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O reino de Mordan

         (Parte I)
O reino de Mordan estremeceu naquela manhã. Os ventos mudaram a direção, o tempo triste parcialmente chuvoso refletia a mesma energia carregada no peito de cada cidadão, fosse camponês, fosse da alta nobreza. A primeira reação na vila principal do reino foi de descrença. Impossível um rei tão jovem e tão bondoso morrer assim, do nada. Continuariam a desacreditar na morte do soberano, caso o próprio não desfilasse com sua túnica vermelho-sangue nas exageradamente largas ruas da vila, impassível em seu caixão de ouro maciço e apregoado de pedras preciosas. Mais tarde, a poeira iria baixar e sem muitas opções, Ardinel, o filho mais velho, como era de se esperar, herdaria o trono. Não foi bem o que aconteceu.

Numa certa tarde de domingo, o mensageiro real chegara ao centro do vilarejo para notificar a todos sobre os fatos ocorridos recentemente no castelo do reino.

– Venham todos aqui, é necessário que sejam informados sobre o que eu tenho a dizer – gritou o mensageiro, na tentativa de acalmar a multidão que pouco a pouco se aglomerava e tomava proporções incríveis. O silêncio foi gradualmente enchendo o lugar. – Prestem atenção! Faz exatamente quatro meses que a nossa queridíssima majestade, que os deuses o tenham, deixou o nosso mundo. E os conselheiros reais já têm em mente o destino do trono do reino. – avisou o mensageiro em alto e bom tom para que todos os cidadãos, ou pelo menos os que estavam mais próximos, ouvissem suas palavras.

Houve um burburinho geral, não era necessário que os conselheiros decidissem os próximos capítulos daquela história. Todos do reino já sabiam muito bem que Ardinel iria herdar a hierarquia do pai, e isso não era fato tão sério que demorasse aquele tempo todo para ser discutido por eles. O próprio rei, quando vivo, havia mencionado inúmeras vezes nos seus discursos que fazia questão que o filho mais velho o substituísse caso não estivesse em condições de governar ou fosse impossibilitado do mesmo de alguma forma.

– Os conselheiros decidiram que os dois filhos do rei, Nicholas e Ardinel, dividirão o trono e poderão usufruir dos mesmos poderes que a sua falecida majestade portava.

Nem uma palavra sequer foi dita durante alguns segundos.

– Como é que aqueles porcos denominam-se conselheiros? Que idiotice é essa de dois reis? – esbravejou uma senhora lá do fundo, impulsivamente. A multidão a apoiou gritando.

– A decisão foi tomada, queiram ou não, e a mensagem foi dada. A vila receberá a visita dos novos potentados em breve, aconselho a recebê-los tão bem quanto o antigo rei – retrucou o mensageiro, ignorando a interrupção da senhora e retirando-se indiferente.

Aos poucos, uma expressão de horror foi dominando os rostos lívidos de cada mordanense ali presente. A idéia de Ardinel substituir o rei, fora facilmente aceita, mas... Dois reis? Inadmissível.  Que futuro teria um país comandado por dois reis? E pior, comandado pelo enigmático Nicholas que nunca quisera acompanhar o pai quando o mesmo fazia suas freqüentes visitas ao vilarejo, ao contrário do mais velho que sempre estava lá? O tempo talvez respondesse a essas perguntas, até porque, o mensageiro estava certo, não haveria nada que pudessem fazer para mudar aquela estúpida determinação outorgada pelos conselheiros.
O boato correu solto pela região e logo, todos os países vizinhos tomavam nota do único reino do mundo governado por dois reis.
Arthur Costa
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901168

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Comentários
13/11/2009 08h49 - Brian Lancaster
A idéia promete...não sou nenhum mestre em literatura, mas achei que ficou muito bem estruturado...Espero logo ler as continuações!

Sobre o autor
Arthur Costa
Natal/RN - Brasil
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