Fulaninha e Dona Coisa
Esse era o apelido que ganharam essas duas mulhers na pequena Marilâdia MG.
Fulaninha, a irmã mais nova, era baixinha com o rosto redondo como um pão de queijo. Dona coisa era alta e tinha uma cara de poucos amigos.
Ficaram com esses apelidos por não lembrarem o nome das pessoas, por isso, tratavam todos de fulano e coisa. Eram boas pessoas apesar de muito ariscas aos outros.
Quando chegaram por lá, levando apenas uma trouxinha de roupas, apossaram-se de um barracão abandonado. Viviam uma pela outra, pois não tinham família, por isso, as duas não se separavam. apelido que ganharam essas duas mulheres na pequena Marilândia “MG”. Chegaram e ninguém sabia de onde vinham e nem porque escolheram ali para morar.
Quando saiam na rua, os meninos não davam sossego e gritavam: “Fulaninha!”, “Dona Coisa!”. Elas saíam do sério e corriam atrás da molecada com um pedaço de pau. No fundo, elas jamais fariam mal a quem quer que fosse.
Os adultos olhavam penalizados. Se não fossem tão carrancudas poderiam fazer mais por elas.
Naquela pequenina e pacata cidade, todos que chegavam por lá eram bem vindos. Mas com Fulaninha e Dona Coisa, foi diferente, pois eram arredias e pareciam ter medo dos outros.
O tempo foi passando e a situação das duas irmãs estava de mal a pior. Pareciam perdidas, não sabiam pedir, muito menos, fazer amigos.
O povo começou a notar que a situação das irmãs estava cada vez pior. Por sorte, alguém, certo dia, resolveu fazer alguma coisa.
Dona Madalena, a vizinha mais próxima, saiu em busca de ajuda. Foi até a igreja, onde as mulheres da cidade se reuniam para o grupo de orações. Chamou-as para uma conversa e contou a situação de Fulaninha e Dona Coisa. Todas se prontificaram a ajudá-las. Saíram dali e foram até a casa das duas que as receberam muito desconfiadas.
Dona Madalena tomou a palavra:
-Olha, nós viemos aqui para saber se querem a nossa ajuda.
Olharam uma para a outra desconfiadas e sorriram. Fulaninha respondeu:
- Sim! Precisamos muito. Já pensamos em voltar, mas não temos dinheiro nenhum.
-Somos velhas e ninguém nos aceita para trabalhar; acrescentou Dona Coisa.
As mulheres penalizadas tomaram uma decisão: saíram cada uma para um lado à procura de ajuda, afinal, elas eram de muita idade.
No final da tarde, se reuniram novamente na porta da igreja. Pela solidariedade do povo de Marilândia, arrumaram de tudo um pouco. Pediram ajuda ao Sr.José para levar toda a doação.
Quando bateram na porta das irmãs, elas os receberam com um sorriso largo. Já não tinham receios dos estranhos.
Até então, ninguém sabia o nome delas. Fulaninha chamava-se Aparecida e Dona Coisa, Maria do Carmo.
Daí em diante, as duas mudaram seus jeitos de ser e, com isso, passou ser respeitada pela meninada e toda a população.
Ninguém mais descuidou das velhinhas. Aceitaram ser chamadas de Fulaninha e Dona Coisa. As crianças passaram a chamá-las de Vó para a alegria das irmãs tão solitárias.
Hoje em Marilândia já não existem as pobres velhinhas Faleceram deixando saudades a todos os moradores.
No dia de finados são lembradas sempre. Seus túmulos ficam cobertos de flores e muitas velas.
No túmulo está escrito em relevo: “Fulaninha e Dona Coisa”. Com certeza apareceram outras como as inesquecíveis irmãs e, com certeza, serão bem acolhidos por todos daquela pequena cidade tão acolhedora de um coração enorme.
Zaretliteratura
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1906820
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