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Os Colonizadores - Parte VI

Anjos e demônios
- A dois séculos atrás as viagens espaciais não eram como são hoje. – A voz de Esoj era firme, mas com um leve tom de nostalgia As naves levavam sete, dez pessoas no Maximo. Já existia transporte regulares entre a terra e as colônias de mineração lunares, mas vôos alem da lua eram ainda aventuras. Não como as dos primeiros espaçonautas, Ferman, Castro e Rodrigues, que viajaram da Terra a marte usando caquéticos computadores com processadores de silício, já tínhamos processadores com cristais quânticos. Mas ainda assim era uma aventura.
- Bom, o fato é que eu , meu amigo Winston e um jovem cadete fomos designados para auxiliar numa descoberta inusitada em Europa, uma das luas de Júpiter. A frota havia conseguido plantar uma estação de pesquisa em órbita de Europa e depois de quase cinco anos a estação estava solicitando urgentemente auxilio para gerir uma descoberta.
- Espere um pouco, Europa é zona proibia no sistema solar. As manifestações gravitacionais e cinturões de radiação ali tornam impraticáveis qualquer estação orbital aquele satélite.
Thais não queira ser rude, mas tinha que fazer aquele aparte. Tudo bem era O Espaçonauta, mas ainda assim ela conhecia bem o sistema solar e não iria ficar ouvindo historinhas de criança, era uma profissional séria e queria ser tratada como tal.
- Sabe oficial tahis, uma das grandes vantagens da imortalidade é que quando você quer esconder um segredo os cargos não ficam mudando de mão. E se você cria uma historia e vive para sempre para mante-la, quem não iria acreditar. Lembre-se que a mais de 300 anos a direção do conselho solar é a mesma. Qualquer estória que tenham porventura que ter criado está sendo mantida sempre pelas mesmas pessoas, não existe solução de continuidade uma vez que todos os cargos de alta chefia são vitalícios, e vitalício quando se é virtualmente imortal, é muito tempo.
- Mas...
- Deixe-me terminar o relato garota. Paciência continua sendo algo que os jovens não têm, tenham eles 18 ou 50 anos.
- Mas como eu ia dizendo antes de ser tão rudemente interrompido. Chegamos à estação e fomos informados pela comandante, uma tal de Enaj, se não me engano – O almirante acenou levemente a cabeça concordando. Pois bem esta comandante nos avisou que haviam descoberto algo incrível em Europa. Bom, eu sempre fui militar e a comandante apesar do posto era um cientista e eu pensei: - Ora bolas, se estes cientistas encontram um cristal de gelo diferente já acham que é um novo universo. Mas desta vez tive que morder minha língua, a descoberta era realmente assombrosa.
- Como todos sabem Europa é um satélite de Júpiter, mas por seu tamanho a Terra seria facilmente uma lua de Europa. Bem todo o satélite é coberto de oceanos congelados. A capa de gelo em alguns pontos chega a 50 metros, mas em locais mais finos não passa de 15 metros. A superfície esta sempre em movimento mesmo a espessa capa de gelo é agitada pelas marés interiores monstruosas geradas pela presença de Júpiter. Bom mas chega de espaço-oceanografia. O fato é que abaixo desta capa de gelo a estação tinha localizado nada mais nada menos que 1001 artefatos metálicos.
- Hein???? – Thais quase cai de sua cadeira.
- Posso continuar?
- Desculpe senhor. – Seu olhar era o de uma criança repreendida.
- Cada artefato era mais ou menos do tamanho de nossos casulos de emergência e dentro de cada um deles havia uma forma humanóide.
Os olhos de Thais se abriram imensamente mostrando sua surpresa.
- Vivos?
- Sim, em sono crigenico. Era para isto que o conselho planetário nos havia enviado. A estação precisava de alguém com experiência militar por perto caso algo desse errado. Eles haviam recolhido um dos casulos e iriam abri-lo, só aguardavam nossa chegada.
- Bem como já disse a comandante Enaj nos recebeu ao chegarmos à estação e nos acompanhou até o laboratório de reanimação criogênica. Apesar de alienígenas a tecnologia deles não parecia diferir muito da nossa de sono criogênico. Os cientistas já haviam iniciado o processo quando chegamos. Vejam bem, naquele tempo uma reanimação de um ser humano normal durava em torno de 4 a 6 horas, daí terem imaginado que teríamos tempo suficiente para acompanhar o processo.
- Mas não foi o que aconteceu, e Winston pagou com a vida pela imprudência dos miseráveis.
A voz de Esoj ficou embargada e ele baixou lentamente a cabeça, como se o peso do universo houvesse desabado sobre seus ombros.
- Faz 248 anos e eu ainda acordo a noite com os seus gritos...
O almirante Alberto colocou-se as costas do velho espaçonauta e pousou as suas mão em seus ombros. Quando falou, havia uma candura em sua voz que Thais jamais pensou que pudesse vir de um homem como ele.
- O jovem cadete a quem Esoj se referia era eu. Naquela época eu tinha pouco mais de 30 anos e estava achando incrível a possibilidade de acompanhar as lendas vivas Esoj e Winston numa missão. Mas nunca imaginaria que seria o meu batismo de fogo.
- Winston era especialista em exo-arqueologia e estava intrigado com os símbolos inscritos no casulo. Como imaginávamos ter ainda umas 3 horas ele aproveitou para gravá-los em holodisco. Mas a uma primeira vista ele de cara identificou os símbolos com achados arqueológicos de inicio do século 19 nas montanhas de Yucatan. Winston era assim, uma biblioteca humana de conhecimento arqueológicos, tanto da terra quanto do espaço. Nunca saberei dizer como ele fez, mas em menos de 20 minutos ele havia decifrado os símbolos. Nunca me esquecerei.
”Deixai repousar aqueles a quem o tempo é destinado.
 Que paguem pelo seu crime pela eternidade.
Por sua afronta no gelo eterno será guardado,
Samael flagelo da humanidade.”
- No momento em que Winston leu estas palavras o processo criogênico completou-se. Foram 29 minutos. Imagine só. Um homem normal de quatro a seis horas, aquele ser se reanimou em 29 nimutos. A tampa do tanque explodiu com um baque surdo, e vapores criogênicos invadiram a sala. Houve muita névoa, e a visibilidade ficou zero. Quando os exaustores conseguiram limpar a sala, Winston estava morto, caído no cão como um boneco velho, seus membros em posições impossíveis. Sua cabeça havia sido torcia totalmente para trás. Seus braços apresentavam fraturas múltiplas, suas pernas quebradas na altura da bacia, levantadas até os ombros, os olhos eram duas poças negras e um sangue escuro escorria de sua boa. Mas o pior era a cor de sua pele, escura, macilenta, enrugada como se a vida lhe houvesse sido arrancada num sopro.
- Em pé ao lado de seu corpo, a criatura. Era humanóide com certeza, passaria por humano facilmente, não fossem duas asas membranosas nas costas. Era alto, bem mais lato que eu, talvez 2,20m olhos claros, pele clara e cabelos mais loiros que os de Haline. Era forte sem ser desproporcional. Sua figura inspirava admiração, respeito, medo, ódio, amor, repulsa, desejo. Um coquetel emocional. E quando ele me olhou eu me senti o menor dos insetos.
- Então ele falou. Inicialmente numa língua totalmente estranha, mas à medida que ele ia falando as palavras foram se tornando compreensíveis até que em questão de minutos ele falava Esperanto, como qualquer terrestre. Era como se ele estivesse sintonizando a linguagem. E ele falou.
- Bem vindos meus filhos, Samael lhes agradece a libertação de seu sono. Vejo que minhas sementes germinaram bem e que a Terra produziu bons frutos. Fico feliz que tenham alcançado as estrelas e sendo assim ter a graça de acordar vosso criador.
Eu sou Samael, que semeou a vida na Terra. Eu sou o pastor de estrelas, o acendedor de sois eu sou aquele que os criou, eu sou a Estrela da Manhã.
Eu sou Lúcifer.
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Publicado no Recanto das Letras em 27/05/2008
Código do texto: T1007573
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Sobre o autor
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Belo Horizonte/MG - Brasil, 42 anos, Escritor Amador
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