Texto

OS CAVALEIROS

   E eram dois.
   Chamavam-se Pensamento e Êxtase.
   Empunhavam espadas reluzentes, vestiam armaduras pesadas e, sentados sobre cavalos negros, corriam pelas terras e pelos reinos do mundo, sentiam o vento no rosto e a aventura no coração.
   E eram cinco, as donzelas.
   Dádiva,Doutrina, Paixão Vontade e Poesia.
   Buscavam-se através dos tempos.
   Buscavam-se.
   O homem, escrevedor dos mistérios, olhou para o mar à espera dos cavaleiros.
   À espera dos amores.
   Pensamento e Êxtase lutaram lado a lado em batalhas memoráveis. Amigos e irmãos. Sangue de sangue. Sangue com sangue. Sangue no sangue. Unidos.
   Dádiva era a mais jovem; Doutrina, a mais séria; Paixão, provocante e calorosa; Vontade, desesperada e impulsiva; por fim, Poesia, a mais bela e mais desejada.
   O homem, escrevedor dos mistérios, apertou olhos e mãos à espera.
   Buscavam-se através dos tempos.
   Buscavam-se.
   Pensamento enamorou-se de Dádiva. Teve-a com afeto e gosto. Com Paixão e com Vontade sucedeu-se o mesmo. Deram-se ambas ao cavaleiro. Deram-se inteiras. Sentiu ele cada carícia, cada gesto, cada pele. Ao ver Dádiva, submeteu-se a ela. Curvou-se e prometeu servi-la sempre e sempre. Dera-se, também, a compenetrada donzela.
   Mas eis que dois bravos guerreiros deitam os olhos sobre uma pérola. Ela. Ela só. Poesia.
   De paragens longínquas, Êxtase há muito não via Pensamento. Abraçaram-se. Riram. Beberam. Mas os olhos...
   Sentiam o desejo pela mesma mulher.
   Pensamento, marcado pelos amores antigos, queria mais.
   O outro, casto e silencioso, queria apenas um.
   O homem, escrevedor dos mistérios, ajeitou as folhas de papel sobre a mesa e trouxe para junto de si um grosso livro. À espera.
   Poesia. Seus lábios frescos e olhos precisos e longos cabelos convidavam para o mistério. O seu corpo todo era vibração, encanto, canção.
   Pensamento a queria. Mais uma: ela!
   Êxtase, igualmente. Apenas uma: ela!
   As espadas se levantaram e a fraternidade dissipou-se no ar. Dois corpos e dois braços se enfrentam com fúria. O som do metal irrompe... Manhã. A calma manhã transfigura-se em noite. Gritos, lágrimas, sangue. Sangue fora do sangue.
   Um cavaleiro tomba no campo. Uma armadura inerte. Morto já. Poesia se abaixa, retira-lhe o elmo e beija-lhe a face fria. Todavia, não chora, não está triste. Levanta-se e caminha em direção ao vencedor. Ela sorri. Êxtase a toma nos braços e ambos se encontram e se beijam e se amam...
   O homem, escrevedor dos mistérios, escreve embevecido. Absorto nos seus escritos. Alheio a tudo.
   Escreve.
CAMPISTA CABRAL
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1903087

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Comentários
09/11/2009 22h15 - Oswaldo Eurico Rodrigues
Que texto! Lembrou-me Marina Colasanti. Excelente!

Sobre o autor
CAMPISTA CABRAL
Teresópolis/RJ - Brasil, 36 anos
78 textos (1788 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 03:27)

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