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O vigarista

Santa Heloísa é uma pequena cidade do interior da Paraíba. Sua economia é baseada nas culturas do feijão, do milho e da mandioca. A chuva é escassa e castiga o povo em ciclo rotineiro e perverso. Os produtores rurais garantem apenas a subsistência das famílias.

A pecuária da região é constituída de pequenos rebanhos, principalmente caprinos. Nada sobra para vender, exceto um ou outro cabrito transformado em dinheiro para comprar o remédio ou para cobrir a nudez dos corpos famélicos.

O comércio – meia dúzia de lojas – atende apenas às necessidades básicas de consumo, e a indústria nada produz, até por que não existe.

O município de Santa Heloísa é sustentado exclusivamente pelo Fundo de Participação dos Municípios. As aposentadorias pagas pela Previdência aos velhinhos do campo garantem ao comércio a abertura de suas portas. Sem isso, a economia local seria nula.

O prefeito, o padre e o delegado são as principais autoridades da cidade, este último nomeado por critérios políticos.

Naquele município carente e sofrido, nasceu Pedro Pedrosa. O menino frequentou a escola por pouco tempo, o suficiente para aprender a ler e assinar o nome com certa dificuldade. Aos dezoito anos, um metro e setenta de altura, moreno, forte e falante, deixou a terrinha e foi morar no Rio de Janeiro, cidade onde aprendeu a malandragem, a gíria, o gingado e o gosto pela vida irreverente, irresponsável e vagabunda.

Na cidade grande, conviveu com os mais diferentes tipos de pessoas. Ouvia rádio, via televisão, lia jornais e revistas, e assim terminou por reunir conhecimentos e sabedoria.

Formou-se na escola da vida.

Pedro não trabalhava. Também não roubava nem usava a força ou as armas para obter vantagens. Levava as pessoas no “papo”, com bons resultados em suas investidas.

Certa vez, Pedro chegou a uma cidade no interior de Goiás e procurou um pequeno hotel para se hospedar. Trazia consigo uma pasta e um pacote de reduzido tamanho. Assinou o Livro de Registro na presença de um hóspede, que depois soubera chamar-se Manoel Clementino. Recebeu as chaves do quarto, conversou com o dono da hospedaria, senhor Matias, e algumas vezes dirigiu a palavra ao hóspede que permanecia sentado em uma cadeira próxima.

Falaram de amenidades. Pedro contou estar ali para examinar um gado que pretendia comprar. Informou-se sobre o preço da arroba do boi em pé e se o rebanho da região era vacinado contra aftosa. Enfim, inteirou-se do que não pretendia.

Em determinado momento, levantou-se da cadeira, levou o chapéu de vaqueiro às mãos, bateu-lhe a aba e dirigiu-se à porta de saída. Deu o primeiro passo e parou. Voltou e disse para o senhor Matias:

– Faça-me um favor: guarde este embrulho por algumas horas. Tenha bastante cuidado; aí estão dez mil reais! Levarei a bolsa comigo. Até mais ver! – retirou-se, sem pressa. Ajustou o chapéu à cabeça, depois de alisar os cabelos crespos e grisalhos. Enfim, transpôs a porta do hotel e ganhou às ruas.

Manoel Clementino fora testemunha.

Seu Matias recebeu o pequeno pacote e ia colocá-lo no cofre quando a curiosidade o alcançou pelo caminho. Balançou o embrulho, levou-o ao ouvido, sem nada escutar. Sopesou-o, calculando: quinhentos gramas! Traído pelo desejo intenso de ver o seu conteúdo, resolveu abri-lo:

Nada!

Apenas papel cortado em forma de dinheiro. Intrigado com a situação, procurou o testemunho do senhor Manoel Clementino, mas o hóspede já havia saído. Silenciou sobre o assunto pelo resto do dia. Falaria com Pedro pela manhã.

O hoteleiro recolheu-se ao seu quarto. Não conseguia dormir. Perguntava-se como faria no dia seguinte para confessar ao hóspede que abrira o pacote e não vira ali nada, a não ser papel recortado, em forma de dinheiro?

Angustiava-se sozinho.

Não havia ninguém com quem compartilhar sua ansiedade. A mulher, companheira de longos anos, de todas as horas, havia falecido há pouco tempo. Um sonífero, tomado para conter a insônia, levou-o, minutos depois, a um estado fisiológico reparador. Entregou-se a Hipnos, o deus do sono.

Oito horas da manhã, anunciava o relógio de pêndulo antigo, fixado à parede frontal do refeitório. Pedro e um bom número de pessoas compartilhavam saboroso café, regado a broa de milho, uma iguaria feita por seu Matias. As daquele dia, porém, não eram tão fresquinhas; ele não havia acordado a tempo de prepará-las.

Pedro, satisfeito, robustecido, levantou-se e esfregou as mãos; soprou-as em seguida para aquecê-las do frio; despediu-se dos companheiros de mesa e desceu. Encontrou o hoteleiro na portaria, por trás do balcão.

– Bom dia, seu Matias! Dormiu bem?

– Que nada seu Pedro. Tive uma noite horrível! – respondeu o hoteleiro, ainda sonolento.

– Pois eu, não, dormi como um anjo! – disse Pedro, de sorriso escancarado.

Seu Matias, cansado e visivelmente nervoso, não conseguia encarar o cliente para contar-lhe a verdade. Temperou a garganta e, por fim, falou:

– Acho que o senhor enganou-se e entregou-me para guardar um pacote que não continha dinheiro e sim, papel cortado, sem nenhum valor.

– O que? – redarguiu Pedro, irritado. – Ali contém dez mil reais! Eu quero o meu dinheiro, agora! Do contrário, irei à polícia.

Sem ser satisfeito em suas exigências, saiu rumo à delegacia.

Nas primeiras horas da manhã, o senhor Matias falara sobre o assunto com o prefeito da cidade, seu amigo e compadre. Inteirou-lhe do problema e pediu-lhe indispensável ajuda.

Enquanto seu Matias se angustiava, o telefone tocou. Era o prefeito.

– Alô…

– Alô, compadre?



– Não se preocupe. Esse cara é um vigarista. Ele quer é dinheiro. Deixe-o comigo! Depois que você receber a intimação do delegado, na hora marcada para a audiência, estaremos lá, sentados nas últimas cadeiras. Quando o sujeitinho passar, você me dirá: “é aquele!” Então saberei como preparar a armadilha.

Na hora da audiência, conforme combinado, o prefeito e seu nervoso compadre sentaram nas últimas cadeiras do salão.

Delegado, escrivão, testemunhas, entre elas o hóspede Manoel Clementino, presente à entrega do pacote por Pedro ao seu Matias, todos a postos. Iniciada a sessão, Pedro entrou no recinto com passos firmes, sem notar o senhor Matias e o prefeito sentados na última fila.

– É aquele compadre! – cochichou ao ouvido do prefeito, tocando-lhe o joelho de leve.

O prefeito levantou-se, temperou a garganta e disse alto e bom som:

– Oh, rapaz, que cabeça a sua! Você deixou o dinheiro lá em casa, não lembra? Eu o guardei! – concluiu, certo de que Pedro, no afã de receber a vultosa quantia, de quem quer que fosse, confirmaria a insinuação.

Pedro não se alterou.

Dirigia-se à mesa do delegado quando foi interpelado por Sua Excelência. Virou-se com naturalidade e disse para o prefeito como se já o conhecesse de outra oportunidade:

– Aquele é outro. Em suas mãos está garantido. Gostaria de ter mais para entregar à guarda de tão valorosa e honesta pessoa. Eu quero, agora, os dez mil reais que entreguei ao hoteleiro para guardar. O que deixei com o senhor, pegarei antes de viajar. Muito obrigado!

E Pedro saiu dali vinte mil reais mais rico.








Lamércio Maciel
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1906249

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Sobre o autor
Lamércio Maciel
Brasília/DF - Brasil, 68 anos
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