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Sofrimento interrompido

"Vieste do pó e ao pó tornarás”, disse o pastor, diante do caixão em que jazia o corpo sem vida de Sofonias.

Cerca de cem pessoas assistiam ao féretro, entre elas a linda viúva, de trinta e cinco anos. Vestida de preto e com lindos óculos escuros a encobrir-lhe os olhos, não chorou em nenhum momento. Vez ou outra, insinuava secar uma lágrima com um lencinho branco, retirado da manga do vestido.

O coveiro parecia inquieto.

Ansiava por enterrar o defunto.

Havia dois outros para serem sepultados, com as covas abertas e os familiares em volta dos esquifes; e ele ainda iria encontrar a namorada à porta da necrópole. O rapaz prometera levá-la a um barzinho, onde curtiriam música sertaneja e tomariam algumas doses de conhaque, pois ninguém é de ferro, afirmava ele.

Os parentes do "de cujus" retardavam o encontro.

O ataúde permanecia aberto, enquanto eram prestadas as últimas homenagens ao falecido. Uma salva de palmas encerrou as exéquias. Terminada a cerimônia, o coveiro suspirou aliviado ao ver fecharem a tampa do caixão.

Um familiar saudoso abriu novamente o esquife para renovar as despedidas. O coveiro não gostou. Temia que a namorada, cansada de esperá-lo, cancelasse o encontro.

Ao lado da viúva, Eduardo, amigo do morto, fitava o chão de terra vermelha enquanto meditava sobre a vida. Pensava: “não farei como o Sofonias, que não cuidou da saúde nem adotou critérios saudáveis de vida. Era gordo e fumante inveterado. Não serei assim. Não fumo e sou abstêmio. Intensificarei os exercícios físicos, visitarei os médicos mais assiduamente e realizarei exames preventivos com maior frequência. Viverei mais que os trinta e nove anos do Sofonias”, concluiu, assustado por imaginar que o defunto lhe piscara o olho esquerdo.

O caixão foi finalmente fechado e iniciado o sepultamento. Concluído o enterro, a maioria dos presentes deixou o cemitério sob pesar intenso. Quase todos caminhavam lentamente com os olhos fitados no chão lamacento. Uns juravam mudanças no jeito de viver; alguns sentiam, aqui e ali, uma fisgada discreta e iriam ao médico no dia seguinte; outros se perguntavam: “teriam acesso ao Céu, quando morressem?”.

Eduardo entregou as chaves do carro à mulher, para que ela o dirigisse. Caminhou em direção ao automóvel estacionado junto a uma sepultura, na qual leu o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Emanuel, vítima de sua insensatez. A vida desregrada antecipou seus dias entre os viventes”.

A mensagem era clara.

Embora Eduardo não fosse um libertino que consumisse horas em bebedeiras homéricas, não fumasse e praticasse exercícios físicos, iria atentar para o recado consubstanciado no epitáfio gravado no túmulo do desconhecido Emanuel. Daquela data em diante redobraria a atenção e os cuidados com a saúde.

Na manhã do dia seguinte, foi ao cardiologista, fez exames ergométricos, de sangue, e testou sua capacidade respiratória. À tarde, foi ao urologista, o melhor da cidade.
O médico efetuou os exames sem-cerimônias; apalpou-lhe o corpo, livre de reclamações do paciente, que apenas negou ao doutor a liberdade de penetrar-lhe o ânus com o dedo, para examinar-lhe a próstata.

Não poderia consenti-lo. Como bom paraibano – “cabra macho, sim, senhor” –, isso seria impossível. O especialista explicou que o toque retal permitiria um diagnóstico mais confiável e que o câncer prostático era muito comum aos homens. Sem mais contestação, recolheu as pernas, dobrou os joelhos e entregou-se aos cuidados do experiente doutor.

Eduardo seguiu criterioso regime alimentar. Consumia frutas, legumes, verduras e cereais; desprezava carne vermelha, rica em gordura. Comia maçã, para proteger as artérias do coração; berinjela, para reduzir o nível de colesterol no sangue; tomate, para proteger-se contra o câncer... Sempre ia ao dentista para cuidar dos dentes. Frequentava academia de ginástica, teatros e shows culturais, esses últimos para livrar-se do estresse... Dormia cedo, fazia a sesta todos os dias e sexo sem muito exagero.

Não era fácil para Eduardo a rotina de exames médicos. Ele costumava dizer que era muito sensível à dor. Sofria antecipadamente a cada solicitação de exames. O médico talvez os solicitasse em demasia para fazer valer o investimento feito em máquinas caras e eficientes.

Eduardo repetia, quando oportuno, desconhecer sua reação ao saber-se contagiado por doença incurável e dolorosa. Também dizia aos amigos que temia morrer e deixar a bela mulher sem maiores dificuldades para encontrar quem o substituísse, talvez mais eficientemente.

                                                 ***

– “Vieste do pó e ao pó tornarás” – disse o pastor naquela tarde de céu escuro, com os relâmpagos a cortar o firmamento, acompanhados por trovões estridentes e assustadores.

O sacerdote estava ao lado do esquife que permanecia fechado, sem a tampa de vidro a revelar-lhe o conteúdo. Cem pessoas assistiam ao enterro. A viúva, uma belíssima senhora de trinta e cinco anos, encontrava-se debruçada sobre o caixão, e vez ou outra recebia um abraço amigo; dos homens, mais que “amigo”. Ela trajava vestido preto e tinha a cobrir-lhe a cabeça um véu escuro, rendado, com flores bordadas em negro. Estava sem os óculos escuros; portava apenas um pequeno lenço de linho que servia para enxugar alguma lágrima tardia.

O coveiro, a cada três segundos atirava terra sobre o caixão, que aos poucos foi sumindo envolto em uma massa de argila vermelha e lamacenta.

Terminado o enterro, um homem jovem, sem disfarçar os olhares lânguidos dirigidos à viúva, indagou-lhe de que morrera o marido.

– O coitado suicidou-se com um tiro na cabeça. Sofria de agressivo câncer no estômago. Temia o sofrimento físico. As dores para ele eram insuportáveis. Pobre Eduardo! Morreu com a mesma idade do amigo Sofonias – concluiu a viúva, sem alterar a fisionomia.

– Não consigo entender. Ele não se cuidava tanto? Não fazia repetidos exames médicos, periódicos e preventivos?

– Pois é, nem tudo é perfeito – respondeu ela, olhando para um elegante senhor, alto, forte, loiro e simpático, mas que mancava da perna esquerda.
 





Lamércio Maciel
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1904508

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Sobre o autor
Lamércio Maciel
Brasília/DF - Brasil, 68 anos
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