Texto

Ilusão da vida

Maria Rosa comprou a revista Show do Milhão, do SBT, depois de economizar em gastos com o transporte coletivo que a conduzia ao trabalho todos os dias.

Percorreu a pé os cerca de oito quilômetros entre sua casa e a residência da patroa, até conseguir os três reais necessários à aquisição da famosa revista.

Enfrentou o frio das manhãs de fim de outono com resignação. “Valeria a pena”, pensava ela. Quem sabe o esforço não seria recompensado com o sorteio para participar do programa? Seria emocionante encontrar-se frente a frente com seu ídolo maior, Sílvio Santos, em quem um dia prometera votar para presidente da República.

Diariamente, Maria Rosa elevava suas preces à Deus, em fervorosa oração. Pedia-Lhe a graça de ser contemplada no sorteio que a levaria ao Show do Milhão. Frequentadora assídua dos cultos da Igreja Mundial do Reino Divino, não duvidava do milagre.

Sentia a dádiva cada vez mais próxima.

Maria despachou o cupom pelos Correios.

Passados os dias, o telefone tocou na casa de Dona Alice, para quem trabalhava. Baixou o volume do rádio, que tocava estridente música evangélica, e atendeu à chamada. Julgava ser o pastor da igreja que, insistentemente, ligava para lembrar-lhe o pagamento do dízimo no final do mês. Alegre, como sempre, falou ao colocar o fone no ouvido:

– A paz do Senhor, irmão!

– Gostaria de falar com a senhora Maria Rosa, por favor!

– Pensei ser o pastor Arnaldo. Desculpe! Que Deus também lhe abençoe grandemente. É a Maria Rosa quem fala. O que deseja?

– Aqui é do SBT. A senhora foi sorteada para participar do programa Show do Milhão, no próximo dia dez.

– Oh, Deus, aleluia, Jesus! – disse entre soluços e louvores ao Senhor.

– A senhora virá acompanhada? Precisamos saber para emitir as passagens de avião e reservar os aposentos no hotel.

– Sim, irei com minha patroa, Alice Martins.

– Tudo bem, boa sorte! – desejou o representante do SBT.

Maria Rosa não continha a alegria. Colocou o telefone no gancho e dirigiu-se à cozinha; ajoelhada, orou ao Senhor, agradecida. Bastante ansiosa, aguardou a chegada de dona Alice, vinda de uma repartição pública municipal, depois de “exaustivo” dia de trabalho.

Maria contou a graça alcançada e confirmou com a patroa se esta a acompanharia a São Paulo.

– Sim, irei com você – respondeu a dona da casa.

Em seguida, Maria despediu-se de dona Alice e foi ao ponto do ônibus que a levaria à modesta casa onde morava na companhia dos filhos, José, de treze anos, e Laura, de dez.

Angustiada, aguardava o transporte chegar. Enquanto isso, pensava na viagem de avião; imaginava-se vestida com a roupa domingueira, via-se hospedada em hotel de luxo e, o que era melhor, sonhava em receber os “trinta mil real” das mãos do adorável Sílvio Santos.

Com esse dinheiro, compraria a casa própria, construída em alvenaria de tijolos, com cerca de sessenta metros quadrados, banheiro e vaso sanitário abrigados do sol, da chuva e do sereno.

Estaria rica dali a poucos dias.

Restava-lhe aguardar.

Distraída em seus pensamentos, não percebeu a aproximação do Chevette dirigido por um bêbado irresponsável, que pôs fim à sua vida.

Maria morreu sem conhecer Sílvio Santos.

O sonho da casa própria não se realizou.

Os filhos, órfãos, ficaram mais pobres ainda.




         
Lamércio Maciel
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908299

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Indique para amigos
Denuncie conteúdo abusivo

Comentários

Sobre o autor
Lamércio Maciel
Brasília/DF - Brasil, 68 anos
104 textos (1994 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 04:30)

Como anunciar aqui?