco com Deus sempre é suficiente".
Então, automaticamente chacoalhava aquele cidadão ao seu lado, afogado entre altos roncos costumeiros, que acordava até a vizinhança.
Quase um desconhecido.
"Desafoga homem!", dizia ela pacientemente, como a rezar um terço em silêncio.... "vai acordar os vizinhos..."
"Num me enche o saco , mulher!", balbuciava o homem que há muito já lhe parecia um estranho e a quem ela heroicamente lhe conferia a condecoração de marido há quase vinte anos.
 Às vezes, durante a madrugada, acordava sobressaltada com fortes batidas da vizinha do barraco "parede- meia" com a sua cama, que estremeciam as frágeis estruturas do quarto.
"Ninguém consegue dormir aqui, fecha o bico!", proferia uma voz que vinha do outro lado da parede.
Mas por mais que tentasse, o "homem" continuava ali ,semi nu e inerte, a emitir um bafo do álcool pelo poucos metros quadrados da casa, bebida que ingerira naquela como nas tantas outras madrugadas de farra e de jogo.
Num curtíssimo espaço de tempo, se borrifava uma água no rosto, sorvia um gole café preto, de véspera e requentado, alinhava os cabelos, e carinhosamente despertava a filha "menorzinha", preparava a mala da creche próxima ao seu trabalho, dava as orientações aos maiores, lhes deixava sobre o fogão a comida que fizera à meia noite  e apressada saia para o trabalho de diarista, do outro lado da cidade, aonde chegava depois de quase duas horas de percurso de trem.
Ao sair, arriscava o olhar ao homem que desconhecia, inspirava um longo suspiro como quem busca por fôlego, e partia para a sua batalha de vida.
"Tenho sono, mamãe! mal falava a sua pequenina entre aquele chacoalhar dos trilhos e as batidas do seu coração, que ainda pulsava sob o peito túrgido que amamentava a filha de quase três anos.
"Leite de peito é de graça e protege contra infecção" era o que  aprendera a responder quando alguém lhe indagava do porquê da amamentação tão prolongada.
E assim seguia aquela "mulher do trem", que ia e vinha, e que depois  vinha e ia novamente, como um robô animado com um ralo sopro de vida.
Até que um dia alguém lhe enxergou...pelos trilhos...
Um simpático rapaz que a observava há tempos sempre lhe tirava daquele sufoco de seguir viagem em pé.
Naquele trem pouco adiantava o lembrete de " prioritário para mulheres com crianças de colo", porque ali, não havia espaço para se diferenciar desgraças maiores das menores, ainda que se soubesse ler.
Há situações nas quais não se prioriza desgraças entre desgraças, e era justamente ali que uma atitude de gentileza começava devagarzinho a devolver a vida...àquela tão pobre e desvitalizada mulher do trem.
Certa manhã, ela despertou a fazer tudo como sempre...mas sentiu que o galo cantou diferente.
Prestes a sair, ainda tentou reconhecer o mesmo homem.
Foi inútil, porque há aqueles que se perdem de nós para sempre e procurá-los é um ato em vão!
Então, no seu silêncio de sempre...entendeu.
Deixou sobre a mesa o dinheiro e as tantas contas a pagar, sobre o fogão o feijão e a mistura que restara do dia anterior e sobre a sua cama largou o  resto dos sonhos perdidos.
Ainda tentou pensar, mas também há situações que irrevogavelmente nos roubam a consciência.
Olhou para o Cristo da parede, e claramente percebeu que muito longe estava ela de ter a mesma força. A Ele orou a Lhe pedir por compreensão e perdão. Um pouco já lhe estaria de bom tamanho porque de nada tivera o muito.
Beijou os filhos entre poucas lágrimas, trancou a casa e saiu de volta para o mesmo trem de sempre... que agora rumaria por outros trilhos desconhecidos.
Nunca mais buscou pelo trilho da volta e depois daquela manhã o seu galo nunca mais cantou.

 Nota: Baseado em fatos reais.
MAVI
Publicado no Recanto das Letras em 01/11/2009
Código do texto: T1899559

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Comentários
01/11/2009 19h50 - Tom Oliv
Um belo conto! Triste mais real! Bem elaborado! Muito bom de se ler e tentar procurar entender, se é que se pode fazê-lo, devido o seu triste final! Uma beleza esta narração! Parabéns...
01/11/2009 19h07 - sandra canassa
Olá menina,final bem difícil,conto muito bem escrito,,,amei..beijus de luz.
01/11/2009 18h58 - Maria Iaci
Ficou muito bom o conto. Uma história semelhante a tantas outras, mas, quando descrita literariamente, ganha um colorido próprio e muito vivo. Parabéns.

Sobre a autora
MAVI
São Paulo/SP - Brasil, 49 anos
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