Caçadores da Noite VIII
Capítulo 8
Devon me acompanhou até o final da trilha, quando chegamos no parquinho nos despedimos e eu voltei a caminhar para casa sozinha. Ou pelos menos o que devia ser a minha casa agora.
- Com licença. – uma voz fina disse.
Me virei rapidamente pensando que poderia ser alguns dos Vampiros. Ele se aproximou quando viu que me virei e logo o reconheci. Era o garoto alto e de pernas finas que Raven tinha conversado no primeiro dia de aula.
- Olá. – disse num tom simpático.
- Não devia ir com eles. – seu tom ficou duro. – Toda essa beleza esconde todas as mentiras.
- Do que está falando? – o encarei.
- Sabe do que eu estou falando, tenha cuidado. – ele já estava indo embora agora.
- Espere. – gritei. – Qual é o seu nome?
Ele riu sombriamente. – Keith Haardy.
Da pra ser mais bizarro? Encolhi os meus ombros e voltei a andar, dessa vez mais rápido do que antes.
Por sorte eu já estava dormindo quando Raven chegou. Me concentrei no meu pai que alias não tem aparecido pra mim por um bom tempo. Papai agora é uma fantasma que não consegui fazer ir para luz, porque ele simplesmente decidiu que deve cuidar de mim. Me pergunto até quando ele vai poder ficar vagando por ai.
- Querida. – ele disse num tom carinhoso.
- Papai... – eu estava em soluços e lágrimas. – Eu não quero isso, olhe pra mim. Sou desajeitada e esquisita... Como posso lutar contra isso... Essa coisas... Elas simplesmente não devia existir. – disse com as lágrimas agora parando de escorrer pelo rosto. – Isso devia ser apenas histórias.
Ele segurou minha mão firme. – Toda a história tem um fundo de verdade. – ele deu um sorriso meigo. – Se não, de onde elas viriam? Sabe que o ser humano não é tão criativo assim...
- Mas e a mamãe?
- Esse é o código do caçadores mais importante que você deve saber. – ele estava com o rosto sério agora. – Jamais deve deixar qualquer outro humano saber o que somos e o que fazemos, principalmente a sua mãe. – ele pausou e me encarou pra ver se eu tinha entendido. – Coisas terríveis podem acontecer...
- E o que eu faço agora?
- Dentro de algumas semanas vão vir falar com você. Não se preocupe. – ele disse com voz serena. – Estarei ao seu lado, sempre.
- E quem são eles? – perguntei curiosa.
O despertador tocou levando embora a memoria. Acordei meio zonza o que sempre acontecia quando eu me lembrava do passado, senti o meu corpo mole, levantei devagar e praticamente me arrastei para o banheiro.
Abri a torneira do chuveiro e esperei até que água ficasse quente. Prendi o meu cabelo e descansei sobre a água que batia sobre o meu corpo. Me envolvi n toalha branco e meio velha da pensão. Raven ainda dormia profundamente. vesti a minha calça Jean de sempre e peguei a camiseta emprestada da Raven, era uma verde clara com o nome de sua banda favorita.
- Allyson. – a voz saiu como um sussurro pelo quarto.
Eu devia estar delirando. Ele não viria aqui. Não, sabendo... Que a minha amiga está ali dormindo.
- Allyson. – a voz se repetiu quebrando os meus pensamentos.
Me aproximei devagar da sacada observando atentamente Raven dormindo, abri as cortinas da janela e vi Devon sentado elegantemente sobre o parapeito as sacada. Sorri ao o ver ali, mesmo que seja errado.
- O que faz aqui? – perguntei surpresa.
- Houve umas complicações no colégio... E achei que como não vai ter aula, que gostaria de sair comigo. – ele sorriu travesso.
O encarei curiosa. – Você não teria nada haver com essa “complicações”, teria?
- Faz diferença? – ele olhou em meus olhos.
- Na verdade não. – dei de ombros. – Só curiosidade.
- Você ainda não me deu a sua resposta. – ele me lembrou.
- Você já está aqui mesmo... – zombei dele.
- Posso ir embora se quiser. – ele deu de ombros.
- Não. – disse rápido e alto demais.
Ele prendeu um riso. – Estou te esperando lá em baixo. – disse.
Respirei fundo e voltei para o quarto mais calma, peguei o meu caderno e escrevi nele em letras grandes e legíveis.
“ Vou caminhar, devo voltar tarde, não se preocupe.”
Sai do quarto fechando a porta devagar para não acordar Raven, andei o mais rápido possível pelo corredor e fiz o mesmos com as escadarias. Por sorte a recepção não estava movimentada. Devon estava me esperando encostado no poste de luz.
Acenei pra ele. – Pra onde vamos?
Ele riu. – É uma surpresa.
- Pode pelo menos me dizer o que fez para o colégio suspender as aulas? – ainda estava curiosa com aquilo.
- Também é uma surpresa. – ele me encarou.
Bufei baixinho de decepção.
- Vamos? – ele estendeu a mão pra mim.
Suspirei e entrelacei meu dedos nos seus. A mão dele estava muito mais gelada do que antes, me pergunto se isso tinha algo a ver com o que ele fez.
- Podemos ir mais rápido se usarmos a minha velocidade. – ele disse.
- Está me chamando de lenta? – o encarei.
- Me pegue então. – ele riu.
Ele sumiu ao meu lado, fechei o olhos e me concentrei no som por algum segundos.
- Esquerda. – sussurrei.
Olhei em volta e vi que não tinha ninguém na rua então comecei a correr atrás dele, era quase impossível o ver na velocidade em que corria, nós entramos no bosque principal. Devon era muito rápido tinha que admitir, aumentei a minha velocidade e quase toquei em sua jaqueta de couro preta. Ele soltou um risinho.
Saímos da trilha entrando dentro do bosque, ficou mais difícil correr com tantas árvores para desviar, mas pra ele era tão natural. Senti que ele estava se divertindo, mas não posso dizer o mesmo dos meus pés, que já começavam a queimar.
Corri por mais alguns metros e depois parei. Não porque meus pés estavam doendo, podia muito bem aguentar, mas sim porque meu pai estava parado bem na minha frente e bastante zangado.
- O que pensa que está fazendo? – ele parecia irritado.
- Correndo. – respondi normalmente.
- Allyson. – ele esfregou os dedos sobre a sobrancelha. – Não entendo. O que deu em você?
- Não tem nada de errado. – dei de ombros.
- Não! – ele gritou agora com sua voz grossa e irritada. – Está se aproximando de uma vampiro.
- Não tem nada demais em sermos amigos. – disse no mesmo tom dele.
Ele riu sem humor. – Querida. – seu tom baixou. – Nós dois sabemos que não é amizade por parte de nenhum de vocês.
- E o que isso tem de errado? – olhei em seus olhos.
- Vampiros são seres complicados... – ele suspirou.
- Estou cansada de fazer tudo por eles. – confessei. – Porque não posso fazer uma coisa por mim! Isso é tão egoísta assim?
- Allyson, me escute. – ele pousou sua mão sobre o meu ombros. – Volte para a pensão.
- Não.
- Sabe das consequencias disso? – ele me olhou preocupado agora. – Por favor.
- Não. –repeti.
- Não me obrigue a te levar a força de volta. – seu tom ficou mais duro.
- Papai. – disse calmamente. – Eu escolhi.
- Não pode estar falando sério. – ele me pareceu decepcionado.
- Eu aceitei a vida de caçadora. – o lembrei. – Desisti de tudo, dos meus sonhos, da mamãe, dos poucos amigos que tinha. Estou a dois anos vivendo em cemitérios, esgotos e cidade sem graças a procura de criaturas que desobedeceram as leis. E aceitei porque você disse que tinha.
Ele ficou calado.
- Peço que aceite agora que eu estou envolvida com Devon.
- Não vou permitir que se destrua.
- Não vou brigar com você. – disse.
- Allyson? – Devon me chamou.
- Eu vou com ele. – me virei.
- Querida. Pense bem. Está mexendo com gente poderosa. – ele me alertou.
- Te amo papai. – virei para dizer isso a ele e segui a voz de Devon.
- Eu também querida. – ele sussurrou pra mim. – Tome cuidado.
- Onde estava? – Devon pergunto preocupado.
- Conversando. – sorri pra ele.
- Com o que? – ele olhou em volta.
Sorri. – Longa história... A propósito te peguei. – entrelacei meus dedos nos dele.
- Vem. Vamos sair daqui.
Nós chegamos numa pequena cachoeira de água cristalina. Era maravilhoso, era uma pequena cachoeira bem no centro do bosque, a água era tão limpa que eu podia ver o peixes no rio que se formara ali também. Passei a mão pela água para checar a temperatura e estava razoável. O rio não era fundo, olhei para ver onde ele acabava mas tudo que vi foi a mata fechada o cobrir. Me virei e vi Devon deitado perto de um canteiro do flores.
- Aqui é lindo. – disse.
- Não mais que você. – ele estava ao meu lado em poucos segundos.
- Preciso te contar uma coisa. – me afastei da água.
Sentei próximo ao canteiro em que ele estava.
- Posso ver e falar com fantasma. - disse sem olhar em seu rosto. – Era com o meu pai que estava conversando.
Ele ficou em silêncio ao meu lado.
- Ele disse que isso é errado e perigoso.
- Eu vou te proteger. – ele beijou a minha testa. – De tudo.
- Não é comigo que estou preocupada. – confessei. – Eles não vão me machucar.
Ele passou a mão pelo cabelo e pela expressão em seu rosto, acho que ele compreendeu do que eu estava falando.
- Não se preocupe com isso. – ele disse.
- Como não? – levantei meu rosto agora. – Não quero que nada aconteça com você e se for por minha culpa... – entrei em desespero só de pensar nisso.
O toque gelado das pontas de seus dedos me fizeram perder o foco. Olhei em seus olhos e ele me pareciam preocupados. Devon pegou cuidadosamente a minha mão e a pousou em seu rosto. – Estou bem. – ele deu um sorriso torto.
A pele de seu rosto era gelada como o seus dedos, mas o frio não me incomodava, na verdade eu começava a gostar.
Seus olhos azuis me analisavam o meu rosto fixamente, corei. Senti um leve toque gelado no meu ombro, vi que seus dedos estavam ali, alisando a minha pele que devia ser quente pra ele.
Minha mão ainda estava em seu rosto, passei meus dedos devagar por seu pescoço sentindo uma pequena cicatriz. Olhei em seus olhos e ele ainda estavam fixos em mim.
- Quer me dizer alguma coisa? – perguntei quebrando o nosso intenso silêncio.
Ele balançou a cabeça negativamente.
Senti meu coração disparar quando ele se aproximou mais do meu corpo, minha respiração pareceu ficar cada vez mais pesada e minha mente estava a mil tentando o entender.
Ele ergueu o meu queixo devagar me pondo na altura do seu rosto. Seus lábios tocaram os meus suavemente, fechei os meus olhos e depois me afastei de devagar.
- Sinto que tem algo o perturbando. – confessei.
- Você se preocupa demais. – ele me alertou.
Ele acariciou os meus cabelos, passando seus dedos gelados por eles até chegar na minha nuca.
- Me conte o que está pensando. – ele pediu.
- Nesse momento? – suspirei.
- Sim.- ele concordou. – Pode me falar qualquer coisa.
- Você parece não se importar, nós estamos indo contra as regras e...
- Eu não vejo isso como algo errado. – ele sussurrou frente ao meu rosto.
- Eu não quis dizer isso... – disse com a voz meio tensa.
- O que fiz de tão ruim que o próprio amor me renega. – ele recitou de modo sarcástico.
- Me sinto bem melhor agora. – cruzei os braços.
- Acabei de me declarar a você. – ele sorriu. – Não entendeu?
Fiz uma careta pra ele. – Não é assim que se faz, não mais.
Ele sorriu, aquele lindo e brilhante sorriso. – Allyson. – ele pegou na minha mão e pousou seus lábios sobre os meus dedos os beijando. – Eu te amo.
As palavras pareciam ter batido no meu corpo surgindo um intenso arrepio, que se manifestou no meu corpo todo.
- Nos conhecemos a tão pouco tempo... – eu disse quase gaguejando.
- Sei o que sinto. – ele disse confiante. – Não precisa me dar uma resposta.
- Estamos piorando a cada passo. – ri.
- Não importa, nada vai afastar você de mim. – ele me aninhou em seus braços. – Vou te proteger, não tenha medo. – ele sussurrou por fim no meu ouvido.
Eu queria que tudo fossa mais fácil pra nós, eu gostava dele, mas do que qualquer outro cara. Sei que não foram muitos, sei que ele era uma vampiro e sei como termina todas as histórias com vampiro.
Não era isso com que me importava, o fato era que eu não devia me envolver com um deles, e a cada dia, eu estava mais apaixonada por ele.
Talvez eu deva ir embora. Talvez....
Cullen Nicole
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1905433
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